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Resumo de Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade

 

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Dicionário de Bolso Parte I - Oswald de Andrade
 
Texto inédito de Oswald de Andrade, escrito ao longo das décadas de 30 e 40, sob a forma de um curioso dicionário, sem ordem muito rígida, exceção talvez de uma vaga cronologia. E´ comparável a uma passagem célebre do Serafim Ponte Grande, que tem o mesmo título e que determinou, aliás, a escolha deste, uma vez que o próprio autor deixou esta lacuna.
Os personagens, os nomes, as citações enfileiradas não se restringem à vida contemporânea nacional. Eles passam, sem cerimônia da Bíblia à Revolução russa, dos filósofos gregos às stars de Hollywood. Impertinentes, corrosivos, sedutores e exasperantes, tudo junto e ao mesmo tempo, os verbetes do Dicionário de Bolso provêm da veia mais autêntica e provocadora de Oswald. O Dicionário tem um efeito tônico, no mais alto grau, atinge diretamente o público contemporâneo. Não se trata de uma revisão, feita pelo próprio Oswald, das suas posições extremas, uma reconciliação qualquer com os seus antigos ódios, mas a expressão mesma do lado "dragão" do Autor do Manifesto Antropófago.
Por isso, o trabalho de montagem desses inéditos não visou unicamente ao estudioso ou ao especialista. Procurou-se através de uma breve apresentação tornar transparente os mecanismos de criação do texto, a relação com sua época e com o restante da obra de Oswald.
"Atacar com saúde os crepúsculos de uma classe dominante não é de modo algum ser pouco sério. O sarcasmo, a cólera e até o distúrbio são necessidades de ação dignas operações de limpeza, principalmente nas eras de caos, quando a vasa sobe, a subliteratura trona e os poderes infernais se apossam do mundo em clamor" Oswald de Andrade
Tentaremos descrever os mecanismos de criação do Dicionário de bolso de Oswald de Andrade e traçar as redes de ligação com sua época e o restante da obra do escritor. Para contar a história interna de realização dessa obra intrigante e curiosa, denominamos o conjunto de cinco textos que constitui o corpus do Dicionário de A, B, C, D, E e F. Estes originais inéditos, alguns independentes e fora de ordem, estavam fragmentados no meio da papelada desarrumada do autor. Atualmente, encontram-se no Arquivo do escritor depositado no Centro de Documentação do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.
Do primeiro - o A - manuscrito com nove folhas soltas de um bloco sem pauta, redigido em tinta vermelha, encontramos apenas as folhas 98,99,100,101,109,113,114,119 e uma folha sem número. Este manuscrito tratou das seguintes personalidades (doze ao todo): Blanqui, Comte, Bebel, Ford, Clóvis Bevilacqua, Gandi, Macdonald, João Alberto, e provavelmente pela definição, porque não há indicação dos nomes, também Engels, João Candido, Carmona e Macedo Soares; sendo que oito deles estão incompletos: Engels, Comte, Ford, Macdonald, Bebel, João Candido, Carmona e Macedo Soares. Talvez este manuscrito tenha sido datilografado na década de 40, resultando no texto denominado nesta introdução de B (até essa época Oswald não batia à máquina seus textos, começou a adotar essa prática quando contratou Maria Antonieta d´Alkimin para copiar o segundo volume do Marco Zero). Esta hipótese se fundamenta no fato de que cinco verbetes existentes no manuscrito A estão contidos no texto B e são absolutamente iguais: a definição integral de Blanqui, os trechos relativos a Engels, Bebel, Comte e João Cândido.
O segundo - o B - texto datilografado, composto de 10 folhas, numeradas de 22 a 31. Trouxe o título, Notas e Informação, a lápis, no início. Duas páginas estão danificadas (rasgadas) na parte superior da folha: a p. 24, prejudicando a leitura das observações sobre Cristo e a p. 25, atingindo a parte inicial relativa a Thomas More. Como dissemos acima apenas cinco verbetes do manuscrito A reapareceram no B (Blanqui, Bebel, Comte, Engels, João Cândido).
Pelo seu caráter de esboço preliminar, sem preocupação lúdica e inventiva de criar, podemos pensar que esse texto foi o ponto de partida para os demais, sobretudo se examinarmos as transformações sofridas pelos verbetes nos demais textos. A leitura dessas primeiras Notas orientou a identificação de dados circunstanciais de época relativos a uma ou outra personalidade menos conhecida e informou o mecanismo usado pelo escritor para construir este Dicionário.
Através desse texto com pequenas correções do Autor a lápis, Oswald desenhou um perfil crítico mais detalhado de vinte e sete nomes: Buda, Confúcio, Aníbal, Eutrópio, Herodes, Cristo, Santo Agostinho, Wiclif, Thomas More, Maquiavel, João Ramalho, Calabar, Cromwel, D'Holbach, Babeuf, Owen, Engels, Blanqui, Comte, Stirner, José do Patrocínio, Floriano, João Cândido, Bebel, Stalin, Trotski, Mussolini. As correções, os acréscimos e as supressões efetuadas nesse texto foram poucas e insignificantes. Merece destaque apenas uma alusão a Menotti del Picchia, intercalada no meio da definição de Cristo. O seu contexto revelou violenta crítica a todas as tendências da esquerda dissidente do PC - "os confusionistas de qualquer espécie", entre os quais Oswald incluiu o "lacaio Menotti del Picchia".
O trabalho com os verbetes, nesses dois primeiros documentos foi uma primeira tomada de contato com o assunto; organização de dados de pesquisa em torno das personalidades escolhidas, filtrando suas peculiaridades com o objetivo de proceder à redação final elaborada gradativamente nos textos subseqüentes. Nessa pesquisa, tudo leva a crer que Oswald tinha uma idéia previamente formada e procurava elementos para ilustrá-la. Os verbetes Buda e Confúcio confirmaram isso. Antes da concisão lapidar do texto F - "usina de ópio", todas as observações tentaram justificar a alienação do sincretismo supersticioso provocado pelo "relaxamento da unidade religiosa" e incentivado pelo "imperialismo". Buda foi então o "principal entorpecente religioso das massas asiáticas. Secular amigo de Lao Tsé e Confúcio no avacalhamento histórico dos amarelos" [...]. Para chegar a definição de Confúcio do texto F ("mãe dos confusionistas chineses. Um padre safado a serviço de castas, cerimoniais e imperialismos") , Oswald no manuscrito B recorreu à reprodução de uma história chinesa, narrando a tentativa de Confúcio de pacificar o bandido Tché, praticante do canibalismo. História essa retirada do Manual católico da história das religiões de Leon Wieger e transcrita no n.1, 17 de março 1929, 2ª dentição, da Revista de Antropofagia, sob o título "Confúcio e o antropófago".
Em Eutrópio, Oswald aproveitou para alfinetar a historiografia brasileira, aquela que ensinava a "história de Roma pelas anedotas dos imperadores". Dentro desse espírito crítico não perdeu a oportunidade de apontar os estragos do positivismo na mentalidade do Brasil (verbete Comte) e de criticar a atuação do anarquismo, ao falar de Stirner. A definição de Trotski representou na realidade uma síntese do momento político-nacional na época, da postura política do autor e uma impiedosa condenação do trotiskismo considerado "a gaiola amarela para onde tem que saltar expulsos ou não admitidos no Partido Comunista - os revoltados tímidos, os intelectuais moles, os burgueses só ideologicamente desiludidos". A sensibilidade embrutecida do político militante e do homem ressentido renegou práticas políticas anteriormente adotadas e também velhas preferências estéticas: "mas os trotskistas brasileiros querem mostrar que se interessam pela soltura preventiva de um pederasta, [o poeta Aragon] em vez de protestar contra a prisão de inúmeros militantes comunistas, detidos de fato pela polícia burguesa brasileira".
Em outras passagens, evidenciou-se a função do manuscrito A e B no trabalho de criação desse Dicionário. Oswald precisou obviamente dessa etapa anterior de aprendizagem. Reuniu detalhes importantes a cada uma das personalidades escolhidas antes de encontrar o resultado aparentemente enigmático e conciso de Babeuf - "guilhotina"; de Robert Owen - "contra-mestre da revolução social". E´ possível ainda avaliar o processo surpreendente da passagem de uma constatação banal sobre a história factual (nesse texto B) para um achado inteligente, incorporando ludicamente a literatura e a história como ocorreu na definição de Cromwel.
O escritor manifestou exaustivamente seu ódio contra a burguesia ou contra a classe dominante. Caso típico das definições de Maquiavel - "Sabido sim, mas safado. Foi o fundador da política científica para uso dos opressores"; de Mussolini, acompanhada de uma longa digressão sobre as artimanhas da burguesia para se manter no poder: "A burguesia, quando se vê perdida eleva ao estado de dependência social o estado de sítio, adota como normais as piores medidas de exceção, apela para a ditadura e declara que uma nova fórmula de "união nacional" elimina e supera a luta de classes". A forma peculiar de elaboração de outros verbetes nesse manuscrito, serviu também para esclarecer ao leitor as peripécias de alguns heróis do passado escondidas nas condensadas realizações do texto definitivo. Além dos já citados Babeuf e Robert Owen, na definição de João Candido a referência aos incidentes políticos, em conseqüência da revolta dos marinheiros em 1910, no Rio de Janeiro, justificou o achado do texto final - "Nuvem negra no horizonte social do Brasil".
Do terceiro, ou melhor do manuscrito C, redigido a lápis, sobraram 31 folhas soltas, não numeradas de um bloco pequeno (0.16 x 0.17,5) sem pauta. Em alguns trechos a bem desenhada caligrafia oswaldiana excepcionalmente apresentou dificuldades de leitura, além do que, a correção realizada riscando palavras e sobrepondo outras aumentou a ilegibilidade. Oswald começou a numerar os verbetes (quarenta e cinco ao todo) mas não prosseguiu. Sintomaticamente Caim figurou como primeiro verbete nesse manuscrito e no último. Pedro Eremita ganhou o número 80. Dessa versão numerada restaram apenas as seqüências 01 a 03 (Caim, Noé, Moisés), de 09 a 11 (Platão, Aristóteles, Tibério Graco), de 78 a 80 (Carmona, Judas e Pedro Eremita). Não conteve nenhum verbete proveniente do manuscrito A, mas incorporou três verbetes do texto B, embora com redação totalmente diferente: Robert Owen, Santo Agostinho e Thomas More.
 

Continua Parte II

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