|
Deu Branco
Tensão dificuldade para lidar com pressões externas e
medo do fracasso fazem a memória "esquecer' o que sabe.
Horas de estudo diárias, meses à fio. Todas as fórmulas decoradas, todos os conceitos absorvidos. Mas
basta dar uma olhada na prova e ler um exercício que não pareça familiar para pôr tudo a perder. O "branco",
inimigo de estudantes de todas as idades, pode transformar um dia de prova num inferno. Pior ainda quando vira uma
ameaça freqüente.
"Alguns chegam à minha sala chorando, dizendo que sabiam toda a matéria mas não conseguem fazer a prova", conta a
coordenadora educacional do colégio Matter Dei, Regina Ratto, 51. Na maioria das vezes, diz ela, são alunos
dedicados e preocupados com o desempenho escolar.
É o caso de Cindy Fernandes,13, aluna da 7ª série, que estuda entre uma e duas horas todos os dias e faz aulas
particulares de português e matemática. "Não deixo o estudo para a última hora para não ficar
estressada", diz. Mesmo assim, na hora da prova, um bloqueio a impede de lembrar o que foi estudado. "Eu fico muito nervosa e quase
sempre tenho 'branco'."
Relacionado a aspectos psicológicos, esse problema é geralmente provocado por situações de tensão,
possivelmente gerada pelo excesso de expectativas, dos pais ou do próprio estudante. Somada à
necessidade de tirar notas altas ou a um possível fracasso anterior, a tensão
acaba gerando uma sensação de impotência.
"Eles põem na cabeça que não são capazes e ficam com a auto-estima muito baixa", diz a psicóloga Nívea
Fabrício, 51. "Em outros casos, o estudo de um conteúdo gera tanta angústia que, inconscientemente, eles o
eliminam da mente".
Estudantes em época de vestibular estão entre as vítimas mais freqüentes. A importância do sucesso na
prova toma proporções exageradas, e alguns chegam a perder o controle emocional. "Já tive pacientes que
tentaram suicídio depois de fracassar no vestibular", diz Nívea, que recomenda apoio psicológico quando esse
bloqueio passa a interferir na vida pessoal. "A função da análise é melhorar a
auto-estima e ajudar o jovem a lidar melhor com as pressões".
Apesar de não ser considerado uma doença, o bloqueio de memória indica uma má função do cérebro, segundo o
neurologista Ricardo Nitrini, 54. A memória é um conjunto de informações que ficam guardadas na
ligação entre os neurônios, em forma de estímulos.
"É como uma série de códigos que vamos acumulando durante a vida", explica. Toda a informação apreendida
é codificada pela mente. O normal é que, respondendo a um estímulo externo, a mente "devolva" os dados guardados.
Nesse processo, dois tipos de falha podem gerar o bloqueio. O primeiro é quando a informação não é bem
codificada. "Isso é mais comum entre os alunos que estudam na véspera da prova e não têm tempo de absorver a
matéria com calma", diz o neurologista.
A outra é quando a informação está gravada, mas o estudante não consegue acessá-la, ou não é capaz de
"decifrar" os códigos. "A mente deve criar 'atalhos' que, quando for preciso, a levem até a informação gravada
nas diferentes partes do cérebro. Sob intensa pressão, esses 'atalhos' podem não funcionar direito e o estudante
não conseguir acessar a informação, mesmo que ela esteja muito bem codificada", explica.
A dificuldade de Kelly Cristina dos Santos, 19, que já fez 17 provas vestibulares para medicina, se enquadra na
segunda categoria. Depois de três anos de cursinho preparatório, ela sabe toda a matéria de cor, mas não
consegue ir bem nas provas.
"Está tudo claro na minha cabeça, mas, quando abro o teste, entro em pânico e não consigo me lembrar de mais
nada", diz. Passado o momento de pressão, tudo volta a funcionar normalmente. "Quando chego em casa, sou capaz de
pegar os mesmos exercícios e resolver sem problemas".
A receita para o bom funcionamento da memória depende de questões físicas e psicológicas. Procurar afastar a
ansiedade e pensar positivo são os conselhos da psicóloga Nívea Fabrício. "A pessoa tem que se
conscientizar, se convencer de que sabe toda a matéria e é capaz".
A pedagoga Regina Ratto sugere algo válido para qualquer um, mas fundamental para as vítimas dos "brancos":
estudar constantemente e tirar as dúvidas na sala de aula para não perder o contato com a matéria. "Pelo menos uma
hora diariamente", diz.
Na parte física, dormir de seis a oito horas por dia, não consumir álcool e se
manter alimentado são três medidas que podem ajudar bastante, diz o neurologista
Ricardo Nitrini. "Um cérebro saudável sempre funciona melhor."
Os bloqueios nossos de cada dia: Não conseguir lembrar o nome de um ator famoso, esquecer
uma palavra comum ou a data de aniversário do irmão são pequenas falhas de memória que não precisam de
pressão externa para acontecer - embora o estresse possa acelerar sua ocorrência. "Esses lapsos são inofensivos,
fazem parte dos processos naturais do cérebro, que está em constante transformação", explica o médico Ricardo
Nitrini, professor de neurologia da USP.
A cada informação importante codificada pela mente, outras tantas superficiais ou inúteis são excluídas.
São aqueles detalhes de que você se lembra no momento em que acontecem, mas depois, gradualmente, desaparecem da
lembrança.
No dia, além de um filme marcante que acabou de assistir, por exemplo, a pessoa é capaz de lembrar o que tomou no
café da manhã e os detalhes da noite anterior, passada com amigos. Em algumas semanas, a lembrança do café da
manhã já foi, mas a do encontro com os amigos ainda resiste - em um ou dois anos, apenas o conteúdo do filme
terá sido arquivado na memória.
Acontece que nesse processo de seleção, o cérebro pode "deletar" algumas informações que deveriam ter sido
arquivadas: no caso do filme marcante, por exemplo, a memória apaga o nome do ator principal ou como a
história termina.
Os dados recolhidos pelos sentidos são guardados conforme o "canal de recepção", Um show, por exemplo, será
arquivado em vários compartimentos cerebrais: a imagem, no lobo occipital; os sons, no temporal; cheiros e
sensações ficam no parietal. Para recuperar as lembranças do show, cabe ao lobo frontal juntar cada um
desses aspectos e "entregar" o arquivo completo.
Os arquivos do cérebro. O lobo frontal não guarda informações, só organiza e
executa.
O lobo temporal armazena todos os dados captados pela audição - nomes, músicas ou as lições do professor
em aula, por exemplo.
O lobo parietal recebe e interpreta informações dos sentidos, como toque,
temperatura, pressão e dor.
No lobo occipital são analisadas e guardadas informações captadas pelos olhos, independentemente de
seu conteúdo. Leituras, desenhos e fisionomia de pessoas dividem espaço aqui.
Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista
Fonte: Jornal Folha São Paulo - por Carla Gomes
|