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Ubirajara (1874) -
José de Alencar - Parte I
"Todos cantam sua
terra/ Também vou cantar a minha"
UBIRAJARA
UbirajaraSenhor da lança, de Ubira - vara, e jara - senhor; aportuguesando
sentido, vem a ser lanceiro. Com este nome existia ao tempo do descobrimento,
nas cabeceiras do rio São Francisco, uma nação de que fala Gabriel Soares -
Roteiro do Brasil, cap. 182.
"A peleja dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notável do mundo, como
fica dito, porque a fazem com uns paus tostados muito agudos, de comprimento
de três palmos, pouco mais ou menos cada um, e tão agudos de ambas as pontas,
com os quais atiram a seus contrários como com punhais, e são tão certos com
eles que não erram tiro, com o que tem grande chegada; e desta maneira matam
também a caça que se lhe espera, o tiro não lhe escapa; os quais com estas
armas se defendem de seus contrários tão valorosamente como seus vizinhos com
arcos e flechas, etc."
Desta arma e da destreza com que a manejavam proveio o nome de bilreiros que
lhes deram os sertanistas, significando assim que tangiam suas lanças com a
agilidade e sutileza igual à da rendeira ao trocar os bilros.
ADVERTÊNCIA
Este livro é irmão de Iracema.
Chamei-lhe de lenda como ao outro. Nenhum título responde melhor pela
propriedade, como pela modéstia, às tradições da pátria indígena.
Quem por desfastio percorrer estas páginas, se não tiver estudado com alma
brasileira o berço de nossa nacionalidade, há de estranhar em outras coisas a
magnanimidade que ressumbra no drama selvagem a formar-lhe o vigoroso relevo.
Como admitir que bárbaros, quais nos pintaram os indígenas, brutos e canibais,
antes feras que homens, fossem suscetíveis desses brios nativos que realçam a
dignidade do rei da criação?
Os historiadores, cronistas e viajantes da primeira época, senão de todo o
período colonial, devem ser lidos à luz de uma crítica severa. É indispensável
sobretudo escoimar os fatos comprovados, das fábulas a que serviam de mote, e
das apreciações a que os sujeitavam espíritos acanhados, por demais imbuídos
de uma intolerância ríspida.
Homens cultos, filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato de
séculos, queriam esses forasteiros achar nos indígenas de um mundo novo e
segregado da civilização universal uma perfeita conformidade de idéias e
costumes.
Não se lembravam, ou não sabiam, que eles mesmos provinham de bárbaros ainda
mais ferozes e grosseiros do que os selvagens americanos.
Desta prevenção não escaparam muitas vezes espíritos graves e bastante
ilustrados para escreverem a história sob um ponto de vista mais largo e
filosófico.
Entre muitos citarei um exemplo. Barlaeus referindo as justas que se faziam
entre os selvagens para obterem em prêmio de seu valor a virgem mais formosa,
não se esqueceu de acrescentar este comento - finis spectantium est voluptas.
Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios e justas não
passariam de manejos inspirados pela sensualidade. Nada resistiria à censura
ou ao ridículo.
Por igual teor, senão mais grosseiras, são as apreciacões de outros escritores
acerca dos costumes indígenas. As coisas mais poéticas, os traços mais
generosos e cavaleirescos do caráter dos selvagens, os sentimentos mais nobres
desses filhos da natureza são deturpados por uma linguagem imprópria, quando
não acontece lançarem à conta dos indígenas as extravâgancias de uma
imaginação desbragada.
Releva ainda notar que duas classes de homens forneciam informações acerca dos
indígenasa dos missionários e a dos aventureiros. Em luta uma com outra, ambas
se achavam de acordo nesse ponto, de figurarem os selvagens como feras
humanas. Os missionários encareciam assim a importância da sua catequese; os
aventureiros buscavam justificar-se da crueldade com que tratavam os índios.
Faço estas advertências para que ao lerem as palavras textuais dos cronistas
citados nas notas seguintes não se deixem impressionar por suas apreciações
muitas vezes ridículas. É indispensável escoimar o fato dos comentos de que
vem acompanhado, para fazer uma idéia exata dos costumes e índole dos
selvagens.
O CAÇADOR
Pela margem do grande rio caminha Jaguarê, o jovem caçador. O arco pende-lhe
ao ombro, esquecido e inútil. As flechas dormem no coldre da uiraçaba.
Os veados saltam das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando do
caçador.
Jaguarê não vê o tímido campeiro, seus olhos buscam um inimigo capaz de
resistir-lhe ao braço robusto.
O rugido do jaguar abala a floresta; mas o caçador também despreza o jaguar,
que já cansou de vencer.
Ele chama-se Jaguarê, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fogem
espavoridos quando de longe o pressentem.
Não é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrível para vencê-lo em
combate de morte e ganhar nome de guerra.
Jaguarê chegou à idade em que o mancebo troca a fama do caçador pela glória do
guerreiro.
Para ser aclamado guerreiro por sua nação é preciso que o jovem caçador
conquiste esse título por uma grande façanha.
Por isso deixou a taba dos seus e a presença de Jandira, a virgem formosa que
lhe guarda o seio de esposa.
Mas o sol três vezes guiou o passo rápido do caçador através das campinas, e
três vezes como agora deitou-se além nas montanhas da Aratuba, sem mostrar-lhe
um inimigo digno de seu valor.
A sombra vai descendo da serra pelo vale e a tristeza cai da fronte sobre a
face de Jaguarê.
O jovem caçador empunha a lança de duas pontas, feita da roxa craúba, mais
rija que o ferro.
Nenhum guerreiro brandiu jamais essa arma terrível, que sua mão primeiro
fabricou.
Lá estaca o jovem caçador no meio da campina. Volvendo ao céu o olhar torvo e
iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra.
O bramido rolou pela amplidão da mata e foi morrer longe nas cavernas da
montanha.
Respondeu o ronco da sucuri na madre do rio e o urro do tigre escondido na
furna; mas outro grito de guerra não acudiu ao desafio do caçador.
Jaguarê arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além no grosso
tronco da emburana.
A copa frondosa ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento, e o
tronco gemeu até à raiz.
O caçador repousa à sombra de sua lança.
* * *
Salta uma corça da mata e veloz atravessa a campina.
Mais veloz a persegue gentil caçadora com a seta embebida no arco flexível.
Ergue-se Jaguarê.
Seu olhar ardente voou, sôfrego de encontrar o inimigo que lhe tardava.
Avistando uma mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio.
Pela faixa cor de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguarê conheceu que era
uma filha da valente nação dos tocantins, senhora do grande rio, cujas margens
ele pisava.
A liga vermelha que cingia a perna esbelta da estrangeira dizia que nenhum
guerreiro jamais possuíra a virgem formosa.
A corça veio cair aos pés de Jaguarê, atravessada pela flecha certeira da
jovem caçadora que a seguia de perto.
A virgem reconheceu o cocar da nação que na última lua chegara aos campos do
Taari e da qual os pajés tinham dado notícia.
- Guerreiro araguaia, pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que pertences
a essa nação valente; se pisas os campos dos tocantins como hóspede, bem-vindo
sejas; mas se vens como inimigo, foge, para que tua mãe não chore a morte de
seu filho e tenha quem a proteja na velhice.
- Virgem dos tocantins, Jaguarê já soltou seu grito de guerra. Ele pisa os
campos de teus pais como senhor. Tu és sua prisioneira. Não que vencer a corça
tímida seja glória para o caçador; mas tu chamarás o inimigo que ele espera.
- Se o veado te der a sua ligeireza, jovem guerreiro, ela não te servirá senão
para ver o rasto de meu pé antes que o vento o apague.
A linda caçadora desferiu a corrida pela imensa campina. Após ela se
arremessou Jaguarê que muitas vezes vencera o tapir.
Mas a virgem dos tocantins corria como a nandu no deserto, e o caçador
conheceu que seu braço nunca a poderia alcançar.
Travou do arco e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, pregando no tronco do açaí a
faixa que flutuava ao sopro do vento.
- A filha dos tocantins tem no pé as asas do beija-flor; mas a seta de Jaguarê
voa como o gavião. Não te assustes, virgem das florestas; tua formosura venceu
o ímpeto de meu braço e apagou a cólera no coração feroz do caçador. Feliz o
guerreiro que te possuir.
- Eu sou Araci, a estrela do dia, filha de Itaquê, pai da grande nação
tocantim. Cem dos melhores guerreiros o servem em sua cabana para merecer que
ele o escolha por filho. O mais forte e valente me terá por esposa. Vem
comigo, guerreiro araguaia, excede aos outros no trabalho e na constância, e
tu romperás a liga de Araci na próxima lua do amor.
- Não, filha do sol; Jaguarê não deixou a taba de seus pais onde Jandira lhe
guarda o seio de esposa, para ser escravo da virgem. Ele vem combater e ganhar
um nome de guerra que encha de orgulho a sua nação. Torna à taba dos tocantins
e dize aos cem guerreiros cativos de teu amor, que Jaguarê, o mais destemido
dos caçadores araguaias, os desafia ao combate.
- Araci vai, pois assim o queres. Se fores vencido, ela guardará tua
lembrança, pois nunca seus olhos viram mais belo caçador. Se fores vencedor,
será uma alegria para a virgem do sol pertencer ao mais valente dos
guerreiros.
A virgem disse e desapareceu na selva. Os olhos de Jaguarê seguiram o passo
ligeiro da formosa caçadora, como o guaxinim que rasteja a zabelê.
Quando ela desapareceu o jovem caçador recostou-se ao tronco da emburana e
esperou.
* * *
Do outro lado da campina assoma um guerreiro.
Tem na cabeça o canitar das plumas de tucano, e no punho do tacape uma franja
das mesmas penas.
E um guerreiro tocantim. De longe avistou Jaguarê e reconheceu o penacho
vermelho dos araguaias.
As duas nações não estão em guerra; mas sem quebra da fé pode um guerreiro,
cansado do longo repouso, oferecer a outro guerreiro combate leal.
Quando o tocantim armou o arco, Jaguarê já tinha brandido o seu e disparado no
ar uma seta, mensageira do desafio.
Respondeu o guerreiro disparando também uma flecha no ar, para dizer que
aceitava o combate.
Então os dois campeões caminharam um para o outro com o passo grave e pararam
frente a frente.
- Eu sou Jaguarê, filho de Camacã, chefe da valente nação dos araguaias, que
vem de longe em busca da terra de seus pais. Minha fama corre as tabas e tu já
deves conhecer o maior caçador das florestas. Mas Jaguarê despreza a fama do
caçador; ele quer um nome de guerra, que diga das nações a força de seu braço
e faça tremer aos mais bravos. Se tua nação te aclamou forte entre os fortes,
prepara-te para morrer; se não, passa teu caminho, guerreiro vil, para que o
sangue do fraco não manche o tacape virgem de Jaguarê.
- O caraíba guiou teu passo ao encontro de Pojucã, o matador de gente,
guerreiro chefe da terrível nação tocantim, que enche de terror as outras
nações. Há três luas, desde que fugiram espavoridos os bárbaros tapuias, que
Pojucã não combate; e seu tacape tem fome do inimigo. Tu não és digno dos
golpes de um guerreiro chefe; mas Pojucã se compadece de tua mocidade e
consente em combater contigo. Terás a glória de ser morto pelo mais valente
guerreiro tocantim. Os cantores de meus feitos lembrarão teu nome; e todos os
mancebos de tua nação invejarão tua sorte.
- Jaguarê agradece a Tupã que te fez um grande guerreiro e o chefe mais feroz
da grande nação tocantim, Pojucã, matador de gente. A tua morte será a
primeira façanha do caçador araguaia e lhe dará um nome de guerra que se torne
o espanto dos teus e o terror das outras nações.
Os dois campeões recuaram passo a passo até que se acharam a um tiro de arco.
Então soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra o outro brandindo
o tacape.
* * *
Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes
impetuosas no remoinho da Itaoca.
Dez vezes as clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo.
Os animais que passavam na floresta fugiram espavoridos, como se a borrasca
ribombasse no céu.
Ainda uma vez encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos ares.
- O ubiratã é forte; mas há outro ubiratã que lhe resiste. Como o braço de
Pojucã é que não há outro braço. Já viste, jovem caçador, o veado nas garras
da jibóia? Assim vais morrer.
- Se tu fosses a cascavel que somente sabe morder, Jaguarê te esmagaria a
cabeça com o pé e seguiria seu caminho. Mas tu s a jibóia feroz; e Jaguarê
gosta de estrangular a jibóia. Não morrerás pelo pé, mas pela mão do caçador.
Lança teu bote, guerreiro tocantim.
Pojucã estendeu os braços e estreitou os rins de Jaguarê, que por sua vez
cingiu os lombos do guerreiro.
Cada um dos campeões pôs na luta todas as suas forças, bastantes para arrancar
o tronco mais robusto da mata.
Ambos, porém, ficaram imóveis. Eram dois jatobás que nasceram juntos e
entrelaçaram os galhos ligando-se no mesmo tronco.
Nada os desprende; nada os abala. O tufão passa bramindo sem agitá-los; e eles
permanecem quedos pelo volver dos tempos.
Um pajé que passou na orla da mata viu os lutadores e esconjurou-os pensando
que eram as almas de dois guerreiros presos no abraço da morte.
Já a sombra se desdobrava pelo vale fora e o sol despedia-se dos cimos dos
montes, sem que os campeões se movessem.
Por fim afrouxaram os braços e cada lutador recuou para contemplar seu
adversário. Nenhum mostrava no rosto sombra de fadiga.
Conheceram que podiam lutar corpo a corpo, a noite inteira, sem que um
prostrasse o outro.
- Tu és igual na valentia e na força ao guerreiro chefe da nação tocantim. Mas
Pojucã não consente que haja na terra quem resista a seu braço. É preciso que
tu morras, Jaguarê, para que ele seja o primeiro dos guerreiros que o sol
alumia.
- Pojucã, matador de gente, guerreiro feroz da nação tocantim, Jaguarê
deixou-te viver até este momento para saber se tu eras digno de dar-lhe um
nome de guerra. Agora que te conhece como o primeiro dos guerreiros que
existiram até este momento, ele quer que tua derrota seja a sua primeira
façanha.
Disse e arrancando do tronco da emburana a lança de duas pontas caminhou outra
vez para Pojucã.
- Esta arma que tu vês é a lança de duas pontas. Jaguarê fabricou-a do rijo
galho da craúba, endurecido pelo fogo. Sua mão foi a primeira que a arremessou
e teu corpo é o primeiro cujo sangue ela vai beber. Empunha a lança de duas
pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes a morte dos valentes.
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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