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Tratado da Terra do Brasil (1576) - Pero de
Magalhães Gândavo - Parte I
TRATADO DA TERRA DO BRASIL,
NO QUAL SE CONTEM A INFORMAÇÃO DAS COUSAS QUE HÁ NESTAS PARTES, FEITO POR PERO
DE MAGALHÃES
Ao mui alto e Sereníssimo Príncipe dom Henrique, Cardeal, Infante de Portugal.
Posto que os dias passados apresentei outro summario da terra do Brasil a
el-Rei nosso Senhor, foi por cumprir primeiro com esta obrigação de Vassallo
que todos devemos a nosso Rei: e por esta razão me pareceu cousa mui
necessaria (muito Alto e Sereníssimo Senhor) offerecer também este a V. A. a
quem se devem referir os louvores e accrescentamento das terras que nestes
Reinos florecem: pois sempre desejou tanto augmentá-las, e conservar seus
Subditos e Vassallos em perpetua paz.
Como eu isto entenda, e conheça quam acceitos são os bons serviços a V. A. que
ao Reino se fazem imaginei comigo que podia trazer destas partes com que désse
testemunho de minha pura tenção: e achei que não se podia dum fraco homem
esperar maior serviço (ainda que tal não pareça) que lançar mão desta
informação da terra do Brasil (cousa que ategora não empreendeu pessôa alguma)
pera que nestes Reinos se divulgue sua fertilidade e provoque a muitas pessoas
pobres que se vão viver a esta provincia, que nisso consiste a felicidade e
augmento della.
E por que V. A. sabe quanto serviço de Deos e del-Rey nosso Senhor seja esta
denunciação, determinei colligi-la com deliberação de a offerecer a V. A. a
quem humilmente peço ma receba, e com tamanha mercê ficarei satisfeito rogando
a nosso Senhor lhe dê prosperos e largissimos annos de Vida, e deixe
permanecer seu Real estado em perpetua felicidade. Amem.
Pero de Magalhães Humilde Vassallo de S. A.
PROLOGO AO LECTOR
Minha tenção não foi outra neste summario (discreto e curioso lector) senão
denunciar em breves palavras a fertilidade e abundancia da terra do Brasil,
para que esta fama venha a noticia de muitas pessoas que nestes Reinos vivem
com pobreza, e não duvidem escolhe-la para seu remedio; por que a mesma terra
he tam natural e favoravel aos estranhos que a todos agazalha e convida como
remedio por pobres e desemparados que sejão.
E assi cada vez se vai fazendo mais prospera, e depois que as terras viçosas
se forem povoando (que agora estão desertas por falta de gente) hão de se
fazer nellas grossas fazendas como já estão feitas nas que possuem os
moradores da terra, e também se espera desta provincia que por tempo floreça
tanto na riqueza como as Antilhas de Castella por que he certo ser em si a
terra mui rica e haver nella muitos metaes, os quaes ataegora se não descobrem
ou por não haver gente na terra pera cometer esta empreza, ou tambem por
negligencia dos moradores que se não querem dispor a esse trabalho: qual seja
a causa por que o deixão de fazer não sei.
Mas permitirá nosso Senhor que ainda em nossos dias se descubram nella grandes
thesouros, assi para serviço a augmento de S. A., como pera proveito de seus
Vassallos que o desejão servir.
DECLARAÇÃO DA COSTA
Esta costa do Brasil está pera a parte do occidente, corre-se Norte e Sul . Da
primeira povoação até derradeira ha trezentas e cinco legoas. São oito
Capitanias, todas têm portos mui seguros onde podem entrar quaesquer naos por
grandes que sejão. Não ha pela terra de povoações de portuguezes por causa dos
indios que não no consentem e tambem pelo socorro e tratos do Reino lhes he
necessario estarem junto ao mar pera terem comunicação de mercadorias. E por
este peito vivem todos junto da Costa.
CAPÍTULO PRIMEIRO
DA CAPITANIA DE TAMARACÁ
A povoação da primeira Capitania, e mais antiga está numa ilha que se chama
Tamaracá pegada com a terra firme; tem tres legoas de comprido e duas de
largo. Tem trinta e cinco legoas de terra pela Costa pera o Norte. He de dona
Jeronima Dalbuquerque, mulher que foi de Pero Lopes de Sousa, na qual tem
posto Capitão de sua mão. Ha nella hum engenho dassucre e agora se fazem dous
novamente e muito pau do Brasil e algodão. Póde ter até cem vizinhos. Ha nesta
Capitania muitas e boas terras pera se povoarem e fazerem nellas fazendas.
CAPÍTULO SEGUNDO
DA CAPITANIA DE PERNAMBUCO
A Capitania de Phernambuco está cinco legoas de Tamaracá pera o Sul em altura
de oito graos, da qual he Capitão e governador Duarte Coelho Dalbuquerque. Tem
duas povoaçõess a principal se chama Olinda, a outra Guarassú, que está quatro
legoas pela terra dentro. Haverá nesta Capitania mil vizinhos. Tem vinte e
tres engenhos dassucre posto que destes tres ou quatro não são ainda acabados.
Alguns moem com bois, a estes chamão trapiches, fazem menos assucre que os
outros: mas a maior parte dos engenhos do Brasil moem com agoa. Cada engenho
destes hum por outro, faz tres mil arrobas cada anno, nesta Capitania se fazem
mais assucres que nas outras, por que houve anno que passarão de cincoenta mil
arrobas, ainda que o rendimento delles não he certo, são segundo as novidades
e os tempos que se offerecem.
Esta se acha huma das ricas terras do Brasil, tem muitos escravos indios que
he a principal fazenda da terra. Daqui os levão e compram pera todas as outras
Capitanias, por que ha nesta muitos, e mais baratos que em tôda a Costa: ha
muito pao do Brasil e algodão de que enriquecem os moradores desta Capitania.
O porto onde os navios entrão está huma legoa da povoação Olinda; servem-se
pela praia etambem por hum rio pequeno que vai dar junto da mesma povoação. A
esta Capitania vão cada anno mais navios do Reino que a nenhuma das outras. Ha
nella hum mosteiro de Padres da Companhia de Jesus.
RIOS
Há dous Rios caudaes até a Bahia de Todos os Santos; hum se chama de São
Francisco, está em dez graos e meio, o qual entra no mar com tanta furia que
vinte legoas pelo mesmo mar correm suas agoas. Outro Rio está em onze graos e
dous tercos que se chama o Rio Real, tambem he mui grande e correm suas aqoas
pelo mar.
CAPÍTULO TERCEIRO
DA CAPITANIA DA BAHIA DE TODOS OS SANTOS
A Capitania da Bahia de Todos os Santos está cem legoas de Phernambuco em
altura de treze graos. Terra del-Rei nosso Senhor, onde residem os
governadores e bispo e Ouvidor geral de toda a Costa. Esta he a terra mais
povoada de portuguezes que ha no Brasil. Tem tres povoações, a principal he a
Cidade do Salvador.
A outra se chama Villa Velha que está junto da barra. Esta povoação foi a
primeira que houve nesta Capitania: depois Thomé de Sousa, sendo governador,
edificou esta Cidade do Salvador mais adiante meia legoa ao longo da Bahia por
ser lugar mais conveniente e proveitoso pera os moradores da terra.
Quatro legoas pela terra dentro está outra que se chama Paripe. Póde haver
nesta capitania mil e cem vizinhos. Tem dezoito engenhos, alguns se fazem
novamente. Também se tira delles, muito assucre, ainda que os moradores se
lançam mais ao algodão que a canas dassucres por que se dá melhor na terra.
Dentro da Cidade está hum mosteiro de padres da Companhia de Jesus, na qual
têm Collegio onde ensinam latim e casos de consciencia. Afora este ha cinco
egrejas pela terra dentro entre os indios forros, onde residem alguns padres
pera fazerem christãos e casarem os mesmos indios por não estarem amancebados.
Esta Capitania tem huma bahia mui grande e fermosa, ha tres legoas de largo, e
navega-se quinze por ella dentro, tem muitas ilhas de terras mui viçosas que
dão infinito algodão; divide-se em muitas partes esta bahia: e tem muitos
braços e enseadas dentro. Os moradores da terra todos se servem por ella com
barcos pera suas fazendas.
RIOS
Doze legoas desta Bahia de Todos os Santos está hum Rio que se chama Tinharé,
onde se recolhem muitas embarcações que passão pera as outras Capitanias. Tres
legoas por elle dentro está hum engenho dum Bastiam de Ponte, junto do qual
estão muitas terras perdidas por falta de moradores, das quaes se conseguiria
muito proveito se as povoassem.
Mais avante seis legoas está hum Rio que se chama Camamú em treze graos e meio
no qual podem entrar quaesquer naos seguramente quatro, cinco legoas por elle
dentro.
Ao longo deste Rio ha terras mui viçosas e muitas agoas pera se poderem fazer
engenhos dassucre, as quaes tambem se perdem por não haver gente que as vá
povoar. Tém dentro algumas ilhas de terras mui grossas e acomodadas pera se
fazerem nellas muita fazenda.
Nesse mesmo Rio ha muito peixe em estremo, e junto delle muita infinita caça
de porcos e veados. Aqui se póde fazer huma povoação, onde os homens vivão mui
abastados e fação muitas fazendas. Ha outro que se chama o Rio das Contas,
está em quatorze graos e meio, mas não he tam grande, ainda que tambem entram
nelle algumas embarcações. Em todos estes Rios ha muita abundancia de peixes e
de caça.
CAPÍTULO QUARTO
DA CAPITANIA DOS ILHEOS
A Capitania dos llheos está trinta legoas da Bahia de Todos os Santos em
quatorze graos e dous terços; he de Francisco Giraldes na qual tem posto
Capitão de sua mão. Pode haver nella duzentos vizinhos. Tem hum Rio onde os
navios entrão, o qual está junto da povoação, divide-se em muitas partes pela
terra dentro, servem-se os moradores por elle pera suas fazendas em almadias.
Há nesta Capitania oito engenhos dassucre. Dentro da povoação está hum
mosteiro de padres da Companhia de Jesus que agora se faz novamente.
Sete legoas da mesma povoação pela terra dentro está huma lagoa doce que tem
tres legoas de comprido e tres de largo e tem dez, quinze braças de fundo e
dahi pera cima. Sae della hum Rio pequeno pelo qual vão lá ter barcos. Tem
esta lagoa hum local neste Rio, tão estreito, que apenas cabe um barco por
elle, e depois que anda dentro quasi não sabe determinar por onde entrou. Tem
tanta abundancia dagoa que podem andar nella quaesquer naos, por grandes que
sejão, á vela; e assi quando venta muito, alevantão-se alli ondas tão furiosas
como se fosse no meio do mar com tormenta.
Tem muita infinidade de peixes grandes e pequenos. Crião-se nella muitos
Peixes-bois, os quaes têm o focinho como de boi e dous cotos com que nadão á
maneira de braços; não têm nenhuma escama nem outra feição de peixe se não o
rabo. Matão-nos com arpões, são tão gordos e tamanhos que alguns pesão trinta,
quarenta arrobas.
He hum peixe muito sabroso e totalmente parece carne e assi tem o gosto della;
assado parece lombo de porco ou de veado, coze-se com couves, e guiza-se como
carne, nem pessoa alguma o come que o tenha por peixe, salvo se o conhecer
primeiro. As femeas têm duas mamas pelas quaes mamão os filhos, crião-se com
leite (cousa que se não acha noutro peixe algum): tambem ha destes em algumas
bahias e rios desta Costa e posto que se criem no mar costumão beber agoa
doce, por isso acodem muitos a esta lagoa ou a parte onde algum ribeiro se
meta no mar.
Tambem ha muitos tubarões nesta lagoa, e lagartos e muitas cobras. E achão-se
nella outros monstros marinhos de diversas maneiras. Há muitas terras e mui
viçosas arredor della, e muita caça; e neste rio que sae da lagoa muita
fertilidade de peixe. Finalmente que huma das abastadas terras de mantimentos
que ha no Brasil he esta Capitania dos ilheos.
CAPÍTULO QUINTO
DUMA NAÇÃO DE GENTIO QUE SE ACHA NESTA CAPITANIA
Pelas terras desta Capitania até junto do Spirito Santo, se acha huma certa
nação de gentio que veio do sertão há cinco ou seis annos, e dizem que outros
indios contrarios destes, vierão sobre elles a suas terras, e os destruirão
todos e os que fugirão são estes que andão pela Costa.
Chamão-se Aymorés, a lingoa delles he differente dos outros indios, ninguem os
entende, são elles tam altos e tam largos de corpo que quasi parecem gigantes;
são mui alvos, não têm parecer dos outros indios na terra nem têm casas nem
povoações onde morem, vivem entre os matos como brutos animaes; são mui
forçosos em estremo, trazem huns arcos mui compridos e grossos conforme a suas
forças e as frechas da mesma maneira. Estes indios têm feito muito dano aos
moradores depois que vierão a esta Costa e mortos alguns portuguezes e
escravos, porque são inimigos de toda gente.
Não pelejão em campo nem têm animo para isso, põem-se entre o mato junto
dalgum caminho e tanto que passa alguem atirão-lhe ao coração ou a parte onde
o matem e não despedem frecha que não na empreguem. Finalmente, que não têm
rosto direito a ninguem, senão a traição fazem a sua. As mulheres trazem huns
paos tostados com que pelejão.
Estes indios não vivem senão pela frecha, seu mantimento he caça, bichos e
carne humana, fazem fogo debaixo do chão por não serem sentidos nem saberem
onde andão. Muitas terras viçosas estão perdidas junto desta Capitania as
quaes não são possuidas dos portuguezes por causa destes indios. Não se pode
achar remedio pera os destruirem porque não têm morada certa, nem saem nunca
dentre o matto: E assi quando cuidamos que vão fugindo ante quem os persege,
então ficam atraz escondidos e atirão aos que passão descuidados.
Desta maneira matão alguma gente. Todos quantos indios ha no Brasil são seus
inimigos e temem-nos muito, porque he gente atreiçoada. E assi onde os ha
nenhum morador vai a sua fazenda por terra que não leve quinze vinte es cravos
consigo de carcos e fréchas. Estes Aymorés são mui feroz e crueis, não se pode
com palavras encarecer a dureza desta gente. Não andao todos Juntos,
derramão-se por muitas partes, e quando se querem ajuntar assobiam como
passaros ou como bogios de maneira que huns aos outros se entendem e se
conhecem Tambem os portuguezes matão alguns delles, e têm muitos destruidos
principalmente nesta Capitania dos llheos, e guardão-se muito delles, porque
já sabem suas manhas e conhecem mui bem sua malicia.
CAPÍTULO SEXTO
DA CAPITANIA DE PORTO SEGURO
A Capitania de Porto Seguro está trinta legoas dos Ilheos em dezaseis graos e
meio. He do Duque d'Aveiro, na qual tem posto Capitão de sua mão . Tem tres
povoações, a principal he Porto Seguro, que está junto do porto onde os navios
entrão. Outra está dahi huma legoa que se chama Santo Amaro; outra Santa Cruz,
que está dahi quatro legoas pera o Norte.
Pode haver nesta Capitania duzentos e vinte vizinhos. Tem cinco engenhos
dassucre. Ha nella hum mosteiro de padres da Companhia de Jesus. Tambem chegão
a esta Capitania os Aymorés e fazem nella dano aos moradores como nos Ilheos.
He terra mui abastada de caça, e de peixes que matão no rio que está junto da
povoação.
CAPÍTULO SÉTIMO
DA CAPITANIA DO SPIRITO SANTO
A Capitania do Spirito Santo está cincoenta legoas de Porto Seguro em vinte
graos, da qual he Capitão e governador Vasco Fernandes Coutinho. Tem hum
engenho somente, tira-se delle o melhor assucre que ha em todo o Brasil. Pode
ter até cento e oitenta vizinhos. Há dentro da povoação hum mosteiro de padres
da Companhia de Jesus,.
Tem hum rio mui grande onde os navios entrão, no qual se achão mais peixes
bois que noutro nenhum rio desta Costa. No mar junto desta Capitania matão
grande copia de peixes grandes e de toda maneira, e também no mesmo rio ha
muita abundancia delles. Nesta Capitania ha muitas terras e mui largas onde os
moradores vivem mui abastados assi de mantimentos da terra como de fazendas.
E quando se tomou a fortaleza do Rio de Janeiro desta mesma Capitania do
Spirito Santo sustentarão toda a gente e proverão sempre de mantimentos
necessarios enquanto estiverão na terra os que defendião.
RIOS
Avante desta Capitania em altura de vinte e hum graos está o rio de Paraiba,
este he mui grande e fermoso e tem infinito peixe. Junto do Cabofrio em altura
de vinte e dous graos está a Bahia fermosa, na qual se pode fazer huma
Capitania de muitos vizinhos, onde tambem se perdem muitas terras por falta de
gente.
Outros muitos rios ha nestas partes que deixo de escrever por serem pequenos e
não se fazer tanto caso delles, nem minha tenção foi outra se não tratar
destes mais notaveis, onde se podem fazer algumas povoações e conseguir
porveito das terras viçosas que por esta Costa estão desertas.
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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