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O Mulato (1881) - Aluísio
Azevedo - Parte I
I
Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do Maranhão
parecia entorpecida pelo calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras
escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes,
as paredes tinham reverberações de prata polida as folhas das árvores nem se
mexiam as carroças de água passavam ruidosamente a todo o instante, abalando
os prédios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arregaçadas,
invadiam sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos
pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado,
adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.
A Praça da Alegria apresentava um ar fúnebre. De um casebre miserável, de
porta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede e uma
voz tísica e aflautada de mulher, cantar em falsete a “gentil Carolina era
bela”, doutro lado da praça, uma preta velha, vergada por imenso tabuleiro de
madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas,
apregoava em tom muito arrastado e melancólico: “Fígado, rins e coração!'' Era
uma vendedeira de fatos de boi. As crianças nuas, com as perninhas tortas pelo
costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabeças avermelhadas pelo sol, a
pele crestada os ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam,
empinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade de
sair, atravessava a rua, suado vermelho afogueado, à sombra de um enorme
chapéu-de-sol. Os cães, estendidos pelas calcadas, tinham uivos que pareciam
gemidos humanos, movimentos irascíveis, mordiam o ar querendo morder os
mosquitos. Ao longe, para as bandas de São Pantaleão, ouvia-se apregoar:
“Arroz de Veneza! Mangas! Macajubas!” Às esquinas, nas quitandas vazias,
fermentava um cheiro acre de sabão da terra e aguardente. O quitandeiro,
assentado sobre o balcão, cochilava a sua preguiça morrinhenta, acariciando o
seu imenso e espalmado pé descalço. Da, Praia de Santo Antônio enchiam toda a
cidade os sons invariáveis e monótonos de uma buzina, anunciando que os
pescadores chegavam do mar; para lá convergiam, apressadas e cheias de
interesse, as peixeiras, quase todas negras, muito gordas, o tabuleiro na
cabeça, rebolando os grossos quadris trêmulos e as tetas opulentas.
A Praia Grande e a Rua da Estrela contrastavam todavia com o resto da cidade,
porque era aquela hora justamente a de maior movimento comercial. Em todas as
direções cruzavam-se homens esbofados e rubros cruzavam-se os negros no
carreto e os caixeiros que estavam em serviço na rua; avultavam os
paletós-sacos, de brim pardo, mosqueados nas espáduas e nos sovacos por
grandes manchas de suor. Os corretores de escravos examinavam à plena luz do
sol, os negros e moleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes
os dentes, os pés e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas;
batiam-lhes com a biqueira do chapéu nos ombros e nas coxas,
experimentando-lhes o vigor da musculatura como se estivessem a comprar
cavalos. Na Casa da Praça, debaixo das amendoeiras, nas portadas dos armazéns,
entre pilhas de caixões de cebolas e batatas portuguesas discutiam-se o
câmbio, o prego do algodão, a taxa do açúcar, a tarifa dos gêneros nacionais;
volumosos comendadores resolviam negócios, faziam transações perdiam, ganhavam
tratavam de embarrilar uns aos outros, com muita manha de gente de negócios
falando numa gíria só deles trocando chalaças pesadas, mas em plena confiança
de amizade Os leiloeiros cantavam em voz alta o preço das mercadorias, com um
abrimento afetado de vogais; diziam: “Mal-rais” em vez de mil-réis. À porta
dos leilões aglomeravam-se os que queriam comprar e os simples curiosos.
Corria um quente e grosseiro zunzum de feira.
O leiloeiro tinha piscos de olhos significativos; de martelo em punho,
entusiasmado, o ar trágico, mostrava com o braço erguido um cálice de cachaça,
ou, comicamente acocorado esbrocava com o furador os paneiros de farinha e de
milho. E, quando chegava a ocasião de ceder a fazenda, repetia o preço muitas
vezes, gritando, e afinal batia o martelo com grande barulho, arrastando a voz
em um tom cantado e estridente.
Viam-se deslizar pela praça os imponentes e monstruosos abdomens dos
capitalistas; viam-se cabeças escarlates e descabeladas, gotejando suor por
debaixo do chapéu de pelo; risinhos de proteção, bocas sem bigode dilatadas
pelo calor, perninhas espertas e suadas na calça de brim de Hamburgo. E toda
esta atividade, posto que um tanto fingida, era geral e comunicativa; até os
ricos ociosos, que iam para ali encher o dia, e os caixeiros, que “faziam
cera” até os próprios vadios desempregados, aparentavam diligência e
prontidão.
A varanda do sobrado de Manuel Pescada, uma varanda larga e sem forro no teto,
deixando ver as ripas e os caibros que sustentavam as telhas. tinha um aspecto
mais ou menos pitoresco com a sua bela vista sobre o rio Bacanga e as suas
rótulas pintadas de verde-paris. Toda ela abria para o quintal, estreito e
longo, onde, à mingua de sol, se minavam duas tristes pitangueiras e passeava
solenemente um pavão da terra.
As paredes, barradas de azulejos portugueses e, para o alto, cobertas de papel
pintado, mostravam, nos seus desenhos repetidos de assuntos de caça, alguns
lugares sem tinta, cujas manchas brancacentas traziam à idéia joelheiras de
calças surradas. Ao lado, dominando a mesa de jantar, aprumava-se um velho
armário de jacarandá polido, muito bem tratado, com as vidraças bem limpas,
expondo as pratas e as porcelanas de gosto moderno; a um canto dormia,
esquecida na sua caixa de pinho envernizado, uma máquina de costura de Wilson,
das primeiras que chegaram ao Maranhão; nos intervalos das portas
simetrizavam-se quatro estudos de Julien, representando em litografia as
estações do ano; defronte do guarda-louça um relógio de corrente embalava
melancolicamente a sua pêndula do tamanho de um prato e apontava para as duas
horas. Duas horas da tarde.
Não obstante, ainda permanecia sobre a mesa a louça que servira ao almoço. Uma
garrafa branca, com uns restos de vinho de Lisboa cintilava à claridade
reverberante que vinha do quintal. De uma gaiola, dependurada entre as janelas
desse lado, chilreava um sabiá.
Fazia preguiça estar ali. A viração do Bacanga refrescava o ar da varanda e
dava ao ambiente um tom momo e aprazível. Havia a quietação dos dias inúteis,
uma vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. Lá defronte, nas
margens apostas do do, a silenciosa vegetação do Anjo da Guarda estava a
provocar boas sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as árvores
pareciam abrir de longe os braços, chamando a gente para a calma tepidez das
suas sombras.
— Então, Ana Rosa, que me respondes?... disse Manuel esticando se mais na
cadeira em que se achava assentado, à cabeceira da mesa, em frente da filha
Bem sabes que te não contrario... desejo este casamento, desejo... mas. em
primeiro lugar, convém saber se ele e do teu gosto... Vamos.., fala!
Ana Rosa não respondeu e continuou muito embebida, como estava, rolar sob a
ponta cor-de-rosa dos seus dedos as migalhas de pão que ia encontrando sobre a
toalha.
Manuel Pedro da Silva, mais conhecido por Manuel Pescada, era um português de
uns cinqüenta anos, forte, vermelho e trabalhador. Diziam-no afilado para o
comércio e amigo do Brasil. Gostava da sua leitura nas horas de descanso,
assinava respeitosamente os jornais sérios da província e recebia alguns de
Lisboa. Em pequeno meteram-lhe na cabeça vários trechos do Camões e não lhe
esconderam de todo o nome de outros poetas. Prezava com fanatismo o Marquês de
Pombal, de quem sabia muitas anedotas e tinha uma assinatura no Gabinete
Português, a qual lhe aproveitava menos a ele do que à filha, que era perdida
pelo romance.
Manuel Pedro fora casado com uma senhora de Alcântara chamada Mariana muito
virtuosa e como a melhor parte das maranhenses extremada em pontos de
religião; quando morreu, deixou em legado seis escravos a Nossa Senhora do
Carmo.
Bem triste foi essa época tanto para o viúvo como para a filha orfanada,
coitadinha, justamente quando mais precisava do amparo maternal. Nesse tempo
moravam no Caminho Grande, numa casinha térrea para onde a moléstia de Mariana
os levara em busca de ares mais benignos; Manuel, porem, que era já então
negociante e tinha o seu armazém na Praia Grande mudou-se logo com a pequena
para o sobrado da Rua da Estrela, em cujas lojas prosperava, havia dez anos,
no comércio de fazendas por atacado.
Para não ficar só com a filha “que se fazia uma mulher” convidou a sogra D.
Maria Bárbara a abandonar o sitio em que vivia e ir morar t com ele e mais a
neta “A menina precisava de alguém que a guiasse, que a conduzisse! Um homem
nunca podia servir para essas coisas! E, se fosse a meter em casa uma
preceptora - Meu bom Jesus! - que não diriam por ai?... No Maranhão falava-se
de tudo! D. Maria Bárbara que se decidisse a deixar o mato e fosse de moda
para a Rua da Estrelas! Não teria que se arrepender... havia de estar como em
sua própria casa - bom quarto, boa mesa, e plena liberdade!”
A velha aceitou e lá foi, arrastando os seus cinqüenta e tantos anos,
alojar-se em casa do genro. com um batalhão de moleques, suas crias, e com os
cacaréus ainda do tempo do defunto marido. Em breve, porém, o bom português
estava arrependido do passo que dera: D. Maria Bárbara apesar de muito
piedosa; apesar de não sair do quarto sem vir bem penteada, sem lhe faltar
nenhum dos cachinhos de seda preta, com que ela emoldurava disparatadamente o
rosto enrugado e macilento; apesar do seu grande fervor pela igreja e apesar
das missas que papava por dia, D Mana Bárbara, apesar de tudo isso, saira-lhe
“má dona de casa”.
Era uma fúria! Uma víbora! Dava nos escravos por hábito e por gosto; só falava
a gritar e, quando se punha a ralhar, - Deus nos acuda! - incomodava toda a
vizinhança! Insuportável!
Maria Bárbara tinha o verdadeiro tipo das velhas maranhenses criadas na
fazenda Tratava muito dos avós, quase todos portugueses; muito orgulhosa;
muito cheia de escrúpulos de sangue Quando falava nos pretos dizia “Os sujos”
e quando se referia a um mulato dizia “O cabra”. Sempre fora assim e como
devota, não havia outra: Em Alcântara tivera uma capela de Santa Bárbara e
obrigava a sua escravatura a rezar ai todas as noites. em coro de braços
abertos às vezes algemados Lembrava-se com grandes suspiros do marido “do seu
João Hipólito” um português fino, de olhos azuis e cabelos louros.
Este João Hipólito foi brasileiro adotivo e chegou a fazer alguma posição na
secretaria do governo da província Morreu com o posto de coronel.
Maria Bárbara tinha grande admiração pelos portugueses, dedicava-lhes um
entusiasmo sem limites, preferia-os em tudo aos brasileiros. Quando a filha
foi pedida por Manuel Pedro, então principiante no comércio da capital, ela
dissera: “Bem! Ao menos tenho a certeza de que é branco!”
Mas o Pescada não compreendeu a esposa, nem foi amado por ela; a virtude, ou
talvez simplesmente a maternidade, apenas conseguiu fazer de Mariana uma
companheira fie!; viveu exclusivamente para a filha. É que a desgraçada, desde
os quinze anos, ainda no irresponsável arrebatamento do primeiro amor, havia
eleito já o homem a quem sua alma teria de pertencer por toda a vida. Esse
homem existe hoje na história do Maranhão, era o agitador José Candido de
Moraes e Silva conhecido popularmente pelo “Farol”. Fez todo o possível para
casar com ele, mas foram baldados os seus esforços, nem só em virtude das
perseguições políticas que, tão cedo, atribularam a curta existência daquela
fenomenal criatura, como também pela inflexível oposição que tal idéia
encontrou na própria família da rapariga.
Entretanto, o destino dela se havia prendido à sorte do desventurado
maranhense. Quem diria que aquela pobre moça, nascida e criada nos sertões do
Norte, sentiria, como qualquer filha das grandes capitais, a mágica influência
que os homens superiores exercem sobre o espírito feminino? Amou-o, sem saber
por que. Sentira-lhe a força dominadora do olhar, os ímpetos revolucionários
do seu caráter americano, o heroismo patriótico da sua individualidade tão
superior ao meio em que floresceu; decorara-lhe as frases apaixonadas e
vibrantes de indignação, com que ele fulminava os exploradores da sua pátria
estremecida e os inimigos da integridade nacional; e tudo isso, sem que ela
soubesse explicar, arrebatou-a para o belo e destemido moço com todo o ardor
do seu primeiro desejo de mulher.
Quando, na Rua dos Remédios, que nesse tempo era ainda um arrabalde, o
desditoso herói, apenas com pouco mais de vinte e cinco anos de idade sucumbiu
ao jugo do seu próprio talento e da sua honra política, oculto, foragido,
cheio de miséria, odiado por uns como um assassino e adorado por outros como
um deus, a pobre senhora deixou-se possuir de uma grande tristeza e foi
enfraquecendo e ficando doente. e ficando feia e cada vez mais triste, até
morrer silenciosamente poucos anos depois do seu amado.
Ana Rosa não chegou a conhecer o Farol; a mãe porem muito em segredo,
ensinara-lhe a compreender e respeitar a memória do talentoso revolucionário,
cujo nome de guerra despertava ainda, entre os portugueses, a raiva antiga do
motim de 7 de agosto de 1831. “Minha filha, disse-lhe a infeliz já nas
vésperas da morte, não consintas nunca que te casem, sem que ames deveras o
homem a ti destinado para marido. Não te cases no ar! Lembra-te que o
casamento deve ser sempre a conseqüencia de duas inclinações irresistíveis. A
gente deve casar porque ama, e não ter de amar porque casou Se fizeres o que
te digo, serás feliz!” Concluiu pedindo-lhe que prometesse, caso algum dia
viessem a constrangê-la a aceitar mando contra seu gosto, arrostar tudo, tudo,
para evitar semelhante desgraça, principalmente se então Ana Rosa já gostasse
doutro; e por este, sim. fosse quem fosse, cometesse os maiores sacrficíos,
arriscasse a própria vida, porque era nisso que consistia a verdadeira
honestidade de uma moça.
E mais não foram os conselhos que Mariana deu à filha. Ana Rosa era criança.
não os compreendeu logo, nem tão cedo procuro compreendê-los; mas, tão estavam
eles eles morte da mãe que a idéia desta não lhe acudia à memória sem as
palavras da moribunda.
Manuel Pedro, apesar de bom, era um desses homens mais que alheados as
sutilezas do sentimento; para outra mulher daria talvez um excelente esposo,
não para aquela, cuja sensibilidade romântica, longe de o
comover havia muita vez de importuná-lo. Quando se achou viúvo não sentiu, a
despeito da sua natural bondade, mais do que certo desgosto pela ausência de
uma companheira com que já se tinha habituado- contudo, não pensou em tornar a
casar, convencido de que o afeto da filha lhe chegaria de sobra para amenizar
as canseiras do trabalho, e que o auxílio imediato da sagra bastaria para
garantir a decência da sua casa e a boa regra das suas despesas domésticas.
Ana Rosa cresceu pois, como se vê, entre os desvelos insuficientes do pai e o
mau gênio da avó. Ainda assim aprendera de cor a gramática do Sotero dos Reis;
lera alguma coisa; sabia rudimentos de francês e tocava modinhas sentimentais
ao violão e ao piano Não era estúpida; tinha a intuição perfeita da virtude,
um modo bonito, e por vezes lamentara não ser mais instruída. Conhecia muitos
trabalhos de agulha: bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha de
contralto que fazia gosto ouvir.
Tanto assim que, em pequena, servira várias vezes de anjo da verônica nas
procissões da quaresma E os cônegos da Sé gabavam-lhe o metal da voz e
davam-lhe grandes cartuchos de amêndoas de mendubim, muito enfeitados nas suas
pinturas, toscas e características, feitas a goma-arábica e tintas de botica.
Nessas ocasiões ela sentia-se radiante, com as faces carminadas, a cabeça
coberta de cachos artificiais, grande roda no vestido curto, a jeito de
dançarina E, muito concha, ufana dos seus galões de prata e ouro e das suas
trêmulas asas de papelão e escumillha, caminhava triunfante e feliz no meio do
cordão das irmandades religiosas, segurando a extremidade de um lenço do qual
o pai segurava a outra. Isto eram promessas feitas pela mãe ou pela avó em
dias de grande enfermidade na família.
E crescera sempre bonita de formas. Tinha os olhos pretos e os cabelos
castanhos de Mariana e puxara ao pai as rijezas de corpo e os dentes fortes
Com a aproximação da puberdade apareceram-lhe caprichos românticos e fantasias
poéticas: gostava dos passeios ao luar, das serenatas; arranjou ao lado do seu
quarto um gabinete de estudo, uma bibliotecazinha de poetas e romancistas;
tinha um Paulo e Virgínia de biscuit sobre a estante e, escondido por detrás
de um espelho, o retrato do Farol, que herdara de Mariana.
Lera com entusiasmo a Graziela de Lamartine Chorou muito com essa leitura e,
desdaí, todas as noites, antes de adormecer, procurava instintivamente imitar
o sorriso de inocência que a procitana oferecia ao seu amante. Praticava bem
com os pobres. adorava os passarinhos e não podia ver matar perto de si uma
borboleta Era um bocadinho supersticiosa: não queda as chinelas emborcadas
debaixo da rede e só aparava os cabelos durante o quarto crescente da lua.
“Não que acreditasse nessas coisas”, justificava-se ela, “mas fazia porque os
outros faziam. “ Sobre a cômoda, havia muito tempo, tinha uma estampa
litográfica e colorida de Nossa Senhora dos Remédios e rezava-lhe todas as
noites, antes de dormir Nada conhecia melhor e mais agradável do que um
passeio ao Cutim, e, quando soube que se projetava uma linha de bondes até lá,
teve uma satisfação violenta e nervosa.
Feitos os quinze anos, ela começou pouco e pouco a descobrir em si estranhas
mudanças; percebeu, sentiu que uma transformação importante se operava no seu
espírito e no seu corpo: sobressatavam-na terrores acometiam-na tristezas sem
sem motificável. Um dia, afinal, acordou mais preocupada; assentou-se na rede,
a cismar. E, com surpresa, reparou que seus membros ultimamente se tinham
arredondado; notou que em todo seu corpo a linha curva suplantara a reta e que
as suas formas eram já completamente de mulher.
Veio-lhe então um sobressalto de contentamento mas logo depois caiu a
entristecer: sentia-se muito só, não lhe bastava o amor do pai e da velha
Barbara; queria uma afeição mais exclusiva, mais dela.
Lembrou-se dos seus namoros. Riu-se “coisas de criança!...”
Aos doze anos namorara um estudante do Liceu. Haviam conversado três ou quatro
vezes na sala do pai e sugunham-se deveras apaixonados um pelo outro; o
estudante seguiu para a Escola Central da Corte, e ela nunca mais pensou nele
Depois foi um oficial de marinha; “Como lhe ficava bem a farda!... Que moço
engraçado! bonito! e como sabia vestir-se... Ana Rosa chegou a principiar a
bordar um par de chinelas para lho oferecer; antes porém de terminado o
primeiro pé, já o bandoleiro havia desaparecido com a corveta “Baiana”.
Seguiu-se um empregado do comércio. “Muito bom rapaz! muito cuidadoso da roupa
e das unhas!...” Parecia-lhe que ainda estava a vê-lo, todo metódico,
escolhendo palavras para lhe pedir “a subida honra de dançar com ela uma
quadrilha”
— Ah tempos! tempos!..
E não queria pensar ainda em semelhantes tolices. “Coisas de criança! Coisas
de criança!...” Agora, só o que lhe convinha era um marido! “O seu”, o
verdadeiro, o lega!! O homem da sua casa, o dono do seu corpo, a quem ela
pudesse amar abertamente como amante e obedecer em segredo como escrava.
Precisava de dar-se e dedicar-se a alguém; sentia absoluta necessidade de pôr
em ação a competência, que ela em si reconhecia, para tomar conta de uma casa
e educar muitos filhos.
Com estes devaneios, acudia-lhe sempre um arrepiozinho de febre; ficava
excitada, idealizando um homem forte, corajoso, com um bonito talento, e capaz
de matar-se por ela. E, nos seus sonhos agitados, debuxava-se um vulto
confuso, mas encantador, que galgava precipícios, para chegar onde ela estava
e merecer-lhe a ventura de um sorriso, uma doce esperança de casamento. E
sonhava o noivado: um banquete esplêndido! e junto dela, ao alcance de seus
lábios, um mancebo apaixonado e formoso, um conjunto de força, graça e
ternura. que a seus pés ardia de impaciência e devorava-a com o olhar em fogo.
Depois - via-se dona de casa; pensando muito nos filhos; sonhava-se feliz,
muito dependente na prisão do ninho e no domínio carinhoso do manco. E sonhava
umas criancinhas louras, ternas, balbuciando tolices engraçadas e comovedoras,
chamando-lhe “mama!”
— Oh! Como devia ser bom!.. E pensar que havia por ai mulheres que eram contra
o casamento!...
Não ! Ela não podia admitir o celibato, principalmente para a mulher!... “Para
o homem— ainda passava. . vivera triste, só; mas em todo o caso—era um
homem... teria outras distrações! Mas uma pobre mulher, que melhor futuro
poderia ambicionar que o casamento?. . que mais legítimo prazer do que a
maternidade; que companhia mais alegre do que a dos filhos, esses diabinhos
tão feiticeiros?..” Além de que, sempre gostara muito de crianças: muita vez
pedira a quem as tinha que lhas mandasse a fazer-lhe companhia, e, enquanto as
pilhava em casa, não consentia que mais ninguém se incomodasse com elas;
queria ser a própria a dar-lhes a comida, a lavá-las, a vesti-las, e
acalentá-las E estava constantemente a talhar camisinhas e fraldas, a fazer
toucas e sapatinhos muita lá, com muito amor, justamente como, em pequenina,
ela fazia com as suas bonecas. Quando alguma de suas amigas se casava, Ana
Rosa exigia dela sempre um cravo do ramalhete ou um botão das flores de
laranjeira da grinalda; este ou aquele, pregava-os religiosamente no seio com
um dos alfinetes dourados da noiva, e quedava-se a fitá-los, cismado, até que
dos lábios lhe partia um suspiro longo, muito longo, como o do viajante que em
meio do caminho já se sente cansado e ainda não avista o lar.
Mas o noivo por onde andava que não vinha? Esse belo mancebo, tão ardente e
tão apaixonado, por que se não apresentava logo? Dos homens que Ana Rosa
conhecia na província nenhum decerto podia ser!... E, no entanto, ela amava...
A quem?
Não sabia dizê-lo, mas amava. Sim! Fosse a quem fosse, ela amava; porque
sentia vibrar-lhe todo o corpo, fibra por fibra, pensando nesse - Alguém -
íntimo e desconhecido para ela; esse - Alguém - que não vinha e não lhe saia
do pensamento, esse - Alguém - cuja ausência a fazia infeliz e lhe enchia a
existência de lágrimas.
Passaram-se meses - nada! Correram três anos. Ana Rosa principiou a emagrecer
visivelmente. Agora dormia menos; estava pálida; à mesa mal tocava nos pratos.
— O pequena, tu tens alguma coisa! disse-lhe um dia o pai, já incomodado com
aquele ar doentio da filha. Não me pareces a mesma! Que é isso, Anica?
Não era nada!...
E Ana Rosa sobressaltava-se, como se tivera cometido uma falta. “Cansaço!
Nervos! Não era coisa que valesse a pena!... “
Mas chorava.
— Olha! Ai temos! Agora o choro! Nada! É preciso chamar o médico!
— Chamar o médico?... Ora papai, não vale a pena!...
E tossia. “Que a deixassem em paz! Que neo a estivessem apoquentando com
perguntas!...”
E tossia mais, sufocada.
— Vês?! Estas achacada! Levas nesse “Churra, chrum! chrum chrum!” E é só “Não
vale a pena! Não precisa chamar o médico!...' Não senhora! com moléstias não
se brinca!
O médico receitou banhos de mar na Ponta d'Areia.
Foi um tempo delicioso para ela os três meses que ai passou. Os ares da costa,
os banhos de choque, os longos passeios a pé, restituíram-lhe o apetite e
enriqueceram-lhe o sangue Ficou mais forte; chegou a engordar.
Na Ponta d'Areia travara uma nova amizade - D. Eufrasinha. Viúva de um oficial
do quinto de infantaria, batalhão que morreu todo na Guerra do Paraguai. Muito
romântica: falava do marido requebrando-se, e poetizava-lhe a curta história:
“Dez dias depois de casados, seguira ele para o campo de batalha e, no denodo
da
sua coragem, fora atravessado por uma bala de artilharia, morrendo logo a
balbuciar com o lábio ensangüentado o nome da esposa estremecida.”
E com um suspiro, feito de desejos mel satisfeitos, a viúva concluía pesarosa
que “prazeres nesta vida, conhecera apenas dez dias e dez noites...”
Ana Rosa compadecia-se da amiga e escutava-lhe de boa-fé as frioleiras. Na sua
ingênua e comovida sinceridade facilmente se identificava com a história
singular daquele casamento tão infeliz e tão simpático.. Por mais de uma vez
chegou a chorar pela morte do pobre moço oficial de infantaria.
D. Eufrasinha instruiu a sua nova amiga em muitas coisas que esta mal sonhava;
ensinou-lhe certos mistérios da vida conjugal; pode dizer-se que lhe de amor:
falou muito nos “homens”, disse-lhe como a mulher esperta devia lidar com
eles; quais eram as manhas e os fracos dos maridos ou dos namorados; quais
eram os tipos preferíveis; o que significava ter “olhos mortos, beiços
grossos, nariz comprido”.
A outra ria-se. “Não tomava a sério aquelas bobagens da Eufrasinha!”
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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