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O Ateneu (1888) - Raul Pompéia - Parte I
“Vais encontrar o mundo,
disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Bastante
experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das
ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do
amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o
poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de
fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento,
têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso.
Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a
mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido
outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.
Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos
alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a
atualidade é a mesma em todas as datas.
Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam,
alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de
esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco
de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo — a paisagem é
a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.
Eu tinha onze anos.
Freqüentara como externo, durante alguns meses, uma escola familiar do Caminho
Novo, onde algumas senhoras inglesas, sob a direção do pai, distribuíam
educação à infância como melhor lhes parecia. Entrava às nove horas,
timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até às
duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o colégio
comprara, de pinho e usados, lustrosos do contato da malandragem de não sei
quantas gerações de pequenos.
Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação gulosa é o que mais
pronunciadamente me ficou dos meses de externato; com a lembrança de alguns
companheiros — um que gostava de fazer rir à aula, espécie interessante de
mono louro, arrepiado, vivendo a morder, nas costas da mão esquerda, uma
protuberância calosa que tinha; outro adamado, elegante, sempre retirado, que
vinha à escola de branco, engomadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal
do ombro à cinta por botões de madrepérola.
Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa injúria crespa, um palavrão cercado
de terror no estabelecimento, que os partistas denunciavam às mestras por duas
iniciais como em monograma.
Lecionou-me depois um professor em domicílio.
Apesar deste ensaio da vida escolar a que me sujeitou a família, antes da
verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da
nova fase.
O internato! Destacada do conchego placentário da dieta caseira, vinha próximo
o momento de se definir a minha individualidade. Amarguei por antecipação o
adeus às primeiras alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os
meus queridos pelotões de chumbo! espécie de museu militar de todas as fardas,
de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em proporções
de microscópio, que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao
equilíbrio do mundo; que eu fazia guerrear em desordenado aperto, — massa
tempestuosa das antipatias geográficas, encontro definitivo e ebulição dos
seculares ódios de fronteira e de raça, que eu pacificava por fim, com uma
facilidade de Providência Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as
pendências pela concórdia promíscua das caixas de pau.
Força era deixar à ferrugem do abandono o elegante vapor da linha circular do
lago, no jardim, onde talvez não mais tornasse a perturbar com a palpitação
das rodas a sonolência morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados,
pensativos à sombra dos tinhorões, na transparência adamantina da água...
Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da vaidade: distanciava-me
da comunhão da família, como um homem! ia por minha conta empenhar a luta dos
merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram
que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia
veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.
Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de
lágrimas os cabelos e eu parti.
Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação.
Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido
reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o
estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que
liquidam para recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde muito
tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a
simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios.
O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do
Norte, enchia o império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de
propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a
pedidos, à substância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo,
de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido
concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de
volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda a parte
com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de
Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de
alfabeto dos confins da pátria.
Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente,
gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha
daquela marca para o pão do espírito. E engordavam as letras, à força, daquele
pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas
do colégio ou recepção da coroa, o largo peito do grande educador
desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os
honoríficos berloques.
Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as
conde-corações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu!
Ateneu! Aristarco, todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de
um rei — o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar
deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de
empurrão, o progresso do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação
áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas
circunstantes — era a educação da inteligência; o queixo, severamente
escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas —
era a educação moral.
A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples
estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não vêem os cavados de
Golias?!... Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças de
fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios fecho de prata sobre o
silêncio de ouro, que tão belamente impunha como o retraimento fecundo do seu
espírito, — teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do ilustre
diretor.
Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um
enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua.
Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a afluência
dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu
significavam a fina flor da mocidade brasileira.
A irradiação da réclame alongava de tal modo os tentáculos através do país,
que não havia família, de dinheiro, enriquecida pela setentrional borracha ou
pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a
posteridade doméstica mandar dentre seus jovens, um, dois, três representantes
abeberar-se à fonte espiritual do Ateneu.
Fiados nesta seleção apuradora, que é comum o erro sensato de julgar melhores
famílias as mais ricas, sucedia que muitas, indiferentes mesmo e sorrindo do
estardalhaço da fama, lá mandavam os filhos. Assim entrei eu.
A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de encerramento de
trabalhos.
Transformara-se em anfiteatro uma das grandes salas da frente do edifício,
exatamente a que servia de capela; paredes estucadas de suntuosos relevos, e o
teto aprofundado em largo medalhão, de magistral pintura, onde uma aberta de
céu azul despenhava aos cachos deliciosos anjinhos, ostentando atrevimentos
róseos de carne, agitando os minúsculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de
gaza no ar.
Desarmado o oratório, construíram-se bancadas circulares, que encobriam o luxo
das paredes. Os alunos ocupavam a arquibancada. Como a maior concorrência
preferia sempre a exibição dos exercícios ginásticos, solenizada dias depois
do encerramento das aulas, a acomodação deixada aos circunstantes era pouco
espaçosa; e o público, pais e correspondentes em geral, porém mais numeroso do
que se esperava, tinha que transbordar da sala da festa para a imediata.
Desta ante-sala, trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pai ministrava-me
informações. Diante da arquibancada, ostentava-se uma mesa de grosso pano
verde e borlas de ouro. Lá estava o diretor, o ministro do império, a comissão
dos prêmios. Eu via e ouvia. Houve uma alocução comovente de Aristarco; houve
discursos de alunos e mestres; houve cantos, poesias declamadas em diversas
línguas.
O espetáculo comunicava-me certo prazer repeitoso. O diretor, ao lado do
ministro, de acanhado físico, fazia-o incivilmente desaparecer na brutalidade
de um contraste escandaloso. Em grande tenue dos dias graves, sentava-se,
elevado no seu orgulho como em um trono. A bela farda negra dos alunos, de
botões dourados, infundia-me a consideração tímida de um militarismo
brilhante, aparelhado para as campanhas da ciência e do bem.
A letra dos cantos, em coro dos falsetes indisciplinados da puberdade; os
discursos, visados pelo diretor, pançudos de sisudez, na boca irreverente da
primeira idade, como um Cendrillon malfeito da burguesia conservadora,
recitados em monotonia de realejo e gestos rodantes de manivela, ou
exagerados, de voz cava e caretas de tragédia fora de tempo, eu recebia tudo
convictamente, como o texto da bíblia do dever; e as banalidades profundamente
lançadas como as sábias máximas do ensino redentor. Parecia-me estar vendo a
legião dos amigos do estudo, mestres à frente, na investida heróica do
obscurantismo, agarrando pelos cabelos, derribando, calcando aos pés a
Ignorância e o Vício, misérrimos trambolhos, consternados e esperneantes.
Um discurso principalmente impressionou-me. À direita da comissão dos prêmios,
ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tesinho, O Venâncio, professor
do colégio, a quarenta mil-réis por matéria, mas importante, sabendo falar
grosso, o timbre de independência, mestiço de bronze, pequenino e tenaz, que
havia de varar carreira mais tarde.
O discurso foi o confronto chapa dos torneios medievais com o moderno certame
das armas da inteligência; depois, uma preleção pedagógica, tacheada de flores
de retórica a martelo; e a apologia da vida de colégio, seguindo-se a
exaltação do Mestre em geral e a exaltação, em particular, de Aristarco e do
Ateneu.
“O mestre, perorou Venâncio, é o prolongamento do amor paterno, é o
complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos, na senda
escabrosa que vai às conquistas do saber e da moralidade.
Experimentado no labutar cotidiano da sagrada profissão, o seu auxílio
ampara-nos como a Providência na Terra; escolta-nos assíduo como um anjo da
guarda; a sua lição prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro.
Devemos ao pai a existência do corpo; o mestre cria-nos o espírito (sorites de
sensação), e o espírito, é a força que impele, o impulso que triunfa, o
triunfo que nobilita, o enobrecimento que glorifica, e a glória é o ideal da
vida, o louro do guerreiro, o carvalho do artista, a palma do crente!
A família, é o amor no lar, o estado é a segurança civil; o mestre, com amor
forte que ensina e corrige, prepara-nos para a segurança íntima inapreciável
da vontade. Acima de Aristarco — Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus —
Aristarco.”
Um último gesto espaçoso, como um jamegão no vácuo, arrematou o rapto de
eloqüência.
Eu me sentia compenetrado daquilo tudo; não tanto por entender bem, como pela
facilidade da fé cega a que estava disposto. As paredes pintadas da ante-sala
imitavam pórfiro verde; em frente ao pórtico aberto para o jardim, graduava-se
uma ampla escada, caminho do andar superior.
Flanqueando a majestosa porta desta escada, havia dois quadros de alto-relevo;
à direita, uma alegoria das artes e do estudo; à esquerda, as indústrias
humanas, meninos nus como nos frisos de Kaulbach, risonhos, com a ferramenta
simbólica — psicologia pura do trabalho, modelada idealmente na candura do
gesso e da inocência. Eram meus irmãos! Eu estava a esperar que um deles,
convidativo, me estendesse a mão para o bailado feliz que os levava.
Oh! que não seria o colégio, tradução concreta da alegoria, ronda angélica de
corações à porta de um templo, dulia permanente das almas jovens no ritual
austero da virtude!
Por ocasião da festa da ginástica, voltei ao colégio.
O Ateneu estava situado no Rio Comprido, extremo ao chegar aos morros.
As eminências de sombria pedra e a vegetação selvática debruçavam sobre o
edifício um crepúsculo de melancolia, resistente ao próprio sol a pino dos
meios-dias de novembro. Esta melancolia era um plágio ao detestável pavor
monacal de outra casa de educação, o negro Caraça de Minas. Aristarco dava-se
palmas desta tristeza aérea — a atmosfera moral da meditação e do estudo,
definia, escolhida a dedo para maior luxo da casa, como um apêndice mínimo da
arquitetura.
No dia da festa da educação física, como rezava o programa (programa de
arromba, porque o secretário do diretor tinha o talento dos programas) não
percebi a sensação de ermo tão acentuada em sítios montanhosos, que havia de
notar depois.
As galas do momento faziam sorrir a paisagem. O arvoredo do imenso jardim,
entretecido a cores por mil bandeiras, brilhava ao sol vivo com o esplendor de
estranha alegria; os vistosos panos, em meio da ramagem, fingiam flores
colossais, numa caricatura extravagante de primavera; os galhos frutificavam
em lanternas venezianas, pomos de papel enormes, de uma uberdade carnavalesca.
Eu ia carregado, no impulso da multidão. Meu pai prendia-me solidamente o
pulso, que me não extraviasse.
Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar. Adiante de
mim, um sujeito mais próximo fez-me rir; levava de fora a fralda da camisa…
Mas não era fralda; verifiquei que era o lenço. Do chão subia um cheiro forte
de canela pisada; através das árvores, com intervalos, passavam rajadas de
música, como uma tempestade de filarmônicas.
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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