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 Numa e a Ninfa (1915) - Lima Barreto 

 

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Numa e a Ninfa (1915) - Lima Barreto - Parte I  

a Irineu Marinho

"Cette nation (l’Egypte) grave et sérieuse
connut d’abord la vraie de la politique,
qui est de rendre la vie commode et les
peuples heurex"
BOUSSET

I

O grande debate que provocara na Câmara o projeto de formação de um novo Estado na federação nacional apaixonou não só a opinião pública, mas também (é extraordinário) os profissionais da política.

Em torno do projeto, interesses de toda a ordem gravitavam. Um grande número de cargos políticos e administrativos iam ser criados; e, se bem que a passagem do projeto de lei não fosse para já, os chefes, chefetes, subchefes, ajudantes, capatazes políticos se agitavam e pediam, e desejavam, e sonhavam com este e aquele lugar para este ou aquele dos seus apaniguados.

De resto, além desse resultado palpável do projeto, havia nele outro alcance que só os profissionais da política entreviam. Com a criação de um novo Estado nasceria naturalmente uma nova bancada da representação nacional no Senado e na Câmara; e o partido dominante, republicano radical, temia não eleger a totalidade dela.

Bastos, o seu poderoso e temido chefe, que detinha o domínio político do pais, hesitava em apoiar ou contrariar francamente o projeto e, a respeito, só tinha frases vagas e gestos de duvidoso sentido. Os seus asseclas, os muitos que lhe obedeciam cegamente, sem a palavra devida, não sabiam o que dizer; e os mais atarantados eram os seus jornalistas e parlamentares. Uns, apoiavam; outros, combatiam; outros, ainda, ora apoiavam, ora combatiam.

Essa desordem nos arraiais políticos, essa interrupção do trilho guiador, excitava os ânimos dos legisladores, preocupados, todos, quer combatessem, quer apoiassem, em agradar o chefe e revelar que haviam descoberto o pensamento oculto de Bastos - porque o Congresso era todo deste, a não ser uma reduzida minoria que, no afã de combatê-lo, ora dizia não, ora sim, conforme supunha que Basto queria ou não a criação de uma nova unidade federal.

Deputados houve que cortaram as relações amistosas, tão somente porque, no calor da discussão, um aparte mais veemente um deles proferira, quase sem reflexão.

Dizia-se à boca pequena que o projeto tinha por fim acrescer a representação federal de jeito que, na próxima legislatura, tivesse o Congresso os dois terços necessários para rejeitar o "veto" ao projeto de venda de um dos mais importantes próprios nacionais. Cochichavam que tal influência receberia tanto; que tal outro já havia recebido metade da gratificação prometida; que a esposa de um diplomata também tinha interesse no negócio, além de apontarem outros padrinhos, já conhecidos por todos, como protetores de tais cambalachos.

Ao certo, o que havia em torno da proposição parlamentar, o grosso público não sabia, e que ela podia trazer no bojo tudo o que se dizia, era admissível. A imitação do regime político dos Estados Unidos não ficou restrita à Constituição; aos poucos, como conseqüência ou não, conscientemente ou sem pensamento anterior, a imitação se estendeu aos seus escusos processos de traficâncias em votos e medidas de governo.

A massa, a população interessava-se pelo debate, pesava argumentos, sem suspeitar que tanto esforço de inteligência escondesse uma vulgar mascateação ou um arranjo de políticos.

Fosse a importância do assunto ou fossem os interesses subalternos em jogo, o certo é que ocuparam a tribuna os mais mudos deputados e os mais céticos foram ainda encontrar no fundo deles mesmos, ardor e vigor combativos.
Entre as revelações parlamentares que surgiram no momento, uma causou espanto. Era quase desconhecida da Câmara, e completamente do público, a existência do Deputado Numa Pompílio de Castro.

Apesar de nome tão auspicioso para o ofício de legislador, os próprios contínuos não lhe guardavam com facilidade nem o nome nem os traços fisionômicos. Durante muito tempo, chamaram-no de Nuno; e, nos primeiros meses de seu mandato, freqüentemente impediram-lhe a entrada em certas dependências, a menos que o fizesse pela porta por onde penetrara na véspera. Reconhecido e empossado, não deu sinal de si durante o primeiro ano e meio de legislatura. Passou todos esses longos meses a dormitar na sua bancada, pouco conversando, enigmático, votando automaticamente com o líder e designado pelos informados como - "O genro do Cogominho". Era o deputado ideal; já se sabia de antemão a sua opinião, o seu voto, e as suas presenças nas sessões era fatal. Se na passagem de algum projeto, anteviam dificuldades na obtenção da maioria, contavam logo com o voto do "genro do Cogominho". Ele vota conosco, diziam os cabalistas, a questão é saber o que o Bastos quer e o líder manda.

A sua colaboração, por esse tempo, para a felicidade nacional, se não foi fecunda, foi das mais tácitas de que se há notícia.
O deputado Pieterzoon, um gordo descendente de holandês, mas cuja malícia não tinham nem o peso do seu corpo, nem o da sua raça, disse certa vez: —"Numa ainda não ouviu a Ninfa; quando o fizer - ai de nós!"

O deputado Salvador. que ouviu a frase indagou: —"Ele é fauno?" O homenzinho tinha visto um quadro - Ninfas e Faunos - e não havia meio de se separar na sua inteligência uma coisa da outra. Pieterzoon redargüiu: —"Não sei, meu caro, mesmo porque não se está bem certo de que os faunos fossem mudos."

Foi, portanto, com extraordinária surpresa, que se viu o deputado Numa tomar a palavra e fazer um discurso valioso. Parecia um milagre ver aquele sujeito tão mudo, tão esquivo, tão aparentemente sem idéias, lidar com as palavras, organizá-las convenientemente, exprimindo-se com bastante lógica.

A sua argumentação foi até das mais perfeitas e eruditas, sem que a erudição perturbasse a concatenação, a seriação lógica da tese a demonstrar. Mostrou que a nossa federação não atendia a tradições locais de costumes, de língua ou e história; que não foram pequenos países que se uniram por ter um liame comum, mas, tão somente um imenso país que se dividiu e procurou com uma mais ampla autonomia local, perfeição administrativa: e, assim sendo, não se compreendia nem o "patriotismo estadual" nem a existência de desmedidos Estados, verdadeiros impérios.

Os representantes dos jornais, não contando com tão inesperada revelação, denunciaram o entusiasmo com calorosos elogios publicados nas suas folhas, ao dia seguinte.

Dizia A Aurora : "O debate sobre a formação do Estado de Guaxupé (projeto 244-A), se outro serviço não prestou, pelo menos teve a vantagem de ter revelado ao país um poderoso orador. O sr. Numa Pompílio, até agora considerado como uma perfeita excrescência parlamentar, produziu ontem um discurso cheio de critério, em que se notam saber, elegância e propriedade de frases."

Na seção competente, O Intransigente noticiava: "Ontem, na Câmara, naquele indecente valhacouto de caixeiros de oligarcas abandalhados, houve novidade. O sr. Numa de Castro, que até o dia de ontem era tido por idiota, revelou-se um orador. É verdade que não pode emparelhar-se com os grandes oradores da Câmara. Faltam-lhe imagens, o seu vocabulário é pobre, a sua construção é rasteira; fala como conversa. quase terra à terra, sem as imagens que tanto tornam notável o sr. Gracimundo Rocha. O seu discurso foi ouvido no maior silêncio e impressionou francamente a Câmara. Ainda bem que isso lhe desculpa um pouco o ser associado à deslavada oligarquia dos Cogominhos."

Um outro jornal, que se tinha por neutro, e aqui e ali, encontravam-se nele opiniões bem firmadas, contava a estréia da seguinte forma: "O Sr. Numa Cogominho parece ter esperado o momento azado de revelar-se. Até agora, depois de ter entrado para a Câmara, os trabalhos parlamentares têm se limitado a discussões corriqueiras de projetos pessoais, de questiúnculas políticas e mesmo do estafado orçamento. A sua cultura histórica e o seu saber sociológico pediam outros pretextos para se revelarem. Ontem, eles foram encontrados na discussão do projeto n.º 244-A. Toda gente sabe de que cuida esse projeto, mas o que toda gente não supôs era de que maneira elegante e sábia, ao mesmo tempo, ele podia ser tratado. O Sr. Numa fez isso e com muita discrição oratória, poucos tropos, sem guirlandas de frases. É simples a sua maneira de falar, calma e sóbria, sem nada daquilo que os latinos chamavam de asiático. Pode-se dizer dela o que já se disse do estilo de Descartes: "il n’a que des idées et pas de style visible."

Antes que acabasse a semana, as revistas ilustradas - Os Sucessos - A Nota - O Mequetrefe - publicaram o retrato da nova glória parlamentar e a primeira, a sua biografia desenvolvida. A repercussão do triunfo foi tal que, quando, dias após, o Dr. Numa atravessou a rua do Ouvidor, trazendo ao lado a mulher, era já uma notabilidade apontada e gloriosa. Aquela gente que a enche, gente habituada a respeitar as glórias retratadas nas revistas ilustradas e gabadas diariamente nos quotidianos, reconheceu-o e olho-o com o alto respeito que se deve a um grande orador parlamentar.

Numa caminhava acanhado, de cabeça baixa, trôpego um tanto, mas a mulher, D. Edgarda, pisava com segurança, muito naturalmente, e com a fisionomia cheia de alegria contida.

Esforçava-se por não perder o que diziam; e, ao menor comentário feito à glória do marido, procurava de soslaio ver no grupo de quem partia. Os seus olhos, ao chegar aos cantos das órbitas, fulguravam um instante e rapidamente se punham na posição normal. Se parava para falar a um conhecido, a alegria contida arrebentava em demorados sorrisos e frases meigas, dirigidas às amigas ou aos filhos destas, se as acompanhavam; e nunca o seu longo olhar foi tão longo e tão líquido e nunca brilhou tanto o esmalte de seus dentes na concha nacarada dos seus lábios.

Desceram assim os dois lentamente a rua, parando aqui e ali, gozando aos goles o licor inebriante do triunfo. Cumprimentos não faltavam. Numa era detido por este e aquele, mas, dos muitos que o cumprimentaram. um ele apreciou sobremodo. As palavras do Inácio Costa foram-lhe ao fundo d’alma. A mulher não as ouvira bem, ficara atendendo outro conhecimento e Costa passara a dizer:

— Meu caro Dr. Numa, gostei imensamente do seu discurso. Para mim, achei nas suas palavras um bálsamo tranqüilizador e patriótico. Estávamos voltando muito ao carrancismo egoísta dos conselheiros monárquicos. Os princípios republicanos estavam sendo esquecidos. Precisamos sempre reavivá-los. Ao mais digno! - é o meu pensamento.

Este Costa era funcionário público e fora da Escola Militar, donde trouxera uma fórmulas positivistas e um forte crença nos efeitos milagrosos da palavra república. Havia no seu feitio mental uma grande incapacidade para a crítica, para a comparação e fazia depender toda a felicidade da população numa simples modificação na forma de transmissão da chefia do Estado. Passara pelos jacobinos, florianistas e tinha a intolerância que os caracteriza, e a ferocidade política que os caracterizou.

Feroz e intolerante, com o apoio do positivismo autoritário, a sua concepção de governo se consubstanciava na ditadura e daí resvalava para o despotismo militar. Não se dirá que não fosse sincero; ele o era, embora houvesse nos seus intuitos, alguma mescla de interesse de melhoria na sua situação burocrática.

Julgava-se com a certeza; e, firmado na ciência, pois tirava toda a sua argumentação do positivismo, todo ele baseado na ciência e conseqüência dela, principalmente da matemática, condenava os adversários à fogueira.
Escusado é dizer que pouco sabia de matemática e falava por fé. Era um crente que tinha a revelação da certeza política.

Numa prezou muito a sua opinião por dois motivos. Costa escrevia nos jornais e era ouvido com atenção pelo poderoso chefe Bastos.

Esta última razão era por demais ponderável, porque Bastos tinha o mesmo feitio mental de Costa; e julgava imprescindível a manutenção da República, necessária à integração do Brasil no regime político da América. Não se atina bem por que seja isso necessário, pois é perfeitamente sabido que, antes de nós, os argentinos, nos quais essa espécie de gente encontra modelo, quiseram lá implantar a forma monárquica.

Costa e Bastos eram crentes, fanáticos com a mania de catequese de qualquer jeito e não discutiam a sua fé.
Numa viu nas palavras de Costa a aprovação do grande chefe - o que consolidava o discreto elogio que este último lhe fizera: - "Sr. Numa, o senhor é um republicano!..."

Numa Pompílio de Castro, a recente glória da tribuna política nacional, cuja biografia ocupou quatro páginas da Os Sucessos , não tinha história nem interessante nem longa. Filho de um pequeno empregado de um hospital do Norte, fizera-se bacharel em Direito à custa das maiores privações. Logo menino, não lhe solicitaram os lados extraordinários da vida. Embora humilde não foram as cumeadas da vida que ele viu. Viu a formatura, o doutorado, isto é, ser um dos brâmanes privilegiados, dominando sem grande luta e provas de valor, pois, com ele, afastava uma grande parte dos concorrentes.

O filho do escriturário, desprezado pelos doutores, percebeu logo que era preciso ser doutor fosse como fosse.
Arranjou daqui e dali os preparatórios; e, durante o curso, levou a mais miserável vida que se pode imaginar. Alimentava-se dias inteiros de café e pão, dormia em ciam de jornais, mas não deixava jamais de ir às aulas, de sentar-se ao banco da música, de fazer perguntas ao lente e prestar exames.

De quando em quando, arranjava um emprego efêmero, lições e munia-se de roupa. Formou-se aos vinte e quatro anos, tendo vivido desde os dezesseis sobre si.
Parecia que uma energia dessas se devesse empregar em altos intuitos; há aí, porém, uma questão de ponto de vista. No seu entender, o máximo escopo da vida era formar-se e formou-se com grande esforço e tenacidade.

Não que houvesse nele um alto amor ao saber, uma alta estima às matérias que estudava e das quais fazia exame. Odiava-as até. Todas aquelas complicações de direitos e outras disciplinas pareciam-lhe vazias de sentido, sem substância, puras aparências e mesmo sem grande utilidade e significação, a não ser a de constituírem barreiras e obstáculos, destinados à seleção dos homens.

O jovem Numa não separava o conceito das disciplinas dos da formatura; Economia Política, Direito Romano, Finanças e Medicina Legal não respondiam a certas necessidades da comunhão humana; e, se tais matérias foram criadas, descobertas ou inventadas, o foram tão somente para fabricar bacharéis em Direito. Com as outras carreiras, acontecia o mesmo.

Tal idéia pautava e regia o seu curso; instantes depois de acabado o exame Pompílio esquecia a disciplina.

Demais, pode dizer-se que nunca vira um livro. Todo o seu curso fora feito estudando nas apostilas, cadernos e pontos, organizados por outrem. Decorava aqueles períodos mastigados, triturados e os repetia palavra por palavra ao lente. Prevenia-se para a prova, imaginando as perguntas do professor, e organizava as respostas, citando autoridades de vários países.

Foi sempre dos primeiros estudantes e, se não foi o primeiro fim do curso, deveu à nota baixa que tirou em Medicina Legal. Vale a pena contar o caso. O lente perguntou-lhe:
— Qual a quantidade de arsênico que pode ser encontrada nas glândulas tireóideas?

Respondeu logo:

— Dezessete gramas.

Houve um grande espanto por parte do examinador e o estudante surpreendeu-se com o espanto do lente.

Não fora a sua ignorância que o fizera dizer semelhante dislate; foram os cadernos. O primeiro estudante escrevera certo; o copista que se seguira, atrapalhara-se na vírgula dos décimos e, de copista em copista, de erro em erro a apostila levara Numa a repetir tão imensa tolice nas bochechas dos seus sábios professores.

O seu rival no curso aproveitou a descaída e tirou o prêmio. Foi a única amargura da sua vida. Nascido pobremente, tendo passado toda espécie de privações e necessidades, nada o fazia sofrer profundamente. Logo que se viu formado partiu para a sua terra natal e lá andou um ano inteiro a receber homenagens, sempre estranhando que alguns dos seus companheiros de colégio não o chamassem por doutor.

Por: Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa

 

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