|
»
A
Alma
Encantadora dos Rios
- João do Rio
Em 1908, iluminada pelas primeiras luzes da modernidade, o Rio de Janeiro já se revelava, aos olhos mais sensíveis, como uma cidade multifacetada, fascinante, efervescente na democracia da ruas.
O livro aborda questões alijadas da sociedade, como os trabalhadores, as cadeias e ladrões, unindo os fragmentos do Rio de Janeiro da época.
É uma obra única e bem carioca, e não surpreende que tenha se transformado num clássico.
Dividido em cinco partes, A alma encantadora das ruas inclui, na abertura e encerramento, duas conferências proferidas pelo autor em 1905: A rua e A musa das ruas (anteriormente intitulada Modinhas e cantigas). Estão entre os textos mais burilados e profundos de João do Rio, e tornaram-se por assim dizer, exemplares sobre os assuntos que abordam. As outras três partes são compostas basicamente de reportagens, magníficos exemplos desse gênero, que o autor praticamente introduziu no jornalismo nacional. O que se vê nas ruas aborda as pequenas profissões dos biscateiros que perambulavam pelas ruas da cidade na virada do século: tatuadores, vendedores de livros e orações, músicos ambulantes, cocheiros, pintores de tabuletas de lojas comerciais e paisagens de parede de botequim; e também as festas populares da Missa do Galo, Dia de Reis e Carnaval.
Dois desses textos (Visões d'ópio e Os cordões) extrapolam o gênero da reportagem e entram no da crônica. O mesmo podemos dizer de As mariposas do luxo, que abre a terceira parte, intitulada Três aspectos da miséria. Aqui aborda-se principalmente as condições de trabalho dos operários e a mendicância. As reportagens sobre o proletariado (Os trabalhadores da estiva e A fome negra) são pioneiras no assunto, e Antonio Cândido ( vide Radicais de ocasião in Teresina, 1980) ressaltou nelas a abordagem corajosa que nenhum outro autor da virada do século (nem mesmo os auto-proclamados progressistas e revolucionários) se atreveu a repetir. A quarta parte, Onde às vezes acaba a rua compõe-se de seis reportagens entre os presos da Casa de Detenção, que ainda hoje, mais de 90 depois, impressionam pela atualidade.
O narrador nos dá a conhecer os segredos íntimos do espaço público, sua fauna exuberante, carente de identidade e sedenta por exposição. Ele nos descreve o lado elegante, cosmopolita, moderno da cidade, e ao mesmo tempo conhecemos seu submundo, suas misérias. A partir daí, conhecemos uma massa de dejetos que dava contornos nítidos à capital. João do Rio conheceu os dois lados, freqüentou-os, analisou-os e os descreveu com arte. Em sua obra estão as luxuosas ruas do comércio fino, do consumo fútil e das relações frívolas ao lado das vielas fétidas, dos corredores dos cortiços, do comércio baixo da prostituição. Assim, sua obra se tornou a melhor descrição de nossa modernização enviesada, justamente porque consegue aliar os dois momentos que o país vivia - a modernidade e o atraso -, captando seu movimento e sublinhando suas demarches: na obra de João do Rio, a contradição social está em sua forma decantada!
Os títulos mapeiam a cidade como um todo, a partir deles tomamos a cidade inteira nas mãos, neles estão a medição sensível e atenta da cidade: “Pequenas profissões”, “Os tatuadores”, “Os mercados de livros e a leitura das ruas”, “Tabuletas”, “Músicos ambulantes”, “Visões d’ópio”, “As mariposas do luxo”, “Os trabalhadores de estiva”, “Crimes de Amor”, “A galeria superior” etc. Para compreender melhor a variedade, a heterogenia, a multiplicidade de contextos que brotam da realidade da cidade, destacamos pequenos fragmentos:
“Os tatuadores”: “As meretrizes e os criminosos nesse meio de becos e de facadas têm indeléveis idéias de perversidade e de amor. Um corpo desses nu, é um estudo social.”
“Os trabalhadores da estiva”: “Eu via, porém, essas fisionomias resignadas à luz do sol e elas me impressionavam de maneira bem diversa. Homens de excessivo desenvolvimento muscular, eram todos pálidos - de um pálido embaciado como se lhes tivessem pregado à epiderme um papel amarelo e, assim encolhidos, com as mão nos bolsos pareciam um baixo-relevo de desilusão, uma frisa de angústia.”
“Fome negra”: [...] uma gente que servia às descargas de carvão e minério. Seres embrutecidos, apanhados a dedo, incapazes de ter idéias. [...] Uma vez apanhados pelo mecanismo de aço, ferros e carne humana, uma vez utensílio apropriado ao andamento da máquina, tornam-se autômatos com a teimosia de objetos movidos à vapor. Não têm nervos, têm molas; não têm cérebros, têm músculos hipertrofiados. [...] Os seus conhecimentos reduzem-se à marreta, à pá, ao dinheiro que a pá levanta para o bem-estar dos capitalistas poderosos, o dinheiro, que os recurva em esforços desesperados, lavados de suor para que os patrões tenham carros e bem-estar”.
“Urubus”: “- Os agenciadores de coroas levantam-se de madrugada e compram todos os jornais para ver quais os homens importantes falecidos na véspera. Defunto pobre não precisa de luxo, e coroa é luxo.” Esses fragmentos de crônicas, e outros, são na verdade convites para acompanhar o Autor em suas perambulações pelas ruas do Rio de Janeiro, são convites à “flanar” juntamente com ele, através de seu estilo, por sua visão de mundo. Um passeio poético pela “decadência exuberante” da capital da República. Um passeio também pela variação estilística que o Autor dispõe: ora a crônica pura, ora a dramatização de situações, ora o ensaio, ora o panfletarismo, ora a poesia, ora a crítica, ora a condescendência, ora o deslumbre, ora o enfastio, etc.
Convidado a “flanar” com o narrador, o leitor penetra nos
fragmentos da cidade, cuja alma configura um mosaico irredutível e imiscível,
no qual o tipo urbano não é um simples produto de sua variedade mas a essência
que a constitui.
O que intriga ainda hoje ao ler estas páginas, não é perceber a
acuidade de seu Autor, o modo como capta certas particularidades do momento
histórico que o inspirou, mas perceber que tais particularidades são
transformadas em linguagem literária, em estilo de escrita - traço que garante
o prestígio de João do Rio. |