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Os Sertões (1907) - Euclides
da Cunha - Parte I
Nota Preliminar
Escrito nos raros intervalos de folga de uma carreira fatigante, este livro,
que a princípio se resumia à história da Campanha de Canudos, perdeu toda a
atualidade, remorada a sua publicação em virtude de causas que temos por
escusado apontar.
Demos -lhe, por isto, outra feição, tomando apenas variante de assunto geral o
tema, a princípio dominante, que o sugeriu.
Intentamos esboçar, palidamente embora, ante o olhar de futuros historiadores,
os traços atuais mais expressivos das sub-raças sertanejas do Brasil. E
fazêmo-lo porque a sua instabilidade de complexos de fatores múltiplos e
diversamente combinados, aliada às vicissitudes históricas e deplorável
situação mental em que jazem, as tomam talvez efêmeras, destinadas a próximo
desaparecimento ante as exigências crescentes da civilização e a concorrência
material intensiva das correntes migratórias que começam a invadir
profundamente a nossa terra.
O jagunço destemeroso, o tabaréu ingênuo e o caipira simplório serão em breve
tipos relegados às tradições evanescentes, ou extintas.
Primeiros efeitos de variados cruzamentos, destinavam-se talvez à formação dos
princípios imediatos de uma grande raça. Faltou-lhes, porém, uma situação de
parada, o equilíbrio, que Ihes não permite mais a velocidade adquirida pela
marcha dos povos neste século. Retardatários hoje, amanhã se extinguirão de
todo.
A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável "força motriz
da História" que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial,
no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro
assalto, em luta talvez longa. Nem enfraquece o asserto o termo-la realizado
nós filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradições
nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à beira do Atlântico, dos
princípios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indústria alemã
- tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes. Além disto,
mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido,
deles de todo nos separa uma coordenada histórica - o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.
E tanto quanto o permitir a firmeza do nosso espírito façamos jus ao admirável
conceito de Taine sobre o narrador sincero que encara a História como ela
merece:
“il s’ irrite contre les demi vérités que sont des demi faussetés, contre les
auteurs qui n’altèrent ni une date, ni une généalogie, mais dénaturent les
sentiments et les moeurs, qui gardent le dessin des événements et en changent
la couleur, qui copient les faits et défigurent l'âme; il veut sentir en
barbare, parmi les barbares, et, parmi les anciens, en ancien. "
Euclides da Cunha.
São Paulo, 1901
A TERRA
I. Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte
Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.
II. Golpe de vista do alto de Monte Santo. Do alto da Favela.
III. O clima. Higrômetros singulares.
IV. As secas. Hipóteses sobre a sua gênese. As caatingas.
V. Uma categoria geográfica que Hegel não citou. Como se faz um deserto. Como
se extingue o deserto. O martírio secular da terra.
I
Preliminares
O Planalto Central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas
inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões
nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a
Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de
altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares, ou
repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando-o
consideravelmente para o interior.
De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa notáveis mudanças
de relevos: a principio o traço contínuo e dominante das montanhas,
precintando-o, com destaque saliente, sobre a linha projetante das praias;
depois, no segmento de orla marítima entre o Rio de Janeiro e o Espírito
Santo, um aparelho litoral revolto, feito da envergadura desarticulada das
serras, riçado de cumeadas e corroído de angras, e escancelando-se em baias,
repartindo-se em ilhas, e desagregando-se em recifes desnudos, à maneira de
escombros do conflito secular que ali se trava entre os mares e a terra; em
seguida, transposto o 15° paralelo, a atenuação de todos os acidentes -
serranias que se arredondam e suavizam as linhas dos taludes, fracionadas em
morros de encostas indistintas no horizonte que se amplia; até que em plena
faixa costeira da Bahia, o olhar, livre dos anteparos de serras que até lá o
repulsam e abreviam, se dilata em cheio para o ocidente, mergulhando no âmago
da terra amplíssima lentamente emergindo num ondear longínquo de chapadas...
Este facies geográfico resume a morfogenia do grande maciço continental.
Demonstra-o análise mais íntima feita por um corte meridiano qualquer,
acompanhando à bacia do S. Francisco.
Vê-se, do fato, que três formações geognósticas díspares, de idades mal
determinadas, aí se substituem, ou se entrelaçam, em estratificações
discordantes, formando o predomínio exclusivo de umas, ou a combinação de
todas, os traços variáveis da fisionomia da terra. Surgem primeiro as
possantes massas gnaissegraníticas, que a partir do extremo sul se encurvam em
desmedido anfiteatro, alteando as paisagens admiráveis que tanto encantam e
iludem as vistas inexpertas dos forasteiros.
A princípio abeiradas do mar progridem em sucessivas cadeias, sem rebentos
laterais, até as raias do litoral paulista, feito dilatado muro de arrimo
sustentando as formações sedimentárias do interior.
A terra sobranceia o oceano, dominante, do fastígio das escarpas; e quem a
alcança como quem vinga a rampa de um majestoso palco, justifica todos os
exageros descritivos - do gongorismo de Rocha Pita às extravagâncias geniais
de Buckle - que fazem deste país região privilegiada, onde a natureza armou a
sua mais portentosa oficina.
É que, de feito, sob o tríplice aspecto astronômico, topográfico e geológico a
nenhuma se afigura tão afeiçoada à Vida.
Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do trópico, vêem-se, estirados
para o ocidente e norte, extensos chapadões cuja urdidura de camadas
horizontais de grés argiloso, intercaladas de emersões calcárias, ou diques de
rochas eruptivas básicas, do mesmo passo lhes explica a exuberância sem par e
as áreas complanadas e vastas.
A terra atrai irresistivelmente o homem, arrebatando-o na própria correnteza
dos rios que, do Iguaçu ao Tietê, traçando originalíssima rede hidrográfica,
correm da costa para os sertões, como se nascessem nos mares e canalizassem as
suas energias eternas para os recessos das matas opulentas. Rasgam facilmente
aqueles estratos em traçados uniformes, sem talvegues deprimidos, e dão ao
conjunto dos terrenos até além do Paraná a feição de largos plainos ondulados,
desmedidos.
Entretanto, para leste a natureza é diversa.
Estereografa-se, duramente, nas placas rígidas dos afloramentos gnáissicos; e
o talude dos planaltos dobra-se do socalco da Mantiqueira, onde se encaixa o
Paraíba, ou desfaz-se em rebentos que, após apontarem as alturas de píncaros
centralizados pelo Itatiaia, levam até o âmago de Minas as paisagens alpestres
do litoral. Mas ao penetrar-se este Estado nota-se, malgrado o tumultuar das
serranias, lenta descensão geral para o norte.
Como nos altos chapadões de São Paulo e do Paraná, todas as caudais revelam
este pendor insensível com derivarem em leitos contorcidos e vencendo,
contrafeitas, o antagonismo permanente das montanhas: o rio Grande rompe,
rasgando-a com a força viva da corrente, a serra da Canastra, e, norteados
pela meridiana, abrem-se adiante os fundos vales de erosão do rio das Velhas e
do S. Francisco.
Ao mesmo tempo, transpostas as sublevações que vão de Barbacena a Ouro Preto,
as formações primitivas desaparecem, mesmo nas maiores eminências, e jazem
sotopostas a complexas séries de xistos metamórficos, infiltrados de veeiros
fartos, nas paragens lendárias do ouro.
A mudança estrutural origina quadros naturais mais imponentes que os da borda
marítima. A região continua alpestre. O caráter das rochas, exposto nas abas
dos cerros de quartzito, ou nas grimpas em que se empilham as placas do
itacolomito avassalando as alturas, aviva todos os acidentes, desde os maciços
que vão de Ouro Branco a Sabará, à zona diamantina expandindo-se para nordeste
nas chapadas que se desenrolam nivelando-se às cimas da serra do Espinhaço; e
esta, apesar da sugestiva denominação de Eschwege, mal sobressai, entre
aquelas lombadas definidoras de uma situação dominante.
Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando
"travessões" sucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram
os terraços inferiores do planalto arrimados à serra dos Aimorés; e volvem
águas remansadas para o poente os que se destinam à bacia de captação do S.
Francisco, em cujo vale, depois de percorridas ao sul as interessantes
formações calcárias do rio das Velhas, salpintadas de lagos, solapadas de
sumidouros e ribeirões subterrâneos, onde se abrem as cavernas do homem
pré-histórico de Lund, se acentuam outras transições na contextura superficial
do solo.
De fato, as camadas anteriores, que vimos superpostas às rochas graníticas,
decaem, por sua vez sotopondo-se a outras, mais modernas de espessos estratos
de grés.
Novo horizonte geológico reponta com um traço original e interessante. Mal
estudado embora, caracteriza-o notável significação orográfica, porque as
cordilheiras dominantes do sul ali se extinguem, soterradas, numa inumação
estupenda, pelos possantes estratos mais recentes, que as circundam.
A terra, porém, permanece elevada, alongando-se em planuras amplas, ou
avultando em falsas montanhas de denudação, descendo em aclives fortes, mas
tendo os dorsos alargados em plainos inscritos num horizonte de nível, apenas
apontoado a leste pelos vértices dos albardões distantes, que perlongam a
costa.
Verifica-se. assim, a tendência para um aplainamento geral.
Porque, neste coincidir das terras altas do interior e a depressão das
formações arqueanas, a região montanhosa de minas se vai prendendo, sem
ressaltos, à extensa zona dos tabuleiros do norte.
A serra do Grão Mogol raiando as lindes da Bahia, é o primeiro espécimen
dessas esplêndidas chapadas imitando cordilheiras, que tanto perturbam aos
geógrafos descuidados; e as demais que a convizinham, da do Cabral mais
próxima, à da Mata da Corda alongando-se para Goiás, modelam-se de maneira
idêntica.
Os sulcos de erosão que as retalham são cortes geológicos expressivos.
Ostentam em plano vertical, sucedendo-se a partir da base, as mesmas rochas
que vimos substituírem em alongado roteiro pela superfície: embaixo os
rebentos graníticos decaídos pelo fundo dos vales, em cômoros esparsos; à meia
encosta, inclinadas, as placas xistosas mais recentes; no alto,
sobrepujando-as, ou circuitando-lhes os flancos em vales monoclínicos, os
lençóis de grés, predominantes e oferecendo aos agentes meteóricos
plasticidade admirável aos mais caprichosos modelos.
Sem linhas de cumeadas, as maiores serranias nada mais são que planuras altas,
extensas rechãs terminando de chofre em encostas abruptas, na molduragem
golpeante do regímen torrencial sobre o terreno permeável e móvel.
Caindo por ali há séculos as fortes enxurradas, derivando a princípio em
linhas divagantes de drenagem, foram pouco a pouco reprofundando-as,
talhando-as em quebradas que se fizeram cañons, e se fizeram vales em declive,
até orlarem de escarpamentos e despenhadeiros aqueles plainos soerguidos. E
consoante a resistência dos materiais trabalhados variaram nos aspectos: aqui
apontam, rijamente, sobre as áreas de nível, os últimos fragmentos das rochas
enterradas, desvendando-se em fraguedos que mal relembram, na altura, o
antiqüíssimo "Himalaia brasileiro", desbarrancado, em desintegração contínua,
por todo o curso das idades; adiante, mais caprichosos, se escalonam em
alinhamentos incorretos de menires colossais, ou em círculos enormes,
recordando na disposição dos grandes blocos superpostos, em rimas, muramentos
desmantelados de ciclópicos coliseus em ruínas ou então, pelos visos das
escarpas, oblíquos e sobreanceando as planuras que, interopostos, ladeiam,
lembram aduelas desconformes, restos da monstruosa abóbada da antiga
cordilheira, desabada...
Mas desaparecem de todo em vários pontos.
Estiram-se então planuras vastas. Galgando-as pelos taludes, que as soerguem
dando-lhes a aparência exata de tabuleiros suspensos, topam-se, a centenas de
metros, extensas áreas ampliando-se, boleadas, pelos quadrantes, numa
prolongação indefinida, de mares. É a paragem formosíssima dos campos gerais,
expandida em chapadões ondulantes -grandes tablados onde campeia a sociedade
rude dos vaqueiros...
Atravessêmo-la.
Adiante, a partir de Monte Alto, estas conformações naturais se bipartem: no
rumo firme do norte a série do grés figura-se progredir até ao plateau arenoso
do Açuruá, associando-se ao calcário que aviva as paisagens na orla do grande
rio, prendendo-as às linhas dos cerros talhados em diáclase, tão bem expressos
no perfil fantástico do Bom Jesus da Lapa; enquanto para nordeste, graças a
degradações intensas (porque a serra Geral segue por ali como anteparo aos
alísios, condensando-os em diluvianos aguaceiros), se desvendam, ressurgindo,
as formações antigas.
Desenterram-se as montanhas.
Reponta a região diamantina, na Bahia, revivendo inteiramente a de Minas, como
um desdobramento ou antes um prolongamento, porque é a mesma formação mineira
rasgando, afinal, os lençóis de grés, e alteando-se com os mesmos contornos
alpestres e perturbados, nos alcantis que irradiam da Tromba ou avultam para o
norte nos xistos huronianos das cadeias paralelas de Sincorá.
Deste ponto em diante, porém, o eixo da serra Geral se fragmenta, indefinido.
Desfaz-se. A cordilheira eriça-se de contrafortes e talhados de onde saltam,
acachoando, em despenhos, para o levante, as nascentes do Paraguaçu, e um
dédalo de serranias tortuosas, pouco elevadas mas inúmeras, cruza-se
embaralhadamente sobre o largo dos gerais, cobrindo-os.
Transmuda-se o caráter topográfico, retratando o desapoderado embater dos
elementos, que ali reagem há milênios entre montanhas derruídas, e a queda,
até então gradativa, dos planaltos começa a derivar em desnivelamentos
consideráveis. Revela-os o S. Francisco, no vivo infletir com que torce para o
levante, indicando do mesmo passo a transformação geral da região.
Esta é mais deprimida e mais revolta.
Cai para os terraços inferiores, entre um tumultuar de morros, incoerentemente
esparsos. Último rebento da serra principal, a da Itiúba reúne-lhe alguns
galhos indecisos, fundindo as expansões setentrionais das da Furna, Cocais e
Sincorá. Alteia-se um momento, mas descai logo para todos os rumos: para o
norte, originando a corredeira de quatrocentos quilômetros à jusante do
Sobradinho; para o sul, em segmentos dispersos que vão até além do Monte
Santo; e para leste, passando sob as chapadas de Jeremoabo, até se desvendar
no salto prodigioso de Paulo Afonso.
E o observador que seguindo este itinerário deixa as paragens em que se
revezam, em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das
montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido...
A entrada sertão
Está sobre um socalco do maciço continental, ao norte.
Demarca-o de uma banda, abrangendo dois quadrantes, em semicírculo, o rio de
S. Francisco: e de outra, encurvando também para sudeste, numa normal a
direção primitiva, o curso flexuoso do Itapicuru-açu.
Segundo a mediana, correndo quase paralelo entre aqueles, com o mesmo
descambar expressivo para a costa, vê-se o traço de um outro rio, o
Vaza-Barris, o Irapiranga dos tapuias, cujo trecho de Jeremoabo para as
cabeceiras é uma fantasia de cartógrafo.
De fato, no estupendo degrau, por onde descem para o mar ou para jusante de
Paulo Afonso as rampas esbarrancadas do planalto, não há situações de
equilíbrio para uma rede hidrográfica normal.
Ali reina a drenagem caótica das torrentes, a naquele da Bahia facies
excepcional e selvagem.
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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