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Cartas Chilenas - Tomás Antônio Gonzaga - Parte I
PRÓLOGO
Amigo leitor, arribou a certo porto do Brasil, onde eu vivia, um galeão, que
vinha das Américas espanholas. Nele se transportava um mancebo, cavalheiro
instruído nas humanas letras. Não me foi dificultoso travar, com ele, uma
estreita amizade e chegou a confiar-me os manuscritos, que trazia. Entre eles
encontrei as Cartas Chilenas, que são um artificioso compêndio das desordens,
que fez no seu governo Fanfarrão Minésio, general de Chile.
Logo que li estas Cartas, assentei comigo que as devia traduzir na nossa
língua, não só porque as julguei merecedoras deste obséquio pela simplicidade
do seu estilo, como, também, pelo benefício, que resulta ao público, de se
verem satirizadas as insolências deste chefe, para emenda dos mais, que seguem
tão vergonhosas pisadas.
Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um
Fanfarrão Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico.
Eu mudei algumas coisas menos interessantes, para as acomodar melhor ao nosso
gosto. Peço-te que me desculpes algumas faltas, pois, se és douto, hás-de
conhecer a suma dificuldade, que há na tradução em verso. Lê, diverte-te e não
queiras fazer juízos temerários sobre a pessoa de Fanfarrão. Há muitos
fanfarrões no mundo, e talvez que tu sejas também um deles, etc.
... Quid rides ? mutato nomine, de te
Fabula narratur...
Horat. Sat lª, versos 69 e 70.
DEDICATÓRIA AOS GRANDES DE PORTUGAL
Ilmos. e exmos. senhores,
Apenas concebi a idéia de traduzir na nossa língua e de dar ao prelo as Cartas
Chilenas, logo assentei comigo que Vv. Exas. haviam-de ser os Mecenas a quem
as dedicasse. São Vv. Exas. aqueles de quem os nossos soberanos costumam fiar
os governos das nossas conquistas: são por isso aqueles a quem se devem
consagrar todos os escritos, que os podem conduzir ao fim de um acertado
governo.
Dois são os meios porque nos instruímos: um, quando vemos ações gloriosas, que
nos despertam o desejo da imitação; outro, quando vemos ações indignas, que
nos excitam o seu aborrecimento. Ambos estes meios são eficazes: esta a razão
porque os teatros, instituídos para a instrução dos cidadãos, umas vezes nos
representam a um herói cheio de virtudes, e outras vezes nos representam a um
monstro, coberto de horrorosos vícios.
Entendo que Vv. Exas. se desejarão instruir por um e outro modo. Para se
instruírem pelo primeiro, têm Vv. Exas. Os louváveis exemplos de seus ilustres
progenitores. Para se instruírem pelo segundo, era necessário que eu fosse
descobrir o Fanfarrão Minésio, em um reino estranho! Feliz reino e felices
grandes que não têm em si um modelo destes!
Peço a Vv. Exas. que recebam e protejam estas cartas. Quando não mereçam a sua
proteção pela eloqüência com que estão escritas, sempre a merecem pela sã
doutrina que respiram e pelo louvável fim com que talvez as escreveu o seu
autor Critilo.
Beija as mãos
De Vv. Exas.
O seu menor criado...
CARTA lª
Em que se descreve a entrada que fez
Fanfarrão em Chile.
Amigo Doroteu, prezado amigo,
Abre os olhos, boceja, estende os braços
E limpa, das pestanas carregadas,
O pegajoso humor, que o sono ajunta.
5 -- Critilo, o teu Critilo é quem te chama;
Ergue a cabeça da engomada fronha
Acorda, se ouvir queres coisas raras.
"Que coisas, ( tu dirás ), que coisas podes
Contar que valham tanto, quanto vale
10 -- Dormir a noite fria em mole cama,
Quando salta a saraiva nos telhados
E quando o sudoeste e outros ventos
Movem dos troncos os frondosos ramos?"
É doce esse descanso, não te nego.
15 -- Também, prezado amigo, também gosto
De estar amadornado, mal ouvindo
Das águas despenhadas brando estrondo,
E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras,
Que então me pintam os ligeiros sonhos.
20 -- Mas, Doroteu, não sintas que te acorde;
Não falta tempo em que do sono gozes:
Então verás leões com pés de pato,
Verás voarem tigres e camelos,
Verás parirem homens e nadarem
25 -- Os roliços penedos sobre as ondas.
Porém que têm que ver estes delírios
Co'os sucessos reais, que vou contar-te?
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;
Critilo, o teu Critilo é quem te chama.
30 -- Levanta o corpo das macias penas;
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na idéia do doente, ou de quem dorme
Agudas febres, desvairados sonhos
35 -- Não és tu, Doroteu, aquele mesmo
Que pedes que te diga se e verdade
O que se conta dos barbados monos
Que à mesa trazem os fumantes pratos?
Não desejas saber se há grandes peixes,
40 -- Que abraçando os navios com as longas,
Robustas barbatanas, os suspendem,
Inda que o vento, que d'alheta sopra,
Lhes inche os soltos, desrinzados panos ?
Não queres que te informe dos costumes.
45 -- Dos incultos gentios? Não perguntas
Se entre eles há nações, que os beiços furam?
E outras que matam, com piedade falsa,
Aos pais, que afrouxam ao poder dos anos?
Pois se queres ouvir notícias velhas
50 -- Dispersas por imensos alfarrábios,
Escuta a história de um moderno chefe.
Que acaba de reger a nossa Chile,
Ilustre imitador a Sancho Pança.
E quem dissera, amigo, que podia
55 -- Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!
Não penses, Doroteu, que vou contar-te
Por verdadeira história uma novela
Da classe das patranhas, que nos contam
Verbosos navegantes, que já deram
60 -- Ao globo deste mundo volta inteira.
Uma velha madrasta me persiga,
Uma mulher zelosa me atormente,
E tenha um bando de gatunos filhos,
Que um chavo não me deixem, se este chefe
65 -- Não fez ainda mais do que eu refiro.
Ora pois, doce amigo, vou pintá-lo
Da sorte que o topei a vez primeira;
Nem esta digressão motiva tédio
Como aquelas que são dos fins alheias,
70 -- Que o gesto, mais o traje nas pessoas
Faz o mesmo que fazem os letreiros
Nas frentes enfeitadas dos livrinhos,
Que dão, do que eles tratam, boa idéia.
Tem pesado semblante, a cor é baça.
75 -- O corpo de estatura um tanto esbelta
Feições compridas e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito e grande, fala pouco
Em rouco, baixo som de mau falsete
80 -- Sem ser velho, já tem cabelo ruço
E cobre este defeito e fria calva
À força de polvilho, que lhe deita.
Ainda me parece que o estou vendo
No gordo rocinante escarranchado
85 -- As longas calças pelo umbigo atadas,
Amarelo colete e sobre tudo
Vestida uma vermelha e justa farda
De cada bolso da fardeta, pendem
Listadas pontas de dois brancos lenços;
90 -- Na cabeça vazia se atravessa
Um chapéu desmarcado, nem sei como
Sustenta o pobre só do laço o peso.
Ah ! tu, Catão severo, tu que estranhas
O rir-se um cônsul moço, que fizeras
95 -- Se em Chile agora entrasses e se visses
Ser o rei dos peraltas quem governa ?
Já lá vai, Doroteu, aquela idade
Em que os próprios mancebos, que subiam
À honra do governo, aos outros davam
100 -- Exemplos de modéstia, até nos trajes.
Deviam, Doroteu, morrer os povos
Apenas os maiores imitaram
Os rostos e os costumes das mulheres
Seguindo as modas e raspando as barbas.
105 -- Os grandes do país, com gesto humilde
Lhe fazem, mal o encontram, seu cortejo;
Ele austero os recebe, só se digna
Afrouxar do toitiço a mola um nada,
Ou pôr nas abas do chapéu os dedos.
110 -- Caminha atrás do chefe um tal Robério
Que entre os criados tem respeito de aio;
Estatura pequena, largo o rosto,
Delgadas pernas e pançudo ventre,
Sobejo de ombros, de pescoço falto;
115 -- Tem de pisorga cores e conserva
As bufantes bochechas sempre inchadas.
Bem que já velho seja, inda presume
De ser aos olhos das madamas grato
E o demo lhe encaixou que tinha pernas
120 -- Capazes de montar no bom ginete
Que rincha no Parnaso. Pobre tonto!
Quem te mete em camisas de onze varas!
Tu só podes cantar, em coxos versos
E ao som da má rebeca, com que atroas
125 -- Os feitos do teu amo e os seus despachos.
Ao lado de Robério, vem Matúsio,
Que respira do chefe o modo e o gesto.
É peralta rapaz de tesas gâmbias,
Tem cabelo castanho e brancas faces,
130 -- Tem um ar de mylord e a todos trata
Como a inúteis bichinhos; só conversa
Com o rico rendeiro, ou quem lhe conta
Das moças do país as frescas praças.
Dos bolsos da casaca dependura
135 -- As pontas perfumadas dos lencinhos,
Que é sinal, ou caráter, que distingue
Aos serventes das casas dos mais homens,
Assim como as famílias se conhecem
Por herdados brasões de antigas armas.
140 -- Montado em nédia mula vem um padre
Que tem de capelão as justas honras.
Formou-se em Salamanca, é homem sábio.
Já do mistério do Pilar um dia.
Um sermão recitou, que foi um pasmo.
145 -- Labregão no feitio e meio idoso.
Tem olhos encovados, barba tesa,
Fechadas sobrancelhas, rosto fusco,
Cangalhas no nariz. Ah! quem dissera
Que num corpo, que tem de nabo a forma,
150 -- Haviam pôr os céus tão grande caco!
O resto da família é todo o mesmo,
Escuso de pintá-lo. Tu bem sabes
Um rifão que nos diz, que dos domingos
Se tiram muito bem os dias santos.
Por: Biblioteca Virtual
do Estudante de Língua Portuguesa
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