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Resumo de Dicionário de Bolso de Oswald de Andrade

 

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Dicionário de Bolso Parte II - Oswald de Andrade
 
O quarto texto - o D - também autógrafo, redigido a tinta vermelha, em bloco sem pauta (0.16 x 0.22,5) é uma versão mais aprimorada e mais completa. Lamentavelmente incompleto, foram conservadas as folhas numeradas de 5 a 7, 9 a 13, 17 a 28, 30 a 31, 38 a 54, 59 a 64, 66, 69, 72 a 75, perfazendo um total de 64 folhas soltas e 132 verbetes. A numeração atingindo até a folha 75 deu uma idéia do tamanho do manuscrito se não apresentasse as falhas apontadas. Conteve nove nomes presentes no manuscrito A; do texto B vieram dezenove verbetes; do manuscrito C incorporou vinte e cinco nomes. (Para uma melhor visualização da história dos verbetes elaboramos, em anexo, um quadro completo da presença de cada um nos diferentes textos).
Comparando com os anteriores (A B C), a linguagem do manuscrito D é mais enxuta e trabalhada. Haja visto a configuração dos verbetes sintéticos e elaborados, revelando uma transformação radical, como em Comte, Floriano, José do Patrocínio, João Candido, Mussolini, Francis Bacon.
Dois outros textos datilografados compõem o restante do corpus do Dicionário. De um deles, do E, recuperamos apenas 14 páginas, não numeradas, (algumas folhas sem nenhuma seqüência) com correções a lápis, composto de 92 nomes. Reproduziu seis nomes do manuscrito A; dezesseis do texto B; dezoito do manuscrito C; cinqüenta e dois do manuscrito D.
O comentário de Mauricio de Lacerda foi riscado, algumas observações acrescentadas à mão desapareceram na segunda releitura. Por exemplo, no final do verbete Mário de Andrade, Oswald concluiu a definição com a frase escrita à mão "De resto serve", mais tarde suprimida por um risco vermelho. O comentário "Muito parecido pelas costas com Oscar Wilde" , que integrava o verbete, também foi eliminado a partir dessa redação por um risco a lápis. Paralelo a isso, a expressão "Macunaíma traduzido" presente desde o texto C, foi substituída à mão por "Macunaíma de Conservatório". Nos verbetes Trotskiy e A Camarada Rosa de Luxemburg o autor riscou a lápis a última frase: "Pai e mãe dos onanistas sociais" e "Hoje, por toda a Alemanha, começa a brotar a flor comunista", respectivamente. Na definição de João Cândido, acrescentou a lápis a expressão "social"; da mesma forma procedeu com a palavra universal, em relação a Shakespeare. Em Joseph De Maistre, cuja citação escolhida apareceu no n. 14 da Revista de Antropofagia, em 1929, teve uma leve alteração logo no início: De "Pilar moralista da burguesia católica" [...] passou a "Moralista da burguesia católica" [...].
No verbete Macedo Soares, com nova configuração a partir desse texto, a definição foi inteiramente eliminada, mas sofreu um reparo, a lápis, no momento da revisão "o nosso lamas" e "PEACE CHANCELOR" (reparo eliminado na revisão deste mesmo texto); o comentário sobre George Washington igualmente não foi considerado definitivo. Logo após a definição "Senhor de escravos da Virgínia", o escritor acrescentou a lápis: "e pai da liberdade americana". São Vicente Rao teve suprimido parte do título (São) e ganhou uma frase a mais: "Segurança da lei".
Finalmente o texto F - cento e oitenta e um verbetes - datilografado, numerado de 1 a 21. Apresentou em geral correções do autor, a lápis (preto e lilás), a tinta (preta e verde). Levando em conta os manuscritos anteriores, permaneceram nesse texto: nove verbetes do manuscrito A; dezenove do B; trinta e três do C; cento e sete do D; e oitenta e quatro do E. Do ponto de vista da redação, os verbetes dos manuscritos A e B reproduzidos foram completamente alterados. Do manuscrito C, nove verbetes tiveram redações absolutamente iguais ao texto em questão: (Olegário Maciel, Moises, Bandeirante, Virgílio, Holofernes, Montaigne, São Cirilo, Pedro Eremita, Judas) outros foram radicalmente modificados como: Cardeal Sebastião Leme, Thomas More, Salomão, Santo Agostinho, São José Crisóstomo, Santo Ambrosio, Catilina, O historiador José, Caim, Moisés, Robert Owen, George Washington, Tibério Graco. Antes de ter sofrido as correções feitas à mão pelo autor, o texto F tinha as mesmas características estilísticas do manuscrito D e do texto E, com exceção dos nomes abaixo citados: Santo Agostinho, O Egiptólogo Ehrmann, Plínio Barreto, O camarada Lozovski, Lindolfo Collor, José Carlos Macedo Soares, Rogerio Bacon, Wiclif, Pontes de Miranda, George Washington, Mário de Andrade, Vicente Rao, Mauricio de Lacerda. Há uma boa relação de nomes ausentes no texto F, que poderiam ser pinçados nos manuscritos anteriores. Do manuscrito A apenas um: João Alberto; do manuscrito B dois: Buda e Confúcio; do C, nove verbetes, Autor dos Atos dos Apóstolos, Kolontai, Jonas, Josué, Platão, Aristóteles, Ezequiel e Licurgo; do manuscrito D foram levantados treze nomes: Licurgo, Confúcio, Buda, Heródoto, Platão, Diógenes, Cheron de Pelene, Aristóteles, Camões, Getúlio Vargas, Gal. Isidoro, Távora, João Alberto. (ver quadro em anexo).
Alguns verbetes sofreram alterações maiores. Quatro foram riscados: Camarada Lozovski, Plínio Barreto, Lindolfo Color e Paulo Prado. No verbete de Artur Bernardes, Oswald preferiu suprimir a crítica mais contundente: "Assassino do povo e falcatrueiro. Por isso mesmo candidato ao penico ditatorial do Sr. Getúlio Vargas". Como fez no manuscrito anterior, retirou a última frase da definição da Camarada Rosa de Luxembourg e da de Trotski. O acabamento dado para George Washington não contentou o escritor. Em mais uma tentativa de modificação riscou a palavra Virginia do sintagma "Senhor de escravos da Virgínia" e também a lápis fez o seguinte acréscimo: "que proclamou a liberdade dos senhores de escravos".
O verbete Dom Sebastião Leme foi radicalmente modificado. O título sofreu acréscimo e supressão: Cardeal Dom Sebastião. A definição "Paninho de N.S. Jesus Cristo" virou "Leme sem navio". Em João Cândido, como no manuscrito E, acrescentou a palavra "social" - "nuvem negra no horizonte social do Brasil". O verbete Santo Agostinho foi corrigido logo na primeira frase de "Talvez o maior doutor da Igreja" para "Grande doutor da Igreja"; O nome de Francis Bacon, que vinha sendo trocado por Rogério Bacon em todos os manuscritos em que figurou, foi consertado. Oswald a lápis riscou a palavra Rogério e escreveu acima Francis seguido de um ponto de interrogação.
Em algumas definições, interferências de ordem interpretativa quebraram a impersonalidade de determinadas frases como foi o caso do verbete Wiclif. Introduzindo a citação, a expressão "escreveu isto" foi mudada para "escreveu este erro simpático". Antes da última frase - "Leitor pequeno-burguês, não será você?" - Oswald com um lápis lilás observou "Nota". Shelley perdeu o qualificativo de "grande" poeta.
Modificações menos significativas foram anotadas no confronto entre os diferentes manuscritos. Algumas delas estão na linha da tentativa de eliminar as estocadas de ordem pessoal, como a referência "Um prefeito idiota - o Dr. Pires do Rio", presente no verbete Conde Matarazzo simplesmente resumida para "Um prefeito". Na definição de Antonio Conselheiro foi retirado o ataque direto ao Conselheiro Antonio Prado. Preferiu o escritor centrar sua ironia no Partido Democrático, ganhando o verbete mais concisão e graça. Outras pretenderam sanar equívocos de datilografia, como aconteceu com o verbete João Cândido, uma vez que a expressão social, acrescentada à mão, aparecia desde o manuscrito D. Na releitura Oswald esteve preocupado em limpar o texto, isto é, torná-lo sintético e rápido. Condensou a definição de Ford e modificou o último trecho de "Por essas e outras, é que estamos "fodidos"" para "Nós, por exemplo, estamos "fodidos"". Já Miguel Costa ganhou uma frase irônica "Dizem que está criando juízo". Da mesma forma José Carlos de Macedo Soares recebeu mais uma definição simpática "Copa de Ouro". Em Pontes de Miranda os acréscimos deram um tom de trocadilho aos qualificativos "tenentes da direita pretendem alcançar a margem esquerda da revolução". Outras modificações menos significativas foram anotadas no confronto entre os diferentes manuscritos.
Comparando todos os manuscritos, podemos fazer um amplo elenco de nomes ausentes no texto F: Jonas, Josué, Licurgo, Confúcio, Buda, Heródoto, Platão, Diógenes, Cheron de Pelene, Aristóteles, Camões, Getúlio Vargas, Gal. Isidoro, Távora, João Alberto, Autor dos Atos dos Apóstolos, Ezequiel, Kolontai. Portanto dezenove nomes, pinçados nos documentos anteriores (A, B, C, D).
No texto B, verbete Trotski, houve uma única referência explícita ao momento em que Oswald escrevia este Dicionário: "fevereiro - março de 32" (certamente época da redação dos quatros primeiros textos). Todavia, a ordem cronológica da elaboração dos textos E e F (provavelmente datados da década de 40) pareceu bastante relativa se pensarmos nas peculiaridades do processo artesanal do escritor que refazia e corrigia os seus trabalhos inúmeras vezes. Pela mudança de lápis e de tinta podemos prever as várias leituras e conseqüentes reparos. Como o escritor levava bastante tempo para dar por concluído seus escritos, as modificações introduzidas nesses dois textos certamente refletiram novas posturas estéticas, o amadurecimento pessoal do Autor ; a mudança de opinião a respeito de pessoas, inspirada por novas atitudes e posições defendidas na época pelo escritor ou pela figura apreciada, e ainda por desentendimentos pessoais. O caso de Vicente Rao é expressivo. Velho amigo e advogado de Oswald, desde os tempos da "garçonnière" da Líbero Badaró (19l8), Rao na década de 30 tornou-se Ministro da Justiça do Estado Novo. A frase - "segurança da lei" acrescentada e a retirada do São do título do verbete foi historicamente datada e acompanhou alterações na trajetória político-intelectual do escritor e do antigo colega de Faculdade. Essas correções estão presentes apenas no texto E, sendo assim, este fragmentado manuscrito não deve ser considerado rigidamente anterior ao F. As revisões, os acréscimos confirmam a simultaneidade de realização do E em relação ao F, ou ainda que Oswald fez muitos consertos no texto E, depois de ter concluído o F.
As inúmeras correções permitem ao leitor visualizar a busca consciente e esforçada de um estilo adequado ou de um achado interessante, quer com brincadeiras do tipo mais apreciado pelo escritor - jogos de palavras, trocadilhos - quer pela exploração ou subversão da idéia, da frase alheia, etc. como exemplificam alguns dos verbetes citados: São Tomé - "Visionário que enxergava com os dedos"; Loiola - "Má companhia de Jesus"; Pombal - "Terremoto de Lisboa na Companhia de Jesus"; Mauá - "Maquinista nacional que apitava em inglês", etc.
Um outro aspecto marcante na reescritura oswaldiana diz respeito às reelaborações. A partir da obra construída o autor descobria novos caminhos, apenas riscando palavras, mudando-as de posição ou trocando-as por outras. Encontramos um bom exemplo ao observar as modificações no verbete Dom Sebastião Leme nas cópias E e F, onde o sobrenome do religioso passou a ser peça chave de sua própria definição : "Paninho de N.S. Jesus Cristo". Refeito temos: Cardeal Dom Sebastião: "Leme sem navio".

 

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