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Dom Casmurro Parte II - Machado de Assis
As personagens secundárias são descritas pelo narrador :
Dona Glória, mãe de Bentinho, que desejava fazer do filho um padre, devido a
uma antiga promessa, mas, ao mesmo tempo, desejava tê-lo perto de si,
retardando a sua decisão de mandá-lo para o Seminário. Portanto, no início
encontra-se como opositora, tornando-se depois, adjuvante. As suas qualidades
físicas e espirituais...
Tio Cosme, irmão de Dona Glória, advogado, viúvo, "tinha escritório
na antiga Rua das Violas, perto do júri... trabalhava no crime";
"Era gordo e pesado, tinha a respiração curta e os olhos
dorminhocos". Ocupa uma posição neutra : não se opunha ao plano de
Bentinho, mas também não intervinha como adjuvante. José Dias, agregado,
"amava os superlativos", "ria largo, se era preciso, de um
grande riso sem vontade, mas comunicativo ... nos lances graves,
gravíssimo", "como o tempo adquiriu curta autoridade na família,
certa audiência, ao menos; não abusava, e sabia opinar obedecendo",
"as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole".
Tenta, no início, persuadir Dona Glória à mandar Bentinho para o
Seminário, passando-se, depois, para adjuvante. Prima Justina, prima de Dona
Glória. Parece opor-se por ser muito egoísta, ciumenta e intrigante. Viúva,
e segundo as palavras do narrador : "vivia conosco por favor de minha
mãe, e também por interesse", "dizia francamente a Pedro o mal que
pensava de Paulo, e a Paulo o que pensava de Pedro".
Pedro de Albuquerque Santiago, falecido, pai de Bentinho. A respeito do pai o
narrador coloca : "Não me lembro nada dele, a não ser vagamente que era
alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me
acompanham para todos os lados..."
Sr. Pádua e Dona Fortunata, pais de Capitu. O primeiro, "era empregado
em repartição dependente do Ministério da Guerra" e a mãe "alta,
forte, cheia, como a filha, a mesma cabeça, os mesmos olhos claros".
Jamais opuseram-se à amizade de Capitu e Bentinho.
Padre Cabral, personagem que encontra a solução para o caso de Bentinho; se
a mãe do menino sustentasse um outro, que quisesse ser padre, no Seminário,
estaria cumprida a promessa. Escobar, amigo de Bentinho, seminarista,
"era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos,
... como tudo". Sancha, companheira de Colégio de Capitu, que mais tarde
casa-se com Escobar.
Ezequiel, filho de Capitu e Bentinho (Será ?). Tem o primeiro nome de Escobar
(idéia de Bentinho, em colocar o mesmo). Vai para a Europa com a mãe, sendo
que mais tarde, já moço, volta ao Brasil para rever o pai. Morre na Ásia.
Através das descrições que se faz das personagens, percebe-se um fato
comum: os olhos, tão bem explorados por Machado de Assis, como nos exemplos
"Olhos de cigana oblíqua e dissimulada", "olhos de
ressaca", "olhos dorminhocos", "olhos redondos, que me
acompanham para todos os lados". Na verdade, esses elementos físicos,
muitas vezes, destacam o estado interior; tem-se um retrato íntimo das
personagens.
Em "olhos redondos" percebe-se uma característica física, mas,
logo após, verifica-se um importante traço psicológico: "...que me
acompanham para todos os lados"; que me observam, me estudam.
Quanto ao narrador, é homodiegético (aquele narrador que conta e participa
da história) e, também, por se tratar do personagem principal,
autodiegético. Já em relação ao narratário (o receptor do texto
narrativo, a criatura ficcional ou não a quem se dirige o emissor-narrador),
vê-se que é extradiegético mencionado, leitor virtual não ficcional. O
personagem-narrador dialoga constantemente com os leitores: "Não me
tenhas por sacrilégio, leitora minha devota, a limpeza da
intenção...", "Por outro lado, leitor amigo, nota que eu
queria...", "Sim, leitora castíssima, como diria o meu
finado...".
Percebe-se claramente a fábula, conjunto de acontecimentos ligados entre si e
narrados no decorrer da obra, e a trama, constituída pelos mesmos
acontecimentos da fábula, mas caracterizada mais por um procedimento
estético, em que o artista revolve com os fatos, não precisando se preocupar
em seguir a ordem cronológica da fábula. Em Dom Casmurro, a narrativa
encontra-se "in ultimas res", com a presença de analepses, quando o
artista volta no tempo, no passado. A fábula é a história em si, a que o
narrador quer nos contar, e a trama é o modo como ele nos narra a fábula; a
ordem dos fatos na trama é diferente da ordem dos fatos na fábula.
A presença da metalinguagem
Segundo Roberto Melo MESQUITA, em Gramática da Língua Portuguesa (Editora
Saraiva, 1ª edição, 1994, p.35.): "A linguagem tem função
metalingüística quando discorre sobre o seu próprio conteúdo. É, na
verdade, a própria linguagem que está em jogo. O emissor utiliza-se dela
para transmitir ao receptor suas reflexões sobre ela mesma. O que ocorre em
função metalingüística, é que o próprio código lingüístico é
discutido e posto em destaque.". Em Dom Casmurro, a narrativa discute o
próprio ato e modo de narrar. Há, portanto, a função metalingüística, em
que a narrativa esclarece a própria narrativa. Logo no início, nota-se a
preocupação do personagem-narrador em explicar o título do livro e os
motivos que o impulsionaram a confeccionar tal livro: "Também não achei
melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim
do livro, vai este mesmo.
O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno
esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros
que apenas terão isso dos seus autores, alguns nem tanto." ou
"Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso,
porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão".
A questão do adultério
Não se sabe ao certo se houve ou não adultério por parte de Capitu e
Escobar, já que o personagem-narrador apresenta, no decorrer da narrativa,
vários indícios, provas e até contraprovas. Os leitores podem até pender
para o lado de um (Bentinho) ou para o de outra (Capitu), entretanto a dúvida
sobre o adultério permanece. Machado de Assis, talvez com a intenção de
entregar ao leitor este difícil julgamento, foi brilhante ao estruturar sua
obra com a apresentação tanto de provas quanto de contraprovas.
Primeiramente, atenta-se para a escolha de uma narrativa em primeira pessoa e,
portanto, do personagem-narrador, o marido atormentado pela dúvida. Tudo o
que se sabe é através de Bentinho, que narra os fatos; além da limitação,
pois o leitor é informado apenas sobre o que o narrador conhece ou presencia,
há também a possibilidade de Bentinho passar a sua visão das coisas, movido
pelo ciúmes e pela imaginação. Desse modo, não se sabe o que é
verdadeiramente concreto, real, dentro do romance, ou o que seja imaginado por
Bentinho; dedução sua na observação dos fatos. Ele mesmo afirma "A
imaginação foi a companheira de toda a minha existência ...".
O ciúme generalizado de Bentinho por Capitu toma espaço na narrativa,
permitindo-se concluir que Dom Casmurro foi precipitado ao deduzir que Capitu
amava Escobar. Desde o início, fica claro o ciúme: "Diante dessa
fagulha, que bem podia ser uma maldade do agregado ou pura provocação,
Bentinho se vê possuído de "um sentimento cruel e desconhecido, o puro
ciúme". Ou ainda quando conversando com Capitu na janela, um jovem passa
e olha para ela, que retribui o olhar. Já casados, o ciúme continua
presente; Bentinho tem ciúme do mar, quando Capitu permanece com o olhar
perdido no mar: "Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia
estar na cabeça de minha mulher, não fora ou acima dela". O ciúme é
tanto que chega a declarar, em determinado ponto da narrativa, que chegou a
tê-lo "de tudo e de todos" e acrescenta "Um vizinho, um par de
valsa, qualquer homem, qualquer moço ou maduro, me enchia de terror ou
desconfiança". Outras passagens já põem em evidência o clima de
traição. É o caso do comentário feito a respeito da teoria do velho tenor
italiano – "a vida é uma ópera" -, quando Bento afirma, que em
sua ópera, ele cantou "um duo terníssimo, depois um trio, depois um
quatuor..." como referência ao seu drama-ópera: o duo, composto de
Bento e Capitu; o trio, Bento, Capitu e Escobar, o quatuor, quarteto formado
por Bento, Capitu, Escobar e Ezequiel. Mesmo assim, cada vez que se apresenta
uma prova, sugerindo o adultério, imediatamente lança-se uma
contraprova.Outra sugestão seria a citação, na narrativa, de um velha
expressão do povo de que "O filho é a cara do pai". Como
contraprova imediata e eficiente, surge a semelhança de Capitu com a mãe de
Sancha, parecidíssimas sem qualquer grau de parentesco entre as duas. O
próprio pai de Sancha afirma: "Na vida há dessas semelhanças assim
esquisitas".
Outras duas ocorrências poderiam ser tomadas como provas de adultério: as
duas vezes em que Escobar visita Capitu em casa, na ausência de Bentinho.
Essas visitas, ao mesmo tempo, não provam nada ou induzem a tudo,
principalmente quando Capitu se vê obrigada a contar ao marido sobre a
primeira visita do amigo e comenta: "Pouco antes de você chegar; eu não
disse para que você não desconfiasse".
Desconfiasse do quê? Certamente Capitu já conhecia o ciúme do marido e não
queria provocá-lo. Na Segunda, então, Bento, ao voltar da estréia de uma
ópera, encontra Escobar no corredor, de saída. Como desculpa, o amigo lhe
apresenta um motivo jurídico importante que para Bento não era nada. Isso
faz com que ele questione o porquê de Capitu não querer acompanhá-lo ao
teatro, alegando estar adoecida e insistindo para que fosse sozinho. Quando
chega em casa e se depara com Escobar, constata também que a esposa já
"estava melhor e até boa". Assim nada é esclarecido sobre o
possível adultério, e o próprio Bentinho afirma: "Não é claro isto,
mas nem tudo é claro na vida ou nos livros". Ele ainda atenta para que o
leitor considere a sua "fraca memória"; confessa não ter boa
memória e por esse motivo diz que "nada se emenda bem nos livros
confusos, mas tudo se pode meter nos livros omissos". Ou seja, uma
narrativa que apresenta falhas, lacunas a serem preenchidas pelo leitor.
Cabe, então, ao leitor esclarecer tal questão do adultério. O leitor,
analisando todas as provas e contraprovas apresentadas, poderá opinar em
favor do adultério ou contra ele, ou ainda permanecer na infinita dúvida.
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