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DIA DA POESIA

 

DIA DA POESIA

Curiosamente, há dois dias próximos um do outro que são reconhecidos como o Dia da Poesia: 14 de março e 21 de março. Vejamos.

A 30ª sessão da Conferência Geral da UNESCO proclamou o dia 21 de março como o Dia Mundial da Poesia. Entre os objetivos dessa iniciativa está o incentivo e reconhecimento da poesia regional, nacional e internacional, e desencadear processos que devem servir para apoiar a diversidade lingüística e cultural, utilizando a expressão poética, e oferecer a línguas ameaçadas de extinção a oportunidade de serem ouvidas na comunidade internacional.

No Brasil, foi escolhido o dia 14 de março para se comemorar o Dia Nacional da Poesia, data de aniversário do poeta Castro Alves, que nasceu na Bahia em 1847 e faleceu em Salvador em 6 de janeiro de 1871. Também se comemora nesta data (14 de março) o Dia do Vendedor de Livros.
A poesia nasceu na Grécia antiga, berço da civilização ocidental, com Homero, autor de Ilíada e da Odisséia.

Desconheço, pelo menos em Franca e região, formas oficiais determinadas para comemorar esse dia. Meios, inteligência e sensibilidade não faltam. Franca e Ribeirão Preto, por exemplo, pelas suas academias de letras, poderiam variar de leituras públicas à concessão de prêmios de poesia. E nas escolas públicas e particulares, professores de língua e literatura deveriam lembrar aos seus alunos o dia e a homenageada, e proceder à leitura das poesias compostas ao longo do tempo, para que crianças, adolescentes e universitários, ao menos uma vez num determinado período escolar, tivessem a oportunidade de reconhecer – sem a obrigatoriedade da aula e prova; apenas o prazer de ler - um dos processos mais significativos e causadores de emoção, de sensibilização da alma humana pela palavra.

Reconheçamos, no entanto, que a poesia não nasce já formatada unicamente pela palavra. Surgiu simultaneamente com a música, a dança e o teatro, em época que remonta à Antigüidade histórica. No decorrer da história, ensaístas e filósofos já se preocupavam com a essência da poesia, numa tentativa de desligá-la da matriz onde fermentara com outras expressões que também foram conquistando autonomia e passando à qualidade de gêneros. A poesia, ligada à estrutura narrativa, é a expressão artística que mais discussões tem suscitado em relação à sua essência.

Teorias contemporâneas têm levado bem mais longe o princípio da autonomia da palavra poética. Assim foi no Renascimento, na época romântica, no realismo, notadamente no modernismo brasileiro.
Mas ao leitor comum, despreocupado com a memorização de teorias, conceitos e versos de poetas famosos para repeti-los ou identificá-los em processos seletivos de entrada nas universidades e concursos públicos, pouco interessam essas discussões. Delícia mesmo é descansar o corpo, acalmar a mente e deixar a alma vagar pelas imagens, entre metáforas e versos quebrados e inteiros, rimados e livres, de hoje e de ontem...Porque a poesia é a expressão pela linguagem humana, elevada ao seu ritmo essencial, do sentido misterioso dos aspectos da existência: ela dota de autenticidade nossa vida e constitui-se numa tarefa de ordem espiritual. É a linguagem dos anjos.

Com efeito, alguns poetas românticos viam na poesia a palavra primitiva revelada ao homem por inspiração divina. Coleridge, poeta romântico inglês, dissera que “as divinas verdades da religião tiveram de ser reveladas ao homem na forma de poesia”, situando a poesia como uma serva da religião. Mas Novalis, poeta alemão, invertia a relação desses termos, dando prioridade à poesia sobre a religião: “A religião não é senão a poesia prática... A poesia é a religião original da humanidade.”
É quando busco uma poesia para ilustrar essas afirmações. Instintivamente, estendo o braço em direção às obras de Fernando Pessoa. Tomo um livro à mão, folhei-o à toa, e eis-me diante do contraditório que, a um só tempo, resume meu pensamento:

LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não! 

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca. 

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Everton de Paula - Diretor de Publicações da Universidade de Franca.

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