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Literatura de dois gumes -
Antonio Candido - Parte II
02) TRANSFIGURAÇÃO DA REALIDADE E SENSO DO CONCRETO
Em Visão do Paraíso, Sérgio Buarque de Holanda mostrou que a colonização do
Brasil sofreu a influência (mesmo freada pelo realismo português) duma série
de imagens ideais a respeito da beleza, riqueza e propriedades miraculosas do
continente americano, imagens bem representadas pela famosa lenda do El Dorado,
que obsedou tanta gente. Este movimento da imaginação pode ser também
considerado uma forma de orientar inconscientemente a realização da Conquista,
pois permitiu não apenas estimular a exploração de recursos naturais, mas,
indiretamente, penetrar na vastidão desconhecida e submetê-la às normas e à
cultura impostas pela Metrópole.
De maneira parecida, a imaginação literária transfigurou a realidade da terra
e, ao mesmo tempo, submeteu-a a uma descrição objetiva, como se o conhecimento
dependesse dessa via contraditória. O homem português da época dos
descobrimentos não via contradição nisto, pois era crédulo e crítico, sonhador
e prático. E de fato as dimensões do País incitavam o espírito a se atirar no
devaneio, mas ao mesmo tempo o puxavam para a terra, fazendo-o encarar as
tarefas com pragmatismo.
Para muitos escritores do século XVII e grande parte do XVIII, a linguagem
metafórica e os jogos de argúcia do espírito barroco eram maneiras normais de
comunicar a sua impressão a respeito do mundo e da alma. E isto só poderia ser
favorecido pelas condições do ambiente, formado de contrastes entre a
inteligência do homem culto e o primitivismo reinante, entre a grandeza das
tarefas e a pequenez dos recursos, entre a aparência e a realidade. Como a despropriação gera o senso dos extremos e das oposições, esses escritores se
adaptaram com vantagem a uma moda literária que lhes permitia empregar
ousadamente a antítese, a hipérbole, as distorções mais violentas da forma e
do conceito. Para eles o estilo barroco foi uma linguagem providencial, e por
isso gerou modalidades tão tenazes de pensamento e expressão que, apesar da
passagem das modas literárias, muito delas permaneceu como algo congenial ao
País.
No Brasil, sobretudo naqueles séculos, esse estilo equivalia a uma visão -
graças à qual foi possível ampliar o domínio do espírito sobre a realidade,
atribuindo sentido alegórico à flora, magia à fauna, grandeza sobre-humana aos
atos. Poderoso fator ideológico, ele compensa de certo modo a pobreza dos
recursos e das realizações; e ao dar transcendência às coisas, fatos e
pessoas, transpõe a realidade local à escala do sonho. A História de Rocha
Pita, apesar do conteúdo informativo, cristaliza essa extensão do real. Pouco
antes, em 1705, Botelho de Oliveira tinha aberto com a Música do Parnaso a
série de poemas de hipérbole nativista, que se tornaram uma constante quase
até os nossos dias, quando apenas sobrevivem no ridículo. Exemplo curioso
nessa longa seqüência é o trecho do Assunção, de Frei Francisco de São Carlos
(1820), onde o Paraíso é plantado com as espécies típicas dos pomares
brasileiros.
A esta atitude de espírito se prende a velha predileção da nossa poesia pela
prosopopéia, isto é, a humanização da natureza, que fala ao homem. É como se o
gigantismo e a inospitalidade da terra se acomodassem aos desejos do
colonizador, que deste modo a incorpora fraternalmente ao universo dos seus
sonhos. Prosopopéia (1600) é significativamente o nome de um dos nossos
primeiros poemas; e nele o Oceano profetiza sob a forma de uma divindade
marinha. Mais tarde, as amplificações pomposas de Rocha Pita, em prosa, de
Itaparica, Durão e outros, em verso, são uma espécie de animação da natureza,
fazendo do país inteiro um desmesurado corpo vivo.
A partir dos meados do século XVIII essa tendência se manifesta também no
gênero ovidiano da "metamorfose", como em vários lugares da obra lírica de
Cláudio Manuel da Costa, onde vemos a natureza de Minas animar-se pela
transformação lendária de ciclopes em montanhas, de ninfas em rios portadores
de ouro. Cruz e Silva, português que passou grande parte da vida no Brasil,
transpõe diversos aspectos da nossa paisagem conforme o mesmo processo; e no
começo do século XIX Januário da Cunha Barbosa imagina num longo poema que a
baía do Rio de Janeiro se formara a partir de um episódio da guerra dos Titãs.
Já em pleno Romantismo, Gonçalves Dias vê na serra dos Órgãos as formas de um
gigantesco índio adormecido que, simbolizando a terra, testemunha o choque das
raças e a destruição da sua. Não custa lembrar que, no começo do século XX,
uma das imagens centrais do poema escolhido pela República para a velha
melodia do Hino Nacional é o País deitado na beira do mar, sob a forma de um
gigante pronto a entrar em ação através dos seus filhos.
Estas maneiras de ver, que elaboram o sentimento nacional por meio de uma
exaltação da sua realidade física, existem por vezes nas obras menos poéticas
pelo assunto e pelo intuito, como são informações sobre costumes, vida
econômica e acontecimentos. É claro que alguns cronistas, como o sóbrio Frei
Vicente do Salvador na História do Brasil (1627), limitam-se o mais possível a
informar objetivamente e em linguagem direta, como haviam feito no século
anterior Anchieta e Gabriel Soares de Sousa. Mas outros embalam na hipérbole,
mesmo sem sair do concreto, e vão dando às coisas um brilho e um relevo de
epopéia ou lenda, como é o caso de Simão de Vasconcelos.
A prova de que essa visão não era incompatível com a fidelidade ao real pode
ser verificada num dos observadores mais argutos e precisos da vida econômica
da Colônia, o jesuíta italiano Andreoni, que publicou em 1711 a sua obra
fundamental sobre o assunto com o pseudônimo de André João Antonil. Nela, os
números e os relatórios áridos são envolvidos freqüentemente pelo vôo do
estilo, que alarga a compreensão dos fatos por meio da linguagem figurada. É o
caso da admirável descrição do processo de fabricar açúcar - apresentado como
suplício numa câmara infernal onde os escravos negros são expostos à
voracidade das máquinas que os mutilam, chamuscados pelo calor das fornalhas,
enquanto a cana é cortada, esmagada, moída, queimada para se extrair o caldo,
numa seqüência de ressonância metafórica que o leitor transpõe para a
condiçãodo homem. Dessa página eloqüente, abrasada pelo fogo das imagens,
desprende-se uma visão alegórica que faz compreender, mais que os quadros
numéricos, as precisões técnicas e a própria intenção do autor, a dura
iniqüidade do processo econômico.
Mas não devemos esquecer, no outro lado, a representação direta da realidade,
que não apenas coexiste com esse método transfigurador, mas predomina em
outras, a exemplo dos cronistas citados há pouco, que contribuíram para
estabelecer em nossa literatura um realismo que se tornou arma de conhecimento
objetivo da sociedade e do espírito.
Na poesia da segunda metade do século XVIII manifestam-se nesta direção as
tendências didáticas e de crítica social. Sofrendo influência da Ilustração,
elas constituem um esboço do que seria a consciência nacional propriamente
dita. Poesia didática pura são as obras latinas de Prudêncio do Amaral sobre o
açúcar e de Basílio da Gama sobre a mineração. Mas os poemas cômicos de Silva
Alvarenga e Francisco de Melo Franco sobre a situação do ensino em Portugal já
entram pela política, enquanto os poemas científicos de Sousa Caldas, sobre as
aves, e do mesmo Silva Alvarenga, sobre as formas do saber, denotam certo
inconformismo. O exemplo mais brilhante é obviamente As cartas chilenas, poema
que expõe com veemência a corrupção administrativa e os abusos do poder.
Estes e outros escritores foram na maior parte adeptos da política reformadora
de Pombal, que fez muito pelo Brasil à sua maneira de déspota ilustrado.
Alguns deles (encarnando tanto a visão utópica dos nativistas,
transfiguradores da realidade, quanto a mentalidade crítica dos precursores do
nacionalismo) chegaram a exprimir algumas reivindicações do País, que começava
a perceber as contradições do domínio português. E os que se reuniram a fim de
debater e aventar soluções para tais problemas foram presos, processados,
exilados, infamados socialmente, tanto na repressão da Inconfidência Mineira,
de 1789, quanto da que se poderia chamar Inconfidência Carioca, de 1794. Esses
poetas, eruditos, sacerdotes exprimem a maturidade da inteligência brasileira
aplicada ao conhecimento e à expressão do País. A sua tomada de posição, que
caro lhes custou, pode ser considerada o primeiro sinal concreto do movimento
que terminaria com a independência política em 1822. E isto mostra como a
literatura foi atuante na imposição dos padrões culturais e, a seguir, também
como fermento crítico capaz de manifestar as desarmonias da colonização.
Feita a independência política, difundiu-se entre os escritores a idéia de que
a literatura era uma forma de afirmação nacional e de construção da Pátria;
daí subsistirem, como antes, os dois aspectos indicados. Vale a pena assinalar
que a representação mais realista encontrou no novo gênero do romance, a
partir do decênio de 1840, um instrumento apto para efetuar verdadeira
sondagem social. Desde o início a ficção brasileira teve inclinação pelo
documentário, e durante o século XIX foi promovendo uma espécie de grande
exploração da vida na cidade e no campo, em todas as áreas, em todas as
classes, revelando o País aos seus habitantes, como se a intenção fosse
elaborar o seu retrato completo e significativo. Por isso ainda permanece viva
a realidade que apresenta - seja no romance do tempo do Romantismo, com
Macedo, Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Bernardo Guimarães, Franklin
Távora, Taunay, seja no do Realismo e do Naturalismo, com Machado de Assis,
Aluísio Azevedo, Inglês de Sousa, Oliveira Paiva, Adolfo Caminha e outros, que
nos trazem ao começo do século XX.
03) TENDÊNCIA GENEALÓGICA
A minha insistência no século XVIII não é fortuita, pois nele se definiram com
certa clareza as linhas da nossa fisionomia espiritual, configurando-se
valores que influíram em toda a evolução posterior da sociedade e da cultura.
Na literatura, notamos sob este aspecto certas escolhas intelectuais e
artísticas, entre as quais podemos destacar o que noutro estudo chamei
"tendência genealógica", tomando o qualificativo em sentido amplo, a fim de
designar a interpretação ideologicamente dirigida do passado com o intuito de
justificar a situação presente.
Ela corresponde à formação da consciência das classes dominantes locais que,
depois de estabilizadas, necessitavam elaborar uma ideologia que justificasse
a sua preeminência na sociedade, à luz dos critérios que definiam a formação e
privilégios dos três estados que a constituíam oficialmente (clero, nobreza e
povo). Já vimos que no período colonial a inteligência escolheu aspectos
adequados para criar um meio natural representado na literatura e dando forma
ao sentimento. Do mesmo modo, ela inventou, criou um tipo de história, por
meio da avaliação especial da mestiçagem e do contato de culturas. O elemento
paradoxal do ponto de vista lógico, mas normal do ponto de vista sociológico,
foi a tentativa de compatibilizar com os padrões europeus a realidade de uma
sociedade pioneira, sincrética sob o aspecto cultural, mestiça sob o aspecto
racial. De fato, a “tendência genealógica” consiste em escolher no passado
local os elementos adequados a uma visão que de certo modo é nativista, mas
procura se aproximar o mais possível dos ideais e normas européias. Como
exemplo para ilustrar este fato no terreno social e no terreno literário,
intimamente ligados no caso, tomemos a idealização do índio.
Àquela altura, nas zonas colonizadas este já estava neutralizado, repelido,
destruído ou dissolvido em parte pela mestiçagem. Para formar uma imagem
positiva a seu respeito contribuíram diversos fatores, entre os quais a
condição de homem que os jesuítas lhe reconheceram; a abolição da sua
escravização em meados do século XVIII; o costume dos reis portugueses de
conferir categoria de nobreza a alguns chefes que, nos séculos XVI e XVII,
ajudaram a conquista e defesa do País; e finalmente a moda do "homem natural'.
Tudo isso ajudou a elaborar um conceito favorável, não sobre o índio de todo o
dia, com o qual ainda se tivesse contato, mas sobre o índio das regiões pouco
conhecidas e, principalmente, o do passado, que se pôde plasmar com a
imaginação até transformá-la em modelo ideal. Note-se que esse índio eponímico,
esse antepassado simbólico justificador tanto da mestiçagem quanto do
nativismo, podia ter curso livre no plano da ideologia porque a sua evocação
não tocava no sistema social, que repousava sobre a exploração do escravo
negro - e este só receberia um esboço de tratamento literário idealizador na
segunda metade do século XIX, quando começou a crise do regime servil.
A atitude positiva em relação ao índio já é clara na Academia dos Renascidos,
que em 1759, mandando elaborar as biografias dos homens ilustres da história
colonial, incluiu pela primeira vez os chefes indígenas ao lado de
governadores, magistrados, guerreiros, senhores de terras, promovendo-os assim
ao nível dos varões tutelares. Ainda mais significativa foi a sua incorporação
ao orgulho ancestral, no momento em que as famílias importantes começavam a
estabelecer o registro (sobretudo forjado) das suas estirpes. Como elas se
colocavam a este respeito numa perspectiva formalmente européia, surgia o
problema delicado da mestiçagem, que era fator discrepante em relação à idéia
de nobreza, e da conseqüente "pureza de sangue" dos "quatro costados". Para
resolvê-lo, os linhagistas criaram a ficção das "princesas do sangue
brasílico", isto é, as filhas dos chefes que se tinham unido aos primeiros
colonos. Deste modo, como ocorre em toda sociedade nova, os aspectos
heterodoxos foram reduzidos ao padrão dominante, e os arrivistas da Colônia
procuraram legitimar a sua posição social preeminente por meio de uma correção
do passado. Entre as obras consagradas a essa mistificação ideológica estão
(nos três núcleos principais da colonização) as de Borges da Fonseca, em
Pernambuco, a de Jaboatão, na Bahia, a de Pedro Taques, em São Paulo.
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