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O Cortiço (1890) - Aluísio
Azevedo - Parte I
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que
enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos
do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de
anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de
ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um
conto e quinhentos em dinheiro.
Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda
com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava
resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em
cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha.
A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira
sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente
em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e
fazia fretes na cidade.
Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguesada
do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de fígado;
pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de
parte quase que o necessário para a alforria. Um dia, porém, o seu homem,
depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu
morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.
João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante
direto dos sofrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa
mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abriu-se com ele,
contou-lhe a sua vida de amofinações e dificuldades. “Seu senhor comia-lhe a
pele do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar pr’ali,
todos os meses, vinte mil-réis em dinheiro!” E segredou-lhe então o que tinha
juntado para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as
economias, porque já de certa vez fora roubada por gatunos que lhe entraram na
quitanda pelos fundos.
Daí em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da
crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela
produzia e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se
encarregava de remeter ao senhor os vinte mil-réis mensais. Abriu-lhe logo uma
conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer
coisa, dava um pulo até à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de “Seu
João”, como ela dizia. Seu João debitava metodicamente essas pequenas quantias
num caderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escrito e em letras
cortadas de jornal: “Ativo e passivo de Bertoleza”.
E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espírito da mulher, que
esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava dele, cegamente, todo e
qualquer arbítrio. Por último, se alguém precisava tratar com ela qualquer
negócio, nem mais se dava ao trabalho de procurá-la, ia logo direito a João
Romão.
Quando deram fé estavam amigados.
João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno
ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao
meio paralelamente à rua, sendo a parte da frente destinada à quitanda e a do
fundo para um dormitório que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza. Havia,
além da cama, uma cômoda de
jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarelo já mareadas, um oratório
cheio de santos e forrado de papel de cor, um baú grande de couro cru
tacheado, dois banquinhos de pau feitos de uma só peça e um formidável cabide
de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita.
O vendeiro nunca tivera tanta mobília.
- Agora, disse ele à crioula, as coisas vão correr melhor para você. Você vai
ficar forra; eu entro com o que falta.
Nesse dia ele saiu muito à rua, e uma semana depois apareceu com uma folha de
papel toda escrita, que leu em voz alta à companheira.
- Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida à leitura, que ela ouviu
entre lágrimas agradecidas. Agora está livre. Doravante o que você fizer é só
seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o cativeiro de pagar os
vinte mil-réis à peste do cego!
- Coitado! A gente se queixa é da sorte! Ele, como meu senhor, exigia o
jornal, exigia o que era seu!
- Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!
Contra todo o costume, abriu-se nesse dia uma garrafa de vinho do Porto, e os
dois beberam-na em honra ao grande acontecimento. Entretanto, a tal carta de
liberdade era obra do próprio João Romão, e nem mesmo o selo, que ele entendeu
de pespegar-lhe em cima, para dar à burla maior formalidade, representava
despesa porque o esperto aproveitara uma estampilha já servida. O senhor de
Bertoleza não teve sequer conhecimento do fato; o que lhe constou, sim, foi
que a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.
- O cego que venha buscá-la aqui, se for capaz... desafiou o vendeiro de si
para si. Ele que caia nessa e verá se tem ou não pra pêras!
Não obstante, só ficou tranqüilo de todo daí a três meses, quando lhe constou
a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos
filhos do morto; mas, por estes, nada havia que recear: dois pândegos de marca
maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na
pista de uma crioula a quem não viam de muitos anos àquela parte. “Ora!
bastava já, e não era pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!”
Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel tríplice de
caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; às
quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para
os fregueses e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma
pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda. Varria
a casa, cozinhava, vendia ao balcão na taverna, quando o amigo andava ocupado
lá por fora; fazia a sua quitanda durante o dia no intervalo de outros
serviços, e à noite passava-se para a porta da venda, e, defronte de um
fogareiro de barro, fritava fígado e frigia sardinhas, que Romão ia pela
manhã, em mangas de camisa, de tamancos e sem meias, comprar à praia do Peixe.
E o demônio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e consertar, além da
sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta e nunca
passava em todo o mês de alguns pares de calças de zuarte e outras tantas
camisas de riscado.
João Romão não saia nunca a passeio, nem ia à missa aos domingos; tudo que
rendia a sua venda e mais a quitanda seguia direitinho para a caixa econômica
e daí então para o banco. Tanto assim que, um ano depois da aquisição da
crioula, indo em hasta pública algumas braças de terra situadas ao fundo da
taverna, arrematou-as logo e tratou, sem perda de tempo, de construir três
casinhas de porta e janela.
Que milagres de esperteza e de economia não realizou ele nessa construção!
Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra; pedra, que o
velhaco, fora de horas, junto com a amiga, furtavam à pedreira do fundo, da
mesma forma que subtraiam o material das casas em obra que havia por ali
perto.
Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do melhor
sucesso, graças à circunstância de que nesse tempo a polícia não se mostrava
muito por aquelas alturas. João Romão observava durante o dia quais as obras
em que ficava material para o dia seguinte, e à noite lá estava ele rente,
mais a Bertoleza, a removerem tábuas, tijolos, telhas, sacos de cal, para o
meio da rua, com tamanha habilidade que se não ouvia vislumbre de rumor.
Depois, um tomava uma carga e partia para casa, enquanto o outro ficava de
alcatéia ao lado do resto, pronto a dar sinal, em caso de perigo; e, quando o
que tinha ido voltava, seguia então o companheiro, carregado por sua vez.
Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavalos de pau, o
banco ou a ferramenta dos marceneiros.
E o fato é que aquelas três casinhas, tão engenhosamente construídas, foram o
ponto de partida do grande cortiço de São Romão.
Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o vendeiro
conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da sua bodega; e, à
proporção que o conquistava, reproduziam-se os quartos e o número de
moradores.
Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não perdendo nunca a
ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar todas as vezes que
podia e nunca deixando de receber, enganando os fregueses, roubando nos
pesos e nas medidas, comprando por dez réis de mel coado o que os escravos
furtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez mais as próprias
despesas, empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga
como uma junta de bois, João Romão veio afinal a comprar uma boa parte da bela
pedreira, que ele, todos os dias, ao cair da tarde, assentado um instante à
porta da venda, contemplava de longe com um resignado olhar de cobiça.
Pôs lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lajedos e
paralelepípedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em grosso que,
dentro de ano e meio, arrematava já todo o espaço compreendido entre as suas
casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta braças de fundo sobre vinte de
frente em plano enxuto e magnífico para construir.
Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que ficava à direita
da venda, separado desta apenas por aquelas vinte braças; de sorte que todo o
flanco esquerdo do prédio, coisa de uns vinte e tantos metros, despejava para
o terreno do vendeiro as suas nove janelas de peitoril. Comprou-o um tal
Miranda, negociante português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de
fazendas por atacado. Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-ia ele
para lá com a família, pois que a mulher, Dona Estela, senhora pretensiosa e
com fumaças de nobreza, já não podia suportar a residência no centro da
cidade, como também sua menina, a Zulmirinha, crescia muito pálida e precisava
de largueza para enrijar e tomar corpo.
Isto foi o que disse o Miranda aos colegas, porém a verdadeira causa da
mudança estava na necessidade, que ele reconhecia urgente, de afastar Dona
Estela do alcance dos seus caixeiros. Dona Estela era uma mulherzinha levada
da breca: achava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao
marido toda sorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de
matrimônio, o Miranda pilhou-a em flagrante delito de adultério; ficou furioso
e o seu primeiro impulso foi de mandá-la para o diabo junto com o cúmplice;
mas a sua casa comercial garantia-se com o dote que ela trouxera, uns oitenta
contos em prédios e ações da divida publica, de que se utilizava o desgraçado
tanto quanto lhe permitia o regime dotal. Além de que, um rompimento brusco
seria obra para escândalo, e, segundo a sua opinião, qualquer escândalo
doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de
tudo, a sua posição social e tremia só com a idéia de ver-se novamente pobre,
sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de se haver habituado
a umas tantas regalias e afeito à hombridade de português rico que já não tem
pátria na Europa.
Acovardado defronte destes raciocínios, contentou-se com uma simples separação
de leitos, e os dois passaram a dormir em quartos separados. Não comiam
juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra palavra constrangida, quando
qualquer inesperado acaso os reunia a contragosto.
Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco a
pouco se foi transformando em repugnância completa. O nascimento de Zulmira
veio agravar ainda mais a situação; a pobre criança, em vez de servir de elo
aos dois infelizes, foi antes um novo isolador que se estabeleceu entre eles.
Estela amava-a menos do que lhe pedia o instinto materno por supô-la filha do
marido, e este a detestava porque tinha convicção de não ser seu pai.
Uma bela noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue esperto e orçava
então pelos seus trinta e cinco anos, sentiu-se em insuportável estado de
lubricidade. Era tarde já e não havia em casa alguma criada que lhe pudesse
valer. Lembrou-se da mulher, mas repeliu logo esta idéia com escrupulosa
repugnância. Continuava a odiá-la. Entretanto este mesmo fato de obrigação em
que ele se colocou de não servir-se dela, a responsabilidade de desprezá-la,
como que ainda mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel
um fruto proibido. Afinal, coisa singular, posto que moralmente nada
diminuísse a sua repugnância pela perjura, foi ter ao quarto dela.
A mulher dormia a sono solto. Miranda entrou pé ante pé e aproximou-se da
cama. “Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem aquilo!...” Mas o sangue
latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um instante, imóvel, a contemplá-la
no seu desejo.
Estela, como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo, torceu-se sobre o
quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a frente e
patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda não pôde resistir,
atirou-se contra ela, que, num pequeno sobressalto, mais de surpresa que de
revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando com o marido. E deixou-se
empolgar pelos rins, de olhos fechados, fingindo que continuava a dormir, sem
a menor consciência de tudo aquilo.
Ah! ela contava como certo que o esposo, desde que não teve coragem de
separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de procurá-la de novo.
Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e fraco para resistir ao
desejo.
Consumado o delito, o honrado negociante sentiu-se tolhido de vergonha e
arrependimento. Não teve animo de dar palavra, e retirou-se tristonho e murcho
para o seu quarto de desquitado.
Oh! como lhe doía agora o que acabava de praticar na cegueira da sua
sensualidade.
- Que cabeçada!... dizia ele agitado. Que formidável cabeçada!...
No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em silêncio, como se nada de
extraordinário houvera entre eles acontecido na véspera. Dir-se-ia até que,
depois daquela ocorrência, o Miranda sentia crescer o seu ódio contra a
esposa. E, à noite desse mesmo dia, quando se achou sozinho na sua cama
estreita, jurou mil vezes aos seus brios nunca mais, nunca mais, praticar
semelhante loucura.
Mas, daí a um mês, o pobre homem, acometido de um novo acesso de luxúria,
voltou ao quarto da mulher.
Estela recebeu-o desta vez como da primeira, fingindo que não acordava; na
ocasião, porém, em que ele se apoderava dela febrilmente, a leviana, sem se
poder conter, soltou-lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada que a custo
sopeava. O pobre-diabo desnorteou, deveras escandalizado, soerguendo-se,
brusco, num estremunhamento de sonâmbulo acordado com violência.
A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir; passou-lhe rápido
as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o com uma metralhada de
beijos.
Não se falaram.
Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no prazer.
Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante apaixonada:
descobriu nela o capitoso encanto com que nos embebedam as cortesãs amestradas
na ciência do gozo venéreo. Descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos
cabelos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro hálito, outro som nos
gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delírio, com
verdadeira satisfação de animal no cio.
E ela também, ela também gozou, estimulada por aquela circunstância picante do
ressentimento que os desunia; gozou a desonestidade daquele ato que a ambos
acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se toda, rangendo os dentes,
grunhindo, debaixo daquele seu inimigo odiado, achando-o também agora, como
homem, melhor que nunca, sufocando-o nos seus braços nus, metendo-lhe pela
boca a língua úmida e em brasa. Depois, um arranco de corpo inteiro, com um
soluço gutural e estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se num
abandono de pernas e braços abertos, a cabeça para o lado, os olhos moribundos
e chorosos, toda ela agonizante, como se a tivessem crucificado na cama.
A partir dessa noite, da qual só pela manhã o Miranda se retirou do quarto da
mulher, estabeleceu-se entre eles o hábito de uma felicidade sexual, tão
completa como ainda não a tinham desfrutado, posto que no intimo de cada um
persistisse contra o outro a mesma repugnância moral em nada enfraquecida.
Durante dez anos viveram muito bem casados; agora, porém, tanto tempo depois
da primeira infidelidade conjugal, e agora que o negociante já não era
acometido tão freqüentemente por aquelas crises que o arrojavam fora de horas
ao dormitório de Dona Estela; agora, eis que a leviana parecia disposta a
reincidir na culpa, dando corda aos caixeiros do marido, na ocasião em que
estes subiam para almoçar ou jantar.
Foi por isso que o Miranda comprou o prédio vizinho a João Romão.
A casa era boa; seu único defeito estava na escassez do quintal; mas para isso
havia remédio: com muito pouco compravam-se umas dez braças daquele terreno do
fundo que ia até à pedreira, e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que
ficava a venda.
Miranda foi logo entender-se com o Romão e propôs-lhe negócio. O taverneiro
recusou formalmente.
Miranda insistiu.
- O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza. Nem só
não cedo uma polegada do meu terreno, como ainda lhe compro, se mo quiser
vender, aquele pedaço que lhe fica ao fundo da casa!
- O quintal?
- É exato.
- Pois você quer que eu fique sem chácara, sem jardim, sem nada?
- Para mim era de vantagem...
- Ora, deixe-se disso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe propus.
- Já disse o que tinha a dizer.
- Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo.
- Nem meio palmo!
- Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho empenho, é pela minha
pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espaço para alargar-se.
- E eu não cedo, porque preciso do meu terreno!
- Ora qual! Que diabo pode lá você fazer ali? Uma porcaria de um pedaço de
terreno quase grudado ao morro e aos fundos de minha casa! quando você, aliás,
dispõe de tanto espaço ainda!
- Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali!
- É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do fundo, a sua
parte ficaria cortada em linha reta até à pedreira, e escusava eu de ficar com
uma aba de terreno alheio a meter-se pelo meu. Quer saber? não amuro o quintal
sem você decidir-se!
- Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha a dizer
já disse!
- Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Você ali não pode construir
nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janelas sobre o meu quintal!...
- Não preciso abrir janelas sobre o quintal de ninguém!
- Nem tampouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janelas da
esquerda!
- Não preciso levantar parede desse lado...
- Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?...
- Ah! isso agora é cá comigo!... O que for soará!
- Pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno!...
- Se me arrepender, paciência! Só lhe digo é que muito mal se sairá quem
quiser meter-se cá com a minha vida!
- Passe bem!
- Adeus!
Travou-se então uma lata renhida e surda entre o português negociante de
fazendas por atacado e o português negociante de secos e molhados. Aquele não
se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter alcançado o pedaço de terreno
que o separava do morro; e o outro, por seu lado, não perdia a esperança de
apanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou três braças aos fundos da casa; parte
esta que, conforme os seus cálculos, valeria ouro, uma vez realizado o grande
projeto que ultimamente o trazia preocupado - a criação de uma estalagem em
ponto enorme, uma estalagem monstro, sem exemplo, destinada a matar toda
aquela miuçalha de cortiços que alastravam por Botafogo.
Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia exclusivamente para
essa idéia; sonhava com ela todas as noites; comparecia a todos os leilões de
materiais de construção; arrematava madeiramentos já servidos; comprava telha
em segunda mão; fazia pechinchas de cal e tijolos; o que era tudo depositado
no seu extenso chão vazio, cujo aspecto tomava em breve o caráter estranho de
uma enorme barricada, tal era a variedade dos objetos que ali se apinhavam
acumulados: tábuas e sarrafos, troncos de árvore, mastros de navio, caibros,
restos de carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões desmantelados, pilhas
e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de areia
e terra vermelha, aglomerações de telhas velhas, escadas partidas, depósitos
de cal, o diabo enfim; ao que ele, que sabia perfeitamente como essas coisas
se furtavam, resguardava, soltando à noite um formidável cão de fila.
Este cão era pretexto de eternas resingas com a gente do Miranda, a cujo
quintal ninguém de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem
correr o risco de ser assaltado pela fera.
- É fazer o muro! dizia o João Romão, sacudindo os ombros.
- Não faço! replicava o outro. Se ele é questão de capricho eu também tenho
capricho!
Em compensação, não caia no quintal do Miranda galinha ou frango, fugidos do
cercado do vendeiro, que não levasse imediato sumiço. João Romão protestava
contra o roubo em termos violentos, jurando vinganças terríveis, falando em
dar tiros.
- Pois é fazer um muro no galinheiro! repontava o marido de Estela.
Daí a alguns meses, João Romão, depois de tentar um derradeiro esforço para
conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu principiar as obras
da estalagem.
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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