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Noite na Taverna (1855) -
Álvares de Azevedo
- Parte I
MACÁRIO
Onde me levas?
SATAN
A uma orgia. Vais ler uma página da vida, cheia de sangue e de vinho — que
importa?
MACÁRIO
Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. A roda da mesa estão sentados cinco homens
ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas
lívidas, outras vermelhas Que noite!
NOITE NA TAVERNA
How now, Horatio? you tremble, and look pale. Is not this something more than
fantasy? What think you on's?
Hamlet. Ato I
JOB STERN
UMA NOITE DO SÉCULO
Bebamos! nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida as cores! Que
importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores!
José Bonifácio
— Silêncio! moços!! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as
mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da
embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da
volúpia??
— Cala-te, Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold — o loiro — cambaleia
e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck, que musica mais bela que o
alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de
corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lâmpada sobre a alvura de
uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das tachas?
— És um louco, Bertram! não é a lua que lá vai macilenta: é o relâmpago que
passa e ri de escárnio as agonias do povo que morre, aos soluços que seguem as
mortalhas do cólera!
— Ó cólera! e que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do homem?
não borbulha a febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o seu fogo a
lâmpada da vida na lanterna do crânio?
— Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um
sonâmbulo?
— É o Fichtismo na embriaguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da
embriaguez!
— Oh! vazio meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão
esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da
mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa
de lava?
— O vinho acabou-se nos copos, Bertram, mas o fumo ondula ainda nos cachimbos!
Após os vapores do vinho os vapores da fumaça! Senhores, em nome de sodas as
nossas reminiscências, de todos os nossos sonhos que mentiram, de sodas as
nossas esperanças que desbotaram, uma ultima saúde! A taverneira aí nos trouxe
mais vinho: uma saúde! O fumo é a imagem do idealismo, é o transunto de tudo
quanto ha mais vaporoso naquele espiritualismo que nos fala da imortalidade da
alma! é pois, ao fumo das Antilhas, a imortalidade da alma!
— Bravo! bravo!
Um urrah tríplice respondeu ao moço meio ébrio.
Um conviva se ergueu entre a vozeria: contrastavam-lhe com as faces de moço as
rugas da fronte e a rouxidão dos lábios convulsos. Por entre os cabelos
prateava-se-lhe o reflexo das luzes do festim. Falou:
— Calai-vos, malditos! a imortalidade da alma? pobres doidos! e porque a alma
é bela, porque não concebeis que esse ideal posse tornar-se em loco e
podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele morra?
Doidos! nunca velada levastes porventura uma noite a cabeceira de um cadáver?
E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e aquela fronte
iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrires, que era apenas o ópio do
sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! e por que também não
sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! não mil vezes! a alma
não é, como a lua, sempre moça, nua e bela em sua virgindade eterna! a vida
não é mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas: o que era um corpo
de mulher vai porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas;
o que era um corpo do verme vai alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da
criança mais loira e bela. Como Schiller o disse, o átomo da inteligência de
Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Pôr isso eu vo-lo direi: se
entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem! talvez eu creia um pouco: —
pelo Platonismo, não!
— Solfieri! és um insensato! o materialismo é árido como o deserto, e escuro
como um túmulo! A nós frontes queimadas pelo mormaço do sol da vida a nos
sobre cuja cabeça a velhice regelou os cabelos, essas crianças frias! A nós os
sonhos do espiritualismo!
— Archibald! deveras, que é um sonho tudo isso! No outro tempo o sonho da
minha cabeceira era o espírito puro ajoelhado no seu manto argênteo, num
oceano de aromas e luzes! Ilusões! a realidade é a febre do libertino, a taça
na mão, a lascívia nos lábios e a mulher seminua, trêmula e palpitante sobre
os joelhos.
— Blasfêmia — e não crês em mais nada: teu ceticismo derribou sodas as
estatuas do teu templo, mesmo a de Deus?
— Deus! crer em Deus! sim como o grito intimo o revela nas horas frias do medo
— nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar úmida por
nós! Na jangada do naufrago, no cadafalso, no deserto — sempre banhado do suor
frio — do terror e que vem a crença em Deus! — Crer nele como a utopia do bem
absoluto, o sol da luz e do amor, muito bem! Mas se entendeis por ele os
ídolos que os homens ergueram banhados de sangue, e o fanatismo beija em sua
inanimação de mármore de há cinco mil anos! não credo nele!
— E os livros santos?
— Miséria! quando me vierdes falar em poesia eu vos direi: ai ha folhas
inspiradas pela natureza ardente daquela terra como nem Homero as sonhou —
como a humanidade inteira ajoelhada sobre os túmulos do passado nunca mais
lembrara! Mas quando me falarem em verdades religiosas, em visões santas, nos
desvarios daquele povo estúpido — eu vos direi — miséria! miséria! três vezes
miséria! Tudo aquilo é falso — mentiram como as miragens do deserto!
— Estas ébrio, Johann! O ateísmo é a insânia como o idealismo místico de
Schelling, o panteísmo de Spinoza o judeu, e o crente de Malebranche nos seus
sonhos da visão em Deus. A verdadeira filosofia e o epicurismo. Hume bem o
disse: o fim do homem é o prazer. Dai vede que é o elemento sensível quem
domina. E pois ergamonos, nós que amanhecemos nas noites desbotadas de estudo
insano, e vimos que a ciência é falsa e esquiva, que ela mente e embriaga como
um beijo de mulher.
— Bem! muito bem! e um toast de respeito!
— Quero que todos se levantem, e com a cabeça descoberta digam-no: Ao Deus Pan
da natureza, aquele que a antiguidade chamou Baco o filho das coxas de um deus
e do amor de uma mulher, e que nós chamamos melhor pelo seu nome — o vinho.
— Ao vinho! ao vinho!
Os copos caíram vazios na mesa.
— Agora ouvi-me, senhores! entre uma saúde e uma baforada de fumaça, quando as
cabeças queimam e os cotovelos se estendem na toalha molhada de vinho, como os
braços do carniceiro no cepo gotejaste, o que nos cabe é uma historia
sanguinolenta, um daqueles contos fantásticos — como Hoffmann os delirava ao
clarão dourado do Johannisberg!
— Uma historia medonha, não Archibald? — falou um moço pálido que a esse
reclamo erguera a cabeça amarelenta. Pois bem, dir-vos-ei uma historia. Mas
quanto a essa, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas
bagas de terror. Não é um conto, é uma lembrança do passado.
— Solfieri! Solfieri! ai vens com teus sonhos!
— Conta!
Solfieri falou: os mais fizeram silêncio
II
SOLFIERI
Yet one kiss on your pale clay
And those lips once so warm beart! my bears! my bears!
BYRON — Cain
Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote
dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É
um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio a convulsão do amor, o
beijo lascivo a embriaguez da crença!
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu
morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A
noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de As luzes se apagaram uma por
uma nos palácios, as ruas se fazias ermas, e a lua de sonolenta se escondia no
leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura.
Era uma forma branca. — A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida
a lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de
lágrimas.
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela
e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele
cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era
sombria como a do vento a noite nos cemitérios cantando a nênia das flores
murchas da morte.
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se
havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém — saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as gotas
pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como
sobre um túmulo prantos de órfão..
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num
campo.
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela
ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no
cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão — as urzes, as
cicutas do campo santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido a chuva, causaram-me uma febre. No meu
delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços
e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono
da saciedade me vinha aquela visão.
Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa
Barbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas
faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia
voluptuosa do amor. — Saí.. — Não sei se a noite era límpida ou negra — sei
apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias
na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera ate a última gota o vinho do
deleite.
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus
raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam
num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha,
as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o
vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e aqueles traços
todos me lembraram uma idéia perdida... — Era o anjo do cemitério? Cerrei as
portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos
meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo.
Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, "do cadáver sem cabeça e
o homem sem coração" como a conta Brantôme? Foi uma idéia singular a que eu
tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim:
rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe a
noiva. Era uma forma puríssima.. Meus sonhos nunca me tinham evocado uma
estatua tão perfeita. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos
tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O
gozo foi fervoroso — cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já
froixa nas janelas. Àquele calor de meu peito, a febre de meus lábios, a
convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os
olhos empanados. — Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa —
, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados. Não
era já a um desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de
horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me
resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela. Nesse instante
ela acordou...
Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao
acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros
tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e
tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me
da porta topei num corpo; abaixei-me — olhei: era algum coveiro do cemitério
da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta .
Saí. — Ao passar a praça encontrei uma patrulha — Que levas aí?
A noite era muito alta — talvez me cressem um ladrão.
— É minha mulher que vai desmaiada.
— Uma mulher! Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de
cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte — era fria.
— É uma defunta.
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. — Era a vida ainda.
— Vede, disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu
sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias
— Boa noite, moço: podes seguir, disse ele.
Caminhei. — Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo: e eu sentia que a
moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com
mais esforço...
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi
um grito de medo.
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus
companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto — e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda.
A turvação da embriaguez fez que não notassem minha. ausência.
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a
insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim Não houve como sanar-lhe
aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias
de delírio.
A noite sai — fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera —
e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as
mãos cavei aí um túmulo. — Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a
a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o
lençol de seu leito. — Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.
Um ano — noite a noite — dormi sobre as lajes que a cobriam Um dia o
estatuário me trouxe a sua obra. — Paguei-lha e paguei o segredo
Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu
do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que
dormia?
— E quem era essa mulher, Solfieri?
— Quem era? seu nome?
— Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os
lábios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer
a seus beijos, quando nem ha dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça — Bebeu-a. — Ia erguer-se da mesa quando um dos
convivas tomou-o pelo braço.
— Solfieri, não é um conto isso tudo?
— Pelo inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que
era a bela Messalina das ruas — pela perdição que não! Desde que eu próprio
calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra — eu vô-lo juro —
guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. — Ei-la!
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
— Vede-a murcha e seca como o crânio dela!
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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