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 Resumo de Cartas de Camões de Luís Vaz de Camões
 
 

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Cartas de Camões - Luís Vaz de Camões - Parte I

Carta de Lisboa, a um seu amigo
Uma vossa me deram, a qual, pelo descostume, me pôs em tamanho espanto como contentamento, em saber novas de quem tanto as desejava; mas nem com esta vos forrareis do esquecimento que de mim tivestes em me não escreverdes antes de vos irdes.
Entre algumas novas que mandastes, vi que me gabáveis a vida rústica, como são: águas claras, árvores altas, sombrias, fontes que correm, aves que cantam e outras saudades de Bernardim Ribeiro, quae vitam faciunt beatam. Não vos nego a inveja que dela vos tenho, nem o pouco conhecimento que dela tendes, pois me dizeis que vos enfada já.
A troco destas novas, vos darei outras desta terra, tão contrárias dessas, como esta vos dirá.
Primeiramente digo que cá vivem os homens na mão do mundo, o que não fazem os de lá; porque, se lá tendes conta com visitar fazenda, enxertar árvores, dispor cravos, ir ver se a lagarta rói a vinha, rir das rústicas palavras dos pastores, ouvir uns não fingidos amores, os de cá hão–de–ter conta com enxertar suas vidas de maneira que floresçam suas obras, porque a lagarta das más línguas não roa a vinha das vidas alheias, e trazer sempre aparadas as palavras para falar com que se preza disso, cousa que eu tenho por grande trabalho, - andar à discrição de amores fingidos, que os pastores lá não têm.E, para verdes, digo que há cá dama tão dama que, pelo ser de muitos, se a um mostra bom rosto, porque lhe quer bem, aos outros não mostra ruim, porque lhe não quer mal.
Em comparação desta, digo que criou Nosso Senhor o camaleão na arte [de tomar a cor] de qualquer lugar onde o põem. Ao redor de cada uma destas vereis estar uma dúzia de parvos, tão confiados que cada um jurara que é mais favorecido que todos. Uns vereis encostados sobre as espadas, os chapéus até os olhos e a parvoíce até os artelhos, cabeça entre os ombros, capa curta, pernas compridas; nunca lhes falta uma conteira dourada, que luz ao longe. Estes, quando vão pelo sol, miram – se à sombra; e, se se’ vêem bem dispostos, dizem que teve muita razão Narciso de se namorar de si mesmo. Estes, no andar, carregam as pernas para fora, torcem os sapatos para dentro, trazem sempre Boscão na manga, falam pouco, e tudo saudades, enfadonhos na conversação pelo que cumpre à gravidade de amor. Nestes fazem alcoviteiras seus ofícios, como são: palavras doces, esperanças longas, recados falsos. Ou vos falam pela greta da porta: como vos não falou, estava mal disposta, sentiu – a sua mãe. Porque esta é a isca com que Celestina apanhava las cien monedas a Calisto, com sua sobrenfusa.Outras damas há cá que, ainda que não sejam tão formosas como Helena, são altivas, como são umas beatas de São Domingos e outras que conversam os Apóstolos. Estas se geraram de viúvas honestas e de casadas que têm os maridos no Cabo Verde; assim que, uma por casar e outras por lhes Deus trazer os maridos, de cuja vinda elas fogem, nunca lhes escapam as quartas-feiras em Santa Bárbara, as sextas em Nossa Senhora do Monte, os sábados em Nossa Senhora da Graça, dias do Espírito Santo.
Umas dizem que jejuam a pão e água, outras que não comem cousa que padeça morte, e destas há algumas de estofo que fazem ir a uma nau à Índia em três dias. Grandes capelos e hábitos de sarje, contas na mão e o olho ladrão; e haja eu perdão, porque debaixo lhe achareis mantéus debruados, gravins lavrados, jubões de holanda, alvos e justos.
Estas não se servem com músicas suaves nem vestidos lustrosos, mas com grossas peitas, cruzados amarelos, que por dinero baila el perro; porque palavras sem mais invanum laboraverunt.
Os cupidos destas não são dos bem vestidos, que namoram com palavras, mas uns de capuzes frisados e de pelotes de petrina ao olivel do umbigo, sem pantufos. Estes medram por sisudos e dissimulados, afora as contas.
Também cozem neste forno frades de São Francisco, que andam com as calças desatacadas e os lombos recheados, e assim os de Santo Elói, que têm de dar, ainda que o Dr. Martin Vaz do Casal diz que são anexos a mulheres fidalgas, pela comunicação e conversação das confissões, e eu digo que jogam de tôdalas armas, porque todos somos del merino.
Quanto é ao que toca a estoutras damas de aluguer, há muito que escrever delas. Alguns dirão que, como quer que nestas não há aí mais que pagar e andar, não pode haver engano. Nesse jogo digo que é ao contrário, porque vereis estar um rosto que é castidade de Lucrécia luxuriosa, uma testa de alabastro, uns olhos de mordifuge, um nariz de manteiga crua, uma boca de pucarinho de Estremoz; mas, o pueri, latet... E se vos disserem que estas pelam os que as têm, assentai que é fábula, porque eu vi muitos não ter nada de seu, e agora os vejo com mulas e cavalos.
De algumas conseguintes vossas amigas vos darei novas.
Maria Caldeira matou–a o marido. Grande perda para o povo, porque reparava muitas órfãs e adubava os pagodes de Lisboa, afora outras obras de grandes respeitos. E, por que esta senhora não vivesse muito tempo no outro mundo só, se partiu para lá Beatriz da Mota, vossa amiga.Deste dilúvio houveram algumas destas damas medo e edificaram uma torre de Babilônia , onde se acolheram; e vos certifico que são já as línguas tantas, que cedo cairá, porque ali vereis mouros, judeus, castelhanos, leoneses, frades, clérigos, casados, solteiros, moços e velhos.
A esta torre chamaram A colheita, pela fortaleza dela. Mas o filósofo João de Melo que pôs nome o Rompeu, porque é de três paus, a saber: de Francisca Gomes, a Tarifa, e Antônia Brás, afora a bola, que é Maria da Rosa. Eu o crismei há poucos dias e lhe pus o nome de Mal–Cozinhado , porque sempre achareis nele que comer, quer bem, quer mal.E tudo o destas senhoras é brando, rostos novos e canos velhos. São boas para ninfas de água, porque não deitam mais que a cabeça de fora.
A razão por que se comem estas mais que as outras em Lisboa, é que, afora seus rostinhos, servem de foliões, que cantam e bailam tão bem que não hão inveja ao que El–Rei mandou chamar.E o pagode que se faz sem estas é da seita dos Epicuros, que punham a bem – aventurança em comer e beber; mas eu digo que o faziam, porque estas não foram em esse tempo.Nestas casas acharão continuamente muitos Cupidos valentes, dos quais suas alcunhas são Matadores, Matistas, Matarins, Matantes e outros nomes derivados destes, porque sempre os achareis com cascos e rodelas - cum gladiis et fustibus - Como se Nosso Senhor houvesse de padecer outra vez.
Confesso–vos que estes me fazem fazer o mesmo. Estes, na prática, dir–vos–ão queSus arreos son las armas,

Su descanso es pelear.

Mas sei–vos dizer que, seNa paz mostram coração,

Na guerra mostram as costas,

Porque aqui torce a porca o rabo.
Como vos parece, Senhor, que se pode viver entre estes, que não seja melhor essa vida que vos enfada, essa quietação branda, com um dormir à sombra de uma árvore e ao tom de um ribeiro, ouvindo a harmonia dos passarinhos, em braços com os Sonetos de Petrarca, Arcá–dia de Sannazzaro, Éclogas de Vergílio, onde vedes aquilo que verdes?

Se a vós, Senhor, essa vida vós não contenta, vinde trocar pela minha, que eu vos tornarei o que for bem.

E não vos esqueçais de escrever mais, porque ainda me fica que responder. Cujas mãos beijo.Outra carta de Lisboa

A um seu amigo, em que lhe dá novas da cidade

Quanto mais tarde vos escrevo, tanto mais me ficais devendo; e se uma vossa vale três das minhas, é necessário que faça quatro. E quanto às novas que me na vossa pedis, aguardei, pondo à parte a muita necessidade que de vós me faz ter, que já não quero que as façais por mais amizade. Sabereis que eu ando não de paz, mas de guerra, Iaus Deo; e porque o ladrar sem morder, nesta terra, é como bucha de papel, que dá grande estouro e não leva pelouro; grandes mãos de ferro, capuzes de lâminas, maças de Hércules e golpes de Amadis, tudo contra o pobre de Camões.

Simão Rodrigues paga soldos aos maiores matadores desta terra, os quais já de in illo tempore lhe tinham cozinhado a morte. Este soldo se paga no Tesouro, s. em talhadas de marmelada e púcaros, de água fria, com uns debruns da vista da senhora sua irmã. Que, ainda que esta mercadoria seja defesa pelo senhor da fortaleza, nestas viagens da China, mais se ganha no furtado que no ordenado.

Vosso comborço Dinis Boto foi espancado nesse Rocio uma boca da noite, e não se sabe donde veio este desastre mais que quanto os homens alcançam por sua lança; mas não é para espantar se isto de longe se guarda por quem por amores de Lia dá isto; e mais se há-de passar. E por que este senhor não cuidasse que era solus peregrinus in Jerusalem, lhe fez companhia daí a uns dias Gaspar Borges Corte-Real, à porta de Pêro Vaz. Dizem que com um pau o sacudiram como oliveira. Cuidou ele que as pedras não falavam, e disse que dera de comer a seus companheiros com as orelhas que tirara; mas São Lucas afirma que só São Pedro tirou uma a Malco na prisão de Cristo.

 

Continua Parte II

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