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Literatura de dois gumes -
Antonio Candido - Parte I
A criação literária traz como condição necessária uma carga de liberdade que a
torna independente sob muitos aspectos, de tal maneira que a explicação dos
seus produtos é encontrada sobretudo neles mesmos. Como conjunto de obras de
arte a literatura se caracteriza por essa liberdade extraordinária que
transcende as nossas servidões. Mas na medida em que é um sistema de produtos
que são também instrumentos de comunicação entre os homens, possui tantas
ligações com a vida social, que vale a pena estudar a correspondência e a
interação entre ambas.
Traçar um paralelo puro e simples entre o desenvolvimento da literatura
brasileira e a história social do Brasil seria não apenas enfadonho mas
perigoso, porque poderia parecer um convite para olhar a realidade de maneira
meio mecânica, como se os fatos históricos fossem determinantes dos fatos
literários, ou como se o significado e a razão-de-ser da literatura fossem
devidos à sua correspondência aos fatos históricos.
A literatura do Brasil será encarada mais como fato histórico do que como fato
estético, pois tentarei mostrar de que maneira está ligada a aspectos
fundamentais da organização social, da mentalidade e da cultura brasileira, em
vários momentos da sua formação. Se houvesse tempo, procuraria demonstrar que
isto só pode ser bem compreendido por meio de análise de textos
significativos, pois a ligação entre a literatura e a sociedade é percebida de
maneira viva quando tentamos descobrir como as sugestões e influências no meio
se incorporam à estrutura da obra - de modo tão visceral que deixam de ser
propriamente sociais, para se tornarem a substância do ato criador.
Ficarei, pois, no nível das linhas gerais e das correlações, numa espécie de
sondagem preliminar ou introdução ao estudo do problema. Para isto foram
escolhidos alguns aspectos, com a intenção de registrar a sua ocorrência em
vários momentos da história de nossa sociedade sem obedecer à seqüência
cronológica estrita, mas descendo e subindo entre os séculos XVI e XIX, que
viram o País adquirir fisionomia própria.
A atitude adotada pode ser definida como sentimento dos contrários, isto é:
procura ver em cada tendência a componente oposta, de modo a apreender a
realidade da maneira mais dinâmica, que é sempre dialética. E como é
impossível abranger em poucos minutos matéria tão ampla, me limitarei aos
tópicos seguintes, com demora maior no primeiro, por ser o mais geral e a
chave dos outros: imposição e adaptação cultural; transfiguração da realidade
e senso do concreto; tendência genealógica; o geral e o particular nas formas
de expressão.
01) IMPOSIÇÃO E ADAPTAÇÃO CULTURAL
Para o historiador, o aspecto mais interessante da literatura nos países da
América é a adaptação dos padrões estéticos e intelectuais da Europa às
condições físicas e sociais do Novo Mundo, por intermédio do processo
colonizador, de que é um episódio.
A este respeito comecemos por dizer que em sua formação as nossas literaturas
são essencialmente européias, na medida em que continuam a pesquisa da alma e
da sociedade definida na tradição das metrópoles. Tanto mais quando foram
transpostas à América na era do Humanismo, isto é, quando o homem europeu
intensificava o seu contato com as fontes greco-latinas e manifestava grande
receptividade em relação a outras formas de cultura, das quais ia tendo a
revelação. De maneira que herdamos relativamente pouco do que havia de
popular, mágico-religioso e espontâneo na literatura da Idade Média; e muito,
ao contrário, de uma literatura erudita, cheia de exigências formais, aberta
para uma visão realista e ao mesmo tempo alegórica da vida.
Mas, de outro lado, este tipo de literatura veio atuar em regiões
desconhecidas, habitadas por povos de cor e tradição diferentes (no caso do
Brasil, primitivos), aos quais se juntaram logo outros povos trazidos da
África, aumentando a complexidade do panorama. Em conseqüência, a literatura
foi obrigada a imprimir na expressão herdada certas inflexões que a tornaram
capaz de exprimir também a nova realidade natural e humana. Deste modo, deu-se
no seio da cultura européia uma espécie de experimentação, cujo resultado
foram as literaturas nacionais da América Latina no que têm de prolongamento e
novidade, cópia e invenção, automatismo e espontaneidade. E elas foram se
tornando variantes de tal modo diferenciadas das literaturas matrizes que, já
nos últimos cem anos, chegaram nalguns casos a influir nelas.
Quanto ao Brasil estas observações são necessárias, apesar de óbvias, porque a
nossa crítica naturalista, prolongando sugestões românticas, transmitiu por
vezes a idéia enganadora de que a literatura foi aqui produto do encontro de
três tradições culturais: a do português, a do índio e a do africano. Ora, as
influências dos dois últimos grupos só se exerceram (e aí intensamente) no
plano folclórico; na literatura escrita atuaram de maneira remota, na medida
em que influíram na transformação da sensibilidade portuguesa, favorecendo um
modo de ser que, por sua vez, foi influir na criação literária. Portanto, o
que houve não foi fusão prévia para formar uma literatura, mas modificação do
universo de uma literatura já existente, importada com a conquista e submetida
ao processo geral de colonização e ajustamento ao Novo Mundo.
Levando a questão às últimas conseqüências, vê-se que no Brasil a literatura
foi de tal modo expressão da cultura do colonizador, e depois do colono
europeizado, herdeiro dos seus valores e candidato à sua posição de domínio,
que serviu às vezes violentamente para impor tais valores, contra as
solicitações a princípio poderosas das culturas primitivas que os cercavam de
todos os lados. Uma literatura, pois, que do ângulo político pode ser encarada
como peça eficiente do processo colonizador.
Comecemos lembrando, em nível popular, as restrições opostas pela
administração colonial a uma expansão possível das culturas dominadas. Em São
Paulo, por exemplo, onde era forte e atuante a presença do índio, havia uma
competição cultural que foi resolvida, de um lado, pela fusão racial e
espiritual; mas, de outro, por uma dura repressão por parte das autoridades.
Assim, a Câmara da Vila de São Paulo estabelecia penalidades para os brancos,
e considerados tais, que participassem dos festejos nativos ou os promovessem.
Em nível mais brando, as culturas dominadas foram permitidas em todo o País a
modo de apêndice pitoresco, como válvula de escape que formava contraste para
realçar a cultura dominante nas festividades oficiais.
Ainda mais drástico foi o caso da língua geral, o tupi-guarani adaptado pelos
jesuítas e falado corretamente por toda a população bilíngüe em diversos
lugares, e que foi proibida em São Paulo na segunda metade do século XVIII,
até se extinguir rapidamente num meio cada vez mais estabilizado dentro da
cultura de tipo europeu. Os últimos a usá-la normalmente foram registrados em
Porto Feliz no decênio de 1820; mas a não ter sido aquela medida repressiva, é
possível, como já se tem dito, que ocorresse em São Paulo até hoje um
bilingüismo análogo ao do Paraguai.
A literatura desempenhou papel saliente nesse processo de imposição cultural,
bastando lembrar que os cronistas, historiadores, oradores e poetas dos
primeiros séculos eram quase todos sacerdotes, juristas, funcionários,
militares, senhores de terras - obviamente identificados aos valores
sancionados da civilização metropolitana. Para eles as letras deviam exprimir
a religião imposta aos primitivos e as normas políticas encarnadas na
Monarquia; mas mesmo quando desprovidas de aspecto ideológico ostensivo,
seriam uma forma de disciplina mental da Europa, que deveria ser aplicada ao
meio rústico a modo de instrução e defesa da civilização.
Este intuito de controle social é expresso pela atividade cultural da Igreja e
do Estado, ao promoverem manifestações literárias para comemorar as festas
religiosas, as datas ligadas à Família Real, a movimentação das autoridades,
os acontecimentos políticos e militares. Estes eram os principais pretextos
para jornadas de sermões ou representações teatrais, composição e recitação de
poemas. Abundam na correspondência dos governadores das Capitanias as ordens a
professores, corporações, Câmaras para promoverem tais atividades.
Dessas comemorações de reforço ficaram documentos importantes, que constituem
uma parte considerável da vida literária do nosso passado e testemunham a
função ideológica de uma literatura diretamente ligada aos mecanismos de
dominação. É o caso da coletânea feita em 1749 por ocasião da posse do
primeiro bispo de Mariana (Áureo Trono Episcopal); ou do livro em que se
publicou o tributo poético ao Governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de
Andrada, no ano de 1752 (Júbilos da América).
Em plano mais elevado e sistemático, verificamos coisa parecida nas Academias
fundadas no século XVIII com intenção de durar e promover grandes estudos, na
Bahia e no Rio de Janeiro. Os seus membros eram pessoas de relevo social; os
seus fundadores e protetores foram vice-reis ou altos magistrados. Por isso
não espanta que promovessem a celebração direta da Ordem por meio das Letras,
louvando as normas da colonização, defendendo e justificando a obra do
colonizador, ecoando a palavra das autoridades. Ao mesmo tempo manifestavam
espírito de investigação histórica, e em seguida científica, esforçando-se por
serem encarnação da memória do passado e fator de progresso intelectual.
Finalmente, quanto às obras literárias não-ocasionais encontramos fenômeno
igual, de maneira mais complexa e matizada. É bastante significativo que os
livros extensos e ambiciosos do século XVIII, fora da poesia lírica, se
apliquem à mesma celebração dos valores ideológicos dominantes. É o caso da
curiosa ficção moral de Nuno Marques Pereira, O peregrino da América (1728),
da História da América Portuguesa (1730), de Sebastião da Rocha Pita, dos
poemas O Uraguai (1769), de Basílio da Gama, Vila Rica (anterior a 1776), de
Cláudio Manuel da Costa, Caramuru (1781), de Santa Rita Durão. Em todos eles
predomina a idéia conformista que a empresa colonizadora foi justa e fecunda,
devendo ser aceita, louvada como implantação dos valores morais, religiosos e
políticos que reduziam a barbárie em benefício da civilização. Aliás, os três
poemas têm como assunto o encontro entre ambas.
Mas naquela altura este ponto de vista já estava sendo questionado, inclusive,
logo a seguir, com base na obra denunciadora de Raynal, cuja leitura se
considerava subversiva e foi capitulada como culpa na repressão da Sociedade
Literária do Rio de Janeiro (1794). Olhando a outra face da medalha, vemos,
portanto, que a colonização portuguesa ia criando a sua própria contradição,
na medida em que se modificava para se adaptar, e ao consolidar as classes
dominantes da Colônia. Os interesses destas começaram a certa altura a
apresentar divergências em relação aos da Metrópole, e elas também se puseram
a exprimir as suas novas posições e sentimentos através da literatura. Esta
reação intelectual da elite não foi dificultada pelas formas literárias que o
português trouxe, como pensavam os nacionalistas do Romantismo; ao contrário,
a adaptação ao meio americano já as havia tornado capazes de exprimir aquela
reação. Tanto assim que as atividades e obras literárias que acabo de
mencionar podem ser vistas de ângulos divergentes, e mesmo contrários, mas
igualmente válidos. Justamente pelo fato de manter relações com a realidade
social, a literatura incorpora as suas contradições à estrutura e ao
significado das obras.
As Academias, por exemplo, na medida em que pesquisaram o passado, valorizaram
as figuras dos brasileiros natos e exaltaram a importância dos seus feitos,
acentuando os traços próprios do País e preparando deste modo as atitudes
nacionalistas em embrião. Já se tem observado que elas foram deslizando
insensivelmente neste sentido, a ponto de a última, a Sociedade Literária, ter
sido fechada em 1794 e os seus membros processados, porque se transformara
numa espécie de clube político, admirando a Revolução Francesa e questionando
a legitimidade do estatuto colonial.
Com referência aos livros citados mais alto, é fácil notar que a História da
América Portuguesa alcançou um grau de nativismo que a transformou em
instrumento para verificar as diferenças do País e, portanto, o seu eventual
afastamento da Metrópole. O Uraguai, que de um lado se preocupava em elogiar a
ação do Estado na guerra contra as missões jesuíticas do Sul, de outro lado
interessou-se tanto pela ordem natural da vida indígena, pela beleza plástica
do mundo americano, que lançou os fundamentos do que seria o Indianismo e se
tornou um dos modelos do nacionalismo estético do século XIX. Coisa parecida
aconteceu com o Caramuru, onde a ordem natural do índio se opõe à ordem
político-religiosa do branco. Devido à grande acuidade do autor o poema
apresenta uma expressiva ambigüidade (pois ambígua era a sociedade local),
valendo ao mesmo tempo como glorificação do português e como glorificação do
País, onde o brasileiro já começava a sentir-se coagido pelo sistema colonial.
Resumindo, digamos que o século XVIII representa uma fase de amadurecimento no
processo de adaptação da cultura e da literatura. Observam-se nele a
ocorrência de temas novos e novas maneiras de tratar velhos temas, inclusive a
preferência muito significativa por certas formas de composição em prosa e
verso, que permitiam exprimir de maneira mais adequada uma realidade física e
social diferente; esta, nascida da dinâmica interna da colonização. Por isso
as obras que mais desejam acentuar e reforçar a ordem política e cultural
dominante são, ao mesmo tempo, as que utilizam as sugestões locais com maior
carinho e discernimento, acabando por parecer à posteridade que afirmavam as
nossas peculiaridades e sentimentos contra a superimposição externa. É que
esta se tornara em grande parte adaptação, e a literatura, no conjunto da
herança cultural portuguesa, ia passando para o controle dos novos grupos
dominantes, sempre como fator de uma unidade, uma continuidade e uma
consciência do real que se ajustavam aos seus interesses e aos seus desígnios.
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