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Prosopopéia (1601) - Bento Teixeira - Parte I
PRÓLOGO
Dirigido a Jorge d’Albuquerque Coelho, Capitão e Governador da Capitania de
Paranambuco, das partes do Brasil da Nova Lusitânia, etc.
Se é verdade o que diz Horácio que Poetas e Pintores estão no mesmo
predicamento; e estes pera pintarem perfeitamente uma Imagem, primeiro na lisa
távoa fazem riscunho, pera depois irem pintando os membros dela extensamente,
até realçarem as tintas, e ela ficar na fineza de sua perfeição; assim eu,
querendo dibuxar com obstardo pinzel de meu engenho a viva Imagem da vida e
feitos memoráveis de vossa mercê, quis primeiro fazer este riscunho, pera
depois, sendo-me concedido por vossa mercê, ir mui particularmente pintando os
membros desta Imagem, se não me faltar a tinta do favor de vossa mercê, a quem
peço, humildemente, receba minhas Rimas, por serem as primícias com que tento
servi-lo.
E porque entendo que as aceitará com aquela benevolência e brandura natural,
que custuma, respeitando mais a pureza do ânimo que a vileza do presente, não
me fica mais que desejar, se não ver a vida de vossa mercê augmentada e estado
prosperado, como todos os seus súbditos desejamos.
Beija as mãos de vossa mercê: (Bento Teixeira)
Seu vassalo.
Dirigida a Jorge d’Albuquerque Coelho,
Capitão e Governador
de Peranambuco, Nova Lusitânia, etc.
I
Cantem Poetas o Poder Romano,
Sobmetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.
II
As Délficas irmãs chamar não quero,
que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que per rezão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.
III
E vós, sublime Jorge, em quem se esmalta
A Estirpe d'Albuquerques excelente,
E cujo eco da fama corre e salta
Do Cauro Glacial à Zona ardente,
Suspendei por agora a mente alta
Dos casos vários da Olindesa gente,
E vereis vosso irmão e vós supremo
No valor abater Querino e Remo.
IV
Vereis um sinil ânimo arriscado
A trances e conflictos temerosos,
E seu raro valor executado
Em corpos Luteranos vigurosos.
Vereis seu Estandarte derribado
Aos Católicos pés victoriosos,
Vereis em fim o garbo e alto brio
Do famoso Albuquerque vosso Tio.
V
Mas em quanto Talia no se atreve,
No Mar do valor vosso, abrir entrada,
Aspirai com favor a Barca leve
De minha Musa inculta e mal limada.
Invocar vossa graça mais se deve
Que toda a dos antigos celebrada,
Porque ela me fará que participe
Doutro licor milhor que o de Aganipe.
VI
O marchetado Carro do seu Febo
Celebre o Sulmonês, com falsa pompa,
E a ruína cantando do mancebo,
Com importuna voz, os ares rompa.
Que, posto que do seu licor não bebo,
À fama espero dar tão viva trompa,
Que a grandeza de vossos feitos cante,
Com som que Ar, Fogo, Mar e Terra espante
NARRAÇÃO
VII
A Lâmpada do Sol tinha encuberto,
Ao Mundo, sua luz serena e pura,
E a irmã dos três nomes descuberto
A sua tersa e circular figura.
Lá do portal de Dite, sempre aberto,
Tinha chegado, com a noite escura,
Morfeu, que com subtis e lentos passos
Atar vem dos mortais os membros lassos.
VIII
Tudo estava quieto e sossegado,
Só com as flores Zéfiro brincava,
E da vária fineza namorado,
De quando em quando o respirar firmava
Até que sua dor, d’amor tocado,
Per antre folha e folha declarava.
As doces Aves nos pendentes ninhos
Cubriam com as asas seus filhinhos.
IX
As luzentes Estrelas cintilavam,
E no estanhado Mar resplandeciam,
Que, dado que no Ceo fixas estavam,
Estar no licor salso pareciam.
Este passo os sentidos comparavam
Àqueles que d’amor puro viviam,
Que, estando de seu centro e fim absentes,
Com alma e com vontade estão presentes.
X
Quando ao longo da praia, cuja area
É de Marinhas aves estampada,
E de encrespadas Conchas mil se arrea,
Assim de cor azul, como rosada,
Do mar cortando a prateada vea,
Vinha Tritão em cola duplicada,
Não lhe vi na cabeça casca posta
(Como Camões descreve) de Lagosta
XI
Mas ô a Concha lisa e bem lavrada
De rica Madrepérola trazia,
e fino Coral crespo marchetada,
Cujo lavor o natural vencia.
Estava nela ao vivo debuxada
A cruel e espantosa bataria,
Que deu a temerária e cega gente
Aos Deoses do Ceo puro e reluzente.
XII
Um Búzio desigual e retrocido
Trazia por Trombeta sonorosa,
De Pérolas e Aljôfar guarnecido,
Com obra mui subtil e curiosa.
Depois do Mar azul ter dividido,
Se sentou nô a pedra Cavernosa,
E com as mãos limpando a cabeleira
Da turtuosa cola fez cadeira.
XIII
Toca a Trobeta com crescido alento,
Engrossa as veas, move os elementos,
E, rebramando os ares com o acento,
Penetra o vão dos infinitos assentos.
Os Pólos que sustem o firmamento,
Abalados dos próprios fundamentos,
Fazem tremer a terra e Ceo jucundo,
E Neptuno gemer no Mar profundo.
XIV
O qual vindo da vã concavidade,
Em Carro Triunfal, com seu tridente,
Traz tão soberba pompa e majestade,
Quanta convém a Rei tão excelente.
Vem Oceano, pai de mor idade,
Com barba branca, com cerviz tremente:
Vem Glauco, vem Nereu, Deoses Marinhos,
Correm ligeros Focas e Golfinhos.
XV
Vem o velho Proteu, que vaticina
(Se fé damos à velha antiguidade)
Os males a que a sorte nos destina,
Nascidos da mortal temeridade.
Vem numa e noutra forma peregrina,
Mudando a natural propriedade.
Não troque a forma, venha confiado,
Se não quer de Aristeu ser sojigado.
XVI
Tétis, que em ser fermosa se recrea,
Traz das Ninfas o coro brando e doce :
Clímene, Efire, Ópis, Panopea,
Com Béroe, Talia, Cimodoce;
Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,
Aretusa, Cidipe, Filodoce,
Com Eristea, Espio, Semideas,
Após as quais, cantando, vem Sereas.
DESCRIPÇÃO DO RECIFE DE PARANAMBUCO
XVII
Pera a parte do Sul, onde a pequena
Ursa se vê de guardas rodeada,
Onde o Ceo luminoso mais serena
Tem sua influïção, e temperada;
Junto da Nova Lusitânia ordena
A natureza, mãe bem atentada,
Um porto tão quieto e tão seguro,
Que pera as curvas Naus serve de muro.
XVIII
É este porto tal, por estar posta
Uma cinta de pedra, inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Neptuno a fúria esquiva.
Antre a praia e pedra descomposta,
O estanhado elemento se diriva
Com tanta mansidão, que ô a fateixa
Basta ter à fatal Argos aneixa.
XIX
Em o meio desta obra alpestre e dura,
ô a boca rompeo o Mar inchado,
Que, na língua dos bárbaros escura,
Paranambuco de todos ‚ chamado.
de Para’na, que é Mar; Puca, rotura,
Feita com fúria desse Mar salgado,
Que, sem no dirivar cometer míngua,
Cova do Mar se chama em nossa língua.
XX
Pera entrada da barra, à parte esquerda,
Está ua lajem grande e espaçosa,
Que de Piratas fora total perda,
Se ô a torre tivera sumptuosa.
Mas quem por seus serviços bons não herda
Desgosta de fazer cousa lustrosa,
Que a condição do Rei que não é franco
O vassalo faz ser nas obras manco.
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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