|
»
Literatura de dois gumes -
Antonio Candido - Parte III
O resultado positivo foi erigir-se o índio em símbolo nacional e, assim,
encontrar um recurso para afirmar as nossas particularidades. Mais tarde, com
efeito, no século XIX, não foram apenas as famílias importantes com as suas
divertidas "princesas", mas toda a Nação que passou a ver no autóctone uma
espécie de antepassado mítico, de herói epônimo, que acabou servindo para
outra mistificação de alcance bem geral: atribuir ao sangue indígena
(previamente valorizado) a mestiçagem com o africano, que por várias razões,
sobretudo a de ser ele ainda escravo, era cuidadosamente negada ou disfarçada,
terminando por ser ignorada nos casos individuais (pelo esquecimento total do
antepassado negro).
Associado desta maneira ao processo civilizador segundo as classes dominantes,
arraigado na consciência de grupos sociais cada vez mais numerosos, o índio
não teve dificuldade em tornar-se personagem literário privilegiado. Nos três
poemas referidos há pouco - O Uraguai, Vila Rica, Caramuru -, sobretudo no
primeiro e no terceiro, ele entra como força pitoresca e humana, enquanto em
outras composições menores vai aparecendo cada vez mais como símbolo da terra
e, depois, dos sentimentos locais. Para os escritores da segunda metade do
século XVIII, muitos dos quais seguiam as convenções da poesia pastoral, e
portanto proclamavam a beleza e dignidade da vida rústica, o reconhecimento do
índio como tipo de "homem natural" era quase uma extensão lógica. Esta
circunstância aparece concretizada de maneira completa em Antônio Joaquim de
Melo, que no decênio de 1830 escreveu éclogas formalmente ortodoxas, com
diálogo e tudo, cujos pastores eram simplesmente substituídos por índios.
Depois de 1840 os românticos fizeram do Indianismo uma paixão nacionalista,
que transbordou o círculo dos leitores e se espalhou por todo o País, onde
perdura o uso dos nomes indígenas, muitos dos quais tomados a personagens de
romances e poemas daquela época. Os dois escritores mais eminentes do
Indianismo romântico, Gonçalves Dias e José de Alencar, foram considerados
pelos contemporâneos como realizadores de uma literatura que finalmente era
nacional, porque manifestava a nossa sensibilidade e a nossa visão das coisas.
O triunfo dessa opinião unilateral significa o apogeu da "tendência
genealógica" durante o Romantismo, quando foi fortalecida pelo intuito,
politicamente compreensível, de negar os valores ligados à colonização
portuguesa. O desejo de independência integral ia das esferas da alta política
até os hábitos de cada um, sendo que várias pessoas trocaram por nomes
indígenas os seus sobrenomes, como se isto apagasse a origem e a tradição que
as tinha formado. Afinando por este ritual nacionalista, de valor simbólico
muito ponderável, os dois imperadores, ao conferirem títulos de nobreza,
tiveram predileção pela toponímia indígena, que forneceu a designação de quase
metade dos titulares (430 sobre 990), resultando barões, condes, marqueses de
sonoridade bizarra para o ouvido europeu.
Esta ânsia de diferenciação integral de uma jovem nação explica o incremento
que teve no século XIX o desejo de inventar um passado que já fosse nacional,
marcando desde cedo a diferença em relação à mãe-pátria. Inspirada em parte
por autores franceses interessados pelo exotismo americano, a crítica
liaterária estabeleceu então que descrever a natureza e os costumes do País,
sobretudo os das suas raças primitivas, era a verdadeira tarefa da literatura
e o critério para identificar, no passado, aqueles que tinham contribuído para
criá-la.
O que havia de estreito e restritivo nesta idéia foi compensado pelo feito que
ela teve na mudança da estética literária, pois como o Romantismo coincidiu
com a Independência, tudo o que era escrito segundo os seus princípios passou
a ser considerado mais autenticamente brasileiro, e assim se definiu um
critério que vinculou a produção literária à construção da nacionalidade. Não
foram apenas os novos temas, mas também os temas tradicionais que de repente
pareceram mais nossos, mais legítimos, ao se exprimirem conforme a maneira
personalizada que então predominava, com o seu gosto pelo sentimentalismo, o
patético e a confidência, reputados algo realmente brasileiro.
Além disso, como se tratava de construir a Nação, as atividades intelectuais e
artísticas foram consideradas por si mesmas contribuição a este esforço - o
que conferiu ao poeta, ao romancista, ao orador, ao jornalista uma importância
maior do que se poderia esperar em país tão atrasado. Talvez tenha influído
nisso a atitude do segundo Imperador junto às elites, pois ele se considerava
um intelectual e de fato manifestou sempre, durante o seu longo reinado,
embora conforme os padrões mais convencionais, um amor e um apoio constantes à
literatura, artes e ciências. Influiu também com certeza o fato do exercício
da literatura ser homólogo ao das "profissões liberais", o que a fez
beneficiar-se do grande prestígio destas. No fundo, todas eram expressões
diversas das camadas dominantes e funcionavam como critérios para a sua
adaptação às circunstâncias novas, marcadas pela urbanização e a formação das
classes médias.
04) O GERAL E O PARTICULAR NAS FORMAS DE EXPRESSÃO
Para os teóricos românticos o Classicismo (que para eles engloba o que depois
se chamou Barroco) teria sido expressão do colonizador português, perturbando
o desenvolvimento original da literatura brasileira, apesar do esforço de
alguns escritores. Inversamente, o Romantismo representaria o espírito
nacional, permitindo com a su liberdade criadora a manifestação do gênio
brasileiro inspirado pelas características da terra, da sociedade, dos ideais.
Esta noção nitidamente ideológica correspondia a um estádio da consciência
nacional em plena euforia. E como tinha um lado verdadeiro, implantou-se de
tal modo que ainda hoje vemos críticos e professores falarem da importância
dos escritores do período colonial, apesar da imitação clássica. Subentende-se
que ser brasileiro era ser qualquer coisa de parecido com o que foram os
românticos.
Ora, nada mais duvidoso e prejudicial para uma boa compreensão da nossa
história literária do que este parecer cheio de descompasso temporal, cujo
pressuposto é que os escritores do tempo da Colônia devessem ter renegado a
moda literária dominante em todo o mundo ocidental, para se tornarem
magicamente nacionalistas românticos antes do tempo. A outra suposição errada
é que as normas clássicas não se prestavam a exprimir a realidade natural e
social do País. O que ficou dito até agora deve ter deixado claro que penso o
contrário, devido a razões ao mesmo tempo de ordem histórica e estética.
Historicamente a literatura do período colonial foi algo imposto,
inevitavelmente imposto, como o resto do equipamento cultural dos portugueses.
E este fato nada tem de negativo em si, desde que focalizemos a colonização,
não pelo que poderia ter sido, mas pelo que realmente foi como processo de
criação do País, com todas as suas misérias e grandezas.
No Brasil, ao contrário dos países americanos que conheceram grandes
civilizações pré-colombianas, é impossível pensar num processo civilizador à
margem da conquista européia, que criou o País. Entre nós seria inadmissível
dizer, como diz o escritor boliviano Jesus Lara a propósito do poeta quéchua
José Walparrimachi Maita, que a conquista destruiu a possibilidade de
desenvolvimento duma literatura original, de qualidade equivalente à que foi
imposta, e mais autêntica do que ela. A nacionalidade brasileira e as suas
diversas manifestações espirituais se configuraram mediante processos de
imposição e transferência da cultura do conquistador, apesar da contribuição
(secundária em literatura) das culturas dominadas, do índio e do africano,
esta igualmente importada.
Indo mais longe e desenvolvimento uma afirmação feita há pouco, poderíamos
mesmo dizer que os padrões clássicos (no sentido amplo, abrangendo todo o
período colonial) foram eficazes, por vários motivos e sob as suas diversas
formas: humanismo de influência italiana, no século XVI, barroco de influência
espanhola, no século XVII, neo-classicismo de influência francesa, no século
XVIII. Em qualquer destes casos, tratava-se de uma disciplina intelectual
coerente que levou a inteligência a se exercer com rigor; isto lhe deu
consistência e resistência na sociedade atrasada e por vezes caótica do
período colonial. Além disso, a convenção greco-latina era fator de
universalidade, uma espécie de idioma comum a toda a civilização do Ocidente;
por conseguinte, na medida em que a utilizaram, os escritores do Brasil
integraram nesta civilização as manifestações espirituais da sua terra,
dentro, é claro e como ficou dito, do propósito colonizador de dominação,
inclusive através da literatura.
Vistos assim, certos traços que sempre foram censurados no Classicismo
tornam-se fatores positivos, como a "artificialidade" das suas tendências,
isto é, o caráter convencional do seu discurso. Talvez isto haja perturbado a
expressão mais calorosa da personalidade, sem falar no aproveitamento eventual
de inspirações populares. Mas em compensação, ao estabelecer contraste com o
primitivismo reinante, permitiu aos intelectuais criar um mundo de liberdade e
autonomia espiritual, que preservou a existência da literatura, neutralizando
o perigo de absorção pelo universo do folclore; e ao fazer do escritor um
cidadão da República universal das letras, tornou-o fator de civilização do
País. Daí a sua capacidade crítica, às vezes mesmo a sua rebeldia, como
verificamos em diversos aspectos da obra de Gregório de Matos, ou, de modo
mais engajado, nos poetas chamados arcádicos do século XVIII. Portanto, o que
havia de negativamente artificial na moda clássica foi compensado por esta
circunstância, graças à qual certos escritores de valor dos séculos XVII e
XVIII parecem às vezes menos provincianos, mais abertos para os grandes
problemas do homem do que muitos românticos do século XIX, enrolados no
egocentrismo e no pitoresco.
Mas mesmo aceitando a argumentação tradicional, podemos ver que o estilo
clássico se prestava bem para exprimir um mundo novo, enorme e desconhecido.
Já vimos que o uso da alegoria e do mito facilitaram a descoberta e a
classificação estética da natureza, enquanto o uso de recursos mais
particulares como a perífrase, o hipérbato, a elipse, a hipérbole permitiam
ajustar a linguagem à realidade insólita ou desconhecida. Quando Cláudio
Manuel da Costa transforma em Polifemos as rochas da Capitania de Minas, e em
Galatéias os ribeirões cheios de ouro, está dando nome ao mundo e incorporando
a realidade que o cerca a um sistema inteligível para os homens cultos da
época, em qualquer país de civilização ocidental. Assim, a possibilidade de
ajustar a tradição ao meio trazia em si, ao lado da disciplina, uma
considerável liberdade; e da combinação de ambas formou-se a expressão ao
mesmo tempo geral e particular, universal e local, que a literatura do tempo
da Colônia transmitiu como conquista sua.
Para mostrar a plasticidade de formas reputadas tão rígidas e constrangedoras,
lembremos como Gregório de Matos pôs nos rigorosos limites convencionais do
soneto não apenas a expressão dos padecimentos do amor e toda a inquietação do
pecado (isto é, algo normal dentro da tradição), mas os costumes da sociedade
em formação, com os seus preconceitos, as suas querelas, a sonoridade dos seus
nomes indígenas. A noção de convenção é relativa, e quando os nossos poetas
arcádicos escrevem sobre pastores e a paz virgiliana dos campos, não são mais
artificiais do que um poeta espanhol ou inglês baseado na mesma moda. O
importante é que através dessa convenção livresca manifestaram implicitamente,
de maneira original, o contraste entre a civilização da Europa, que os
fascinava e na qual se haviam formado intelectualmente, e a rusticidade da
terra onde viviam, que amavam e desejavam exprimir. Como ficou visto noutros
níveis, também aqui, na esfera essencial dos recursos literários, a imposição
e adaptação de padrões culturais permitiram à literatura contribuir para
formar uma consciência nacional. Na sociedade duramente estratificada,
submetida à brutalidade de uma dominação baseada na escravidão, se de um lado
os escritores e intelectuais reforçaram os valores impostos, puderam muitas
vezes, de outro, usar a ambigüidade do seu instrumento e da sua posição para
fazer o que é possível nesses casos: dar a sua voz aos que não poderiam nem
saberiam falar em tais níveis de expressão.
Dentro do processo de análise que estamos seguindo, mencionemos que foi
igualmente fecundo sob este aspecto o espírito romântico, que, em contexto
histórico diverso, permitiu maior exteriorização dos sentimentos e das
atitudes. Ao anunciar o que fazia à medida que o fazia, o escritor romântico
expunha claramente o seu desígnio afetivo ou social, e isto lhe deu maior
poder de comunicação imediata. E enquanto na sociedade de estados a literatura
clássica era mais discriminatória, pressupondo no leitor uma certa formação, a
do Romantismo se tornou acessível a níveis mais modestos e grupos mais
numerosos.
As formas de expressão de que o Romantismo dispunha eram, aliás, mais
plásticas. E esta plasticidade maior parece providencial vista de hoje. Mesmo
porque, numa sociedade já constituída como nação e orientada para o seu
destino próprio, como a nossa no século XIX, o rigor, o senso rígido da ordem
espiritual e estética eram menos necessários. E embora a literatura seja uma
disciplina e uma norma, as formas mais acessíveis que então assumiu
favoreceram não apenas a penetração em setores vivos da consciência e da
sociedade, mas a difusão maior junto aos leitores. Basta comparar o rigor
dialético de um soneto barroco, o malabarismo conceitual de uma ode ou a
rigorosa disposição de uma tragédia clássica, com o universo aberto,
comparativamente amorfo do romance, ou a musicalidade embaladora do verso
romântico, exprimindo uma sensibilidade mais ondulante e comunicativa.
No entanto (como procurei mostrar num livro sobre o assunto) esta ruptura
estética entre os dois períodos não significa ruptura histórica, pois o
Romantismo continuou orientado pela mesma tendência, isto é, o duplo processo
de integração e diferenciação, de incorporação do geral (no caso, a
mentalidade e as normas da Europa) para obter a expressão do particular, isto
é, os aspectos novos que iam surgindo no processo de amadurecimento do País.
Esta circunstância dá continuidade e unidade à nossa literatura, como elemento
de formação da consciência nacional, do século XVI, ou pelo menos do século
XVII, até o século XIX. A essa altura, tanto a literatura quanto a consciência
das classes dominantes (a que ela correspondia) já podem ser consideradas
maduras e consolidadas, como a sociedade, porque eram capazes de formular os
seus problemas e tentar resolvê-los.
CONCLUSÃO
Como sempre acontece nas sínteses ambiciosas e rápidas, termino com um
sentimento de insatisfação. Para mostrar qual foi a função da literatura no
processo de formação nacional do Brasil, coloquei-me no ângulo da História e
deixei de lado os aspectos mais propriamente estéticos. Além disso, não
mencionei os momentos em que a literatura começa a produzir as suas obras ao
mesmo tempo mais características e mais importantes, isto é, desde Machado de
Assis até os nossos dias, passando pelo grande eixo dos modernistas de 1922.
Com isso tenho a impressão de haver mostrado apenas o vestíbulo, sem entrar no
interior da casa. Mas mesmo dentro dos quadros que estabeleci fui limitado e
talvez injusto. Teria sido preciso mostrar como algumas tendências, vistas
aqui sob o aspecto positivo, foram também negativas. Mostrar, por exemplo,
como a transfiguração barroca instaurou nos hábitos mentais do brasileiro um
amor irracional pela grandiloqüência pura e simples. Como a transposição da
realidade através da imagem e da alegoria levou muitas vezes o espírito a se
enganar a si mesmo, e a ação a cruzar os braços ou se perder na utopia
estéril. Teria sido preciso mostrar bem, e não apenas indicar, de que maneira
a elaboração mitológica do índio serviu para ocultar o problema do negro, de
tal modo que o Indianismo se tornou também, visto deste ângulo, uma forma de
manter o preconceito contra ele, apesar do esforço generoso de poetas e
abolicionistas.Nos países da América Latina a literatura sempre foi algo
profundamente empenhado na construção e na aquisição de uma consciência
nacional, de modo que o ponto de vista histórico-sociológico é indispensável
para estudá-la. Entre nós, tudo se banhou de literatura, desde o formalismo
jurídico até o senso humanitário e a expressão familiar dos sentimentos. Por
isso é difícil delimitar esse universo insinuante e multiforme. Mas a versão
unilateral que acaba de ser exposta não causará grande mal, se o ouvinte sair
com a certeza de que a realidade é de fato muito mais vasta e complexa, e que
só as limitações do conferencista impediram que isto ficasse claro.
Fonte: Pacc da UFRJ
|