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Triste Fim de Policarpo
Quaresma (1915) - Lima Barreto - Parte I
I A LIÇÃO DE VIOLÃO
Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu
em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso
acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecretário, bongava pelas
confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, às vezes, e sempre o pão da
padaria francesa.
Não gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, às três e
quarenta, por ai assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto, ia pisar a
soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de São Januário, bem
exatamente às quatro e quinze, como se fosse a aparição de um astro, um
eclipse, enfim um fenômeno matematicamente determinado, previsto e predito.
A vizinhança já lhe conhecia os hábitos e tanto que, na casa do Capitão
Cláudio, onde era costume jantar-se aí pelas quatro e meia, logo que o viam
passar, a dona gritava à criada: "Alice, olha que são horas; o Major Quaresma
já passou."
E era assim todos os dias, há quase trinta anos. Vivendo em casa própria e
tendo outros rendimentos além do seu ordenado, o Major Quaresma podia levar um
trem de vida superior ao seus recursos burocráticos, gozando, por parte da
vizinhança, da consideração e respeito de homem abastado.
Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os
vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se não tinha amigos na
redondeza, não tinha inimigos, e a única desafeição que merecera, fora a do
doutor Segadas, um clínico afamado no lugar, que não podia admitir que
Quaresma tivesse livros: "Se não era formado, para quê? Pedantismo!"
O subsecretário não mostrava os livros a ninguém, mas acontecia que, quando se
abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua poder-se-iam ver as estantes
pejadas de cima a baixo.
Eram esses os seus hábitos; ultimamente, porém, mudara um pouco; e isso
provocava comentários no bairro. Além do compadre e da filha, as únicas
pessoas que o visitavam até então, nos últimos dias, era visto entrar em sua
casa, três vezes por semana e em dias certos, um senhor baixo, magro, pálido,
com um violão agasalhado numa bolsa de camurça. Logo pela primeira vez o caso
intrigou a vizinhança. Um violão em casa tão respeitável! Que seria?
E, na mesma tarde, urna das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga,
e ambas levaram um tempo perdido, de cá para lá, a palmilhar o passeio,
esticando a cabeça, quando passavam diante da janela aberta do esquisito
subsecretário.
Não foi inútil a espionagem. Sentado no sofá, tendo ao lado o tal sujeito,
empunhando o "pinho" na posição de tocar, o major, atentamente, ouvia: "Olhe,
major, assim". E as cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o
mestre aduzia: "É 'ré', aprendeu?"
Mas não foi preciso pôr na carta; a vizinhança concluiu logo que o major
aprendia a tocar violão. Mas que coisa? Um homem tão sério metido nessas
malandragens!
Uma tarde de sol -- sol de março, forte e implacável -- aí pelas cercanias das
quatro horas, as janelas de uma erma rua de São Januário povoaram-se rápida e
repentinamente, de um e de outro lado. Até da casa do general vieram moças à
janela! Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o Major Quaresma, de
cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo
do braço um violão impudico.
É verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas o
vestuário não lhe escondia inteiramente as formas. À vista de tão escandaloso
fato, a consideração e o respeito que o Major Policarpo Quaresma merecia nos
arredores de sua casa, diminuíram um pouco. Estava perdido, maluco, diziam.
Ele, porém, continuou serenamente nos seus estudos, mesmo porque não percebeu
essa diminuição.
Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre
baixo, mas, quando fixava alguém ou alguma coisa, os seus olhos tomavam, por
detrás das lentes, um forte brilho de penetração, e era como se ele quisesse
ir à alma da pessoa ou da coisa que fixava.
Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque
que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de
cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que não se cobrisse
com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino antigo
de que ele sabia com precisão a época.
Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irmã quem lhe abriu a porta,
perguntando:
-- Janta já?
-- Ainda não. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje consoco.
-- Policarpo, você precisa tomar juízo. Um homem de idade, com posição
respeitável, como você é, andar metido com esse seresteiro, um quase capadócio
-- não é bonito!
O major descansou o chapéu-de-sol -- um antigo chapéu-de-sol, com a haste
inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos losangos
de madrepérola -- e respondeu:
-- Mas você está muito enganada, mana. É preconceito supor-se que todo homem
que toca violão é um desclassificado. A modinha é a mais genuína expressão da
poesia nacional e o violão é o instrumento que ela pede. Nós é que temos
abandonado o gênero, mas ele já esteve em honra, em Lisboa, no século passado,
com o Padre Caldas, que teve um auditório de fidalgas. Beckford, um inglês
notável, muito o elogia.
-- Mas isso foi em outro tempo; agora...
-- Que tem isso, Adelaide? Convém que nós não deixemos morrer as nossas
tradições, os usos genuinamente nacionais...
-- Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas
manias.
O major entrou para um aposento próximo, enquanto sua irmã seguia em direitura
ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se,enfiou a roupa de casa, veio
para a biblioteca, sentou-se a uma cadeira de balanço, descansando.
Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era
forrado de estantes de ferro.
Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros de
maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande coleção de livros
havia de espantar-se ao perceber o espírito que presidia a sua reunião.
Na ficção, havia unicamente autores nacionais ou tidos como tais: o Bento
Teixeira, da Prosopopéia; o Gregório de Matos, o Basílio da Gama, o Santa Rita
Durão, o José de Alencar (todo), o Macedo, o Gonçalves Dias (todo), além de
muitos outros. Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou
nacionalizados de oitenta ora lá faltava nas estantes do major.
De História do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares,
Gandavo; e Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal,
Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von Brasilien), Melo Morais,
Capistrano de Abreu, Southey, Varnhagen, além de outros mais raros ou menos
famosos. Então no tocante a viagens e explorações, que riqueza! Lá estavam
Hans Staden, o Jean de Léry, o Saint-Hilaire, o Martius, o Príncipe de Neuwied,
o John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto de Magalhães e se se encontravam
também Darwin, Freycinet, Cook, Bougainville e até o famoso Pigafetta,
cronista da viagem de Magalhães, é porque todos esses últimos viajantes
tocavam no Brasil, resumida ou amplamente.
Além destes, havia livros subsidiários: dicionários, manuais, enciclopédias,
compêndios, em vários idiomas.
Vê-se assim que a sua predileção pela poética de Porto Alegre e Magalhães não
lhe vinha de uma irremediável ignorância das línguas literárias da Europa; ao
contrário, o major conhecia bem sofrivelmente francês, inglês e alemão; e se
não falava tais idiomas, lia-os e traduzia-os corretamente. A razão tinha que
ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no forte sentimento
que guiava sua vida. Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos,
o amor da Pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e
vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições
políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o
patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a
meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as
medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa.
Não se sabia bem onde nascera, mas não fora decerto em São Paulo, nem no Rio
Grande do Sul, nem no Pará. Errava quem quisesse encontrar nele qualquer
regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por
esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de
paixão não eram só os pampas do Sul com o seu gado, não era o café de São
Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara,
não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o
ímpeto de Andrade Neves -- era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a
bandeira estrelada do Cruzeiro.
Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o
incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era
liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a "terra
que o viu nascer". Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do exército,
procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar.
Era onde estava bem. No meio de soldados, de canhões, de veteranos, de
papelada inçada de quilos de pólvora, de nomes de fuzis e termos técnicos de
artilharia, aspirava diariamente aquele hálito de guerra, de bravura, de
vitória, de triunfo, que é bem o hálito da Pátria.
Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas
riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na
sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais que o
Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as
guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos
os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos
os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns
quilômetros ao Nilo e era com este rival do "seu" rio que ele mais implicava.
Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava
agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do
Nilo.
Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manhãs,
antes que a "Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro Febo",
ele se atracava até ao almoço com o Montoya, Arte y diccionario de la lengua
guaraní ó más bien tupí, e estudava o jargão caboclo com afinco e paixão. Na
repartição, os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo notícia
desse seu estudo do idioma tupiniquim, deram não se sabe por que em chamá-lo
-- Ubirajara. Certa vez, o escrevente Azevedo, ao assinar o ponto, distraído,
sem reparar quem lhe estava às costas, disse em tom chocarreiro: "Você já viu
que hoje o Ubirajara está tardando?"
Quaresma era considerado no arsenal: a sua idade, a sua ilustração, a modéstia
e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos. Sentindo que a
alcunha lhe era dirigida, não perdeu a dignidade, não prorrompeu em doestos e
insultos. Endireitou-se, concertou o pince-nez, levantou o dedo indicador no
ar e respondeu:
-- Senhor Azevedo, não seja leviano. Não queira levar ao ridículo aqueles que
trabalham em silêncio, para a grandeza e a emancipação da Pátria.
Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do café,
quando os empregados deixavam as bancas, transmitir aos companheiros o fruto
de seus estudos, as descobertas que fazia, no seu gabinete de trabalho, de
riquezas nacionais. Um dia era o petróleo que lera em qualquer parte, como
sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de árvore de
borracha que crescia no rio Pardo, em Mato Grosso; outra, era um sábio, uma
notabilidade, cuja bisavó era brasileira; e quando não tinha descoberta a
trazer, entrava pela corografia, contava o curso dos rios, a sua extensão
navegável, os melhoramentos insignificantes de que careciam para se prestarem
a um franco percurso da foz às nascentes. Ele amava sobremodo os rios; as
montanhas lhe eram indiferentes, Pequenas talvez...
Os colegas ouviam-no respeitosos e ninguém, a não ser esse tal Azevedo, se
animava na sua frente a lhe fazer a menor objeção, a avançar uma pilhéria, um
dito. Ao voltar as costas, porém, vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de
troças: "Este Quaresma! Que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico...
Arre! Não tem outra conversa".
E desse modo ele ia levando a vida, metade na repartição, sem ser
compreendido, e a outra metade em casa, também sem ser compreendido. No dia em
que o chamaram de Ubirajara, Quaresma ficou reservado, taciturno, mudo, e só
veio a falar porque, quando lavavam as mãos num aposento próximo à secretaria
e se preparavam para sair, alguém, suspirando, disse: "Ah! Meu Deus! Quando
poderei ir à Europa!" O major não se conteve: levantou o olhar, concertou o
pince-nez e falou fraternal e persuasivo: "Ingrato! Tens uma terra tão bela,
tão rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de
percorrer a minha de princípio ao fim!"
O outro objetou-lhe que por aqui só havia febres e mosquitos; o major
contestou-lhe com estatísticas e até provou exuberantemente que o Amazonas
tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima caluniado pelos viciosos
que de lá vinham doentes...
Era assim o Major Policarpo Quaresma que acabava de chegar à sua residência,
às quatro e quinze da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes,
exceto aos domingos, exatamente, ao jeito da aparição de um astro ou de um
eclipse.
No mais, era um homem como todos os outros, a não ser aqueles que têm ambições
políticas ou de fortuna, porque Quaresma não as tinha no mínimo grau.
Sentado na cadeira de balanço, bem ao centro de sua biblioteca, o major abriu
um livro e pôs-se a lê-lo à espera do conviva. Era o velho Rocha Pita, o
entusiástico e gongórico Rocha Pita da História da América Portuguesa.
Quaresma estava lendo aquele famoso período: "Em nenhuma outra região se
mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum
outro hemisfério tem os raios mais dourados..." mas não pôde ir ao fim. Batiam
à porta. Foi abri-la em pessoa.
-- Tardei, major? perguntou o visitante.
-- Não. Chegaste à hora.
Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Coração dos
Outros, homem célebre pela sua habilidade em cantar modinhas e tocar violão.
Em começo, a sua fama estivera limitada a um pequeno subúrbio da cidade, em
cujos "saraus" ele e seu violão figuravam como Paganini e a sua rebeca em
festas de duques; mas, aos poucos, com o tempo, foi tomando toda a extensão
dos subúrbios, crescendo, solidificando-se, até ser considerada como coisa
própria a eles. Não se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de
modinhas aí qualquer, um capadócio. Não; Ricardo Coração dos Outros era um
artista a freqüentar e a honrar as melhores famílias do Méier, Piedade e
Riachuelo. Rara era a noite em que não recebesse um convite. Fosse na casa do
Tenente Marques, do doutor Bulhões ou do "Seu" Castro, a sua presença era
sempre requerida, instada e apreciada, O doutor Bulhões, até, tinha pelo
Ricardo uma admiração especial, um delírio, um frenesi e, quando o trovador
cantava, ficava em êxtase. "Gosto muito de canto", dizia o doutor no trem
certa vez, "mas só duas pessoas me enchem as medidas: o tamagno e o Ricardo".
Esse doutor tinha uma grande reputação nos subúrbios, não como médico, pois
que nem óleo de rícino receitava, mas como entendido em legislação
telegráfica, por ser chefe de seção da Secretaria dos Telégrafos.
Dessa maneira, Ricardo Coração dos Outros gozava da estima geral da alta
sociedade suburbana. É uma alta sociedade muito especial e que só é alta nos
subúrbios. Compõe-se em geral de funcionários públicos, de pequenos
negociantes, de médicos com alguma clínica, de tenentes de diferentes
milícias, nata essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes
regiões, assim como nas festas e nos bailes, com mais força que a burguesia de
Petrópolis e Botafogo. Isto é só lá, nos bailes, nas festas e nas ruas, onde
se algum dos seus representantes vê um tipo mais ou menos, olha-o da cabeça
aos pés, demoradamente, assim como quem diz: aparece lá em casa que te dou um
prato de comida. Porque o orgulho da aristocracia suburbana está em ter todo
dia jantar e almoço, muito feijão, muita carne-seca, muito ensopado -- aí,
julga ela, é que está a pedra de toque da nobreza, da alta linha, da
distinção.
Fora dos subúrbios, na Rua do Ouvidor, nos teatros, nas grandes festas
centrais, essa gente míngua, apaga-se, desaparece, chegando até as suas
mulheres e filhas a perder a beleza com que deslumbram, quase diariamente, os
lindos cavalheiros dos intermináveis bailes diários daquelas redondezas.
Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou
e passou à cidade, propriamente. A sua fama já chegava a São Cristóvão e em
breve (ele o esperava) Botafogo convidá-lo-ia, pois os jornais já falavam no
seu nome e discutiam o alcance de sua obra e da sua poética...
Mas que vinha ele fazer ali, na casa de pessoa de propósitos tão altos e tão
severos hábitos? Não é difícil atinar. Decerto, não vinha auxiliar o major nos
seus estudos de geologia, de poética, de mineralogia e história brasileiras.
Como bem supôs a vizinhança, o Coração dos Outros vinha ali tão-somente
ensinar o major a cantar modinhas e a tocar violão, Nada mais, e é simples.
De acordo com a sua paixão dominante, Quaresma estivera muito tempo a meditar
qual seria a expressão poética musical característica da alma nacional.
Consultou historiadores, cronistas e filósofos e adquiriu certeza que era a
modinha acompanhada pelo violão. Seguro dessa verdade, não teve dúvidas:
tratou de aprender o instrumento genuinamente brasileiro e entrar nos segredos
da modinha. Estava nisso tudo a quo, mas procurou saber quem era o primeiro
executor da cidade e tomou lições com ele. O seu fim era disciplinar a modinha
e tirar dela um forte motivo original de arte.
Ricardo vinha justamente dar-lhe lição, mas, antes disso, por convite especial
do discípulo, ia compartilhar o seu jantar; e fora por isso que o famoso
trovador chegou mais cedo à casa do subsecretário.
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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