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Macunaíma
- Graciliano Ramos - Parte II
CAPÍTULO IX
CARTA PRAS ICAMIABAS
Este capítulo é o mais destacado neste livro porque reflete vários itens
quanto à linguagem, o significado das origens de um povo e a personificação
de Macunaíma em relação a sua identificação pessoal, ou seja, a sua
identificação como um índio.
A carta é dirigida por Macunaíma, às Icamiabas, o emissor aparece como
Imperador e as destinatárias como súditas. O termo súbditas são as
senhoras amazonas, e o termo é erudito e a forma popular súdita.
A forma erudita é característica da linguagem culta (escrita), normalmente a
linguagem escrita representa a norma culta e a oral, popular. O livro até
aqui, vem escrito numa linguagem que tem como padrão, a oral. Até as grafias
se prendem na linguagem popular. Observada a grafia da conjunção se, e
escreve si,. pois na linguagem oral é si. Observando isso, concluímos que na
carta, há a tentativa de Macunáima em expressar uma linguagem culta. Esta
tentativa de Macunaíma em escrever usando uma linguagem culta, tem por
finalidade a carnavalização da norma culta, ou seja, uma sátira da
linguagem culta. A ridicularização aparece pelos recursos da hiper correção
(ex.: não devemos desperdiçarmos). O próprio Macunaíma está a representar
aquelas pessoas nativas, que não têm uma linguagem culta, por ex.: usa testículos,
ao invés de versículos), discrição e não discreção.
Suas textualidades são maiores do que suas qualidades. Sempre há alguém que
diz que Macunaíma é inteligente. Ele tem mais defeitos do que qualidades. Ao
descrevê-lo, Mário de Andrade procura identificar o homem latino americano e
não o índio. Nesta carta há um antinorma, praticamente o exagero da
norma culta., pois quem escreve tentando escrever de uma forma culta é o
analfabeto Macunaíma. Temos aqui uma paródia, pois a antinorma não é para
ser levada a sério, é uma ironia somente, uma imitação grotesca, que é o
exagero da norma, ou uso de palavras fora de seu contexto (Ex.: testículos).
Macunaíma se apresenta às Icamiabas como Imperador. O tratamento às
Amazonas é um distanciamento entre o mais importante e o sem importância.
Esta carta é também paródia de uma outra carta de Pero Vaz Caminha, mas
como é uma paródia, a carta em relação a Caminha, via sua carta o
civilizado mostra ao rei o primitivismo encontrado, e Macunaíma é um
imperador que escreve ao Rei. Pero Vaz descreve terra primitiva, Macunaíma
descreve a cidade civilizada. Ha um contraste entre primitivismo e civilização.
Nesta carta, Macunaíma pede dinheiro às índia Icamiabas porque o que ele
havia trazido estava no fim e ele não queria trabalhar.
É também um contexto altamente irônico para aquelas pessoas que perdem a noção
de sua origem e tentam incorporar um outro modelo de comportamento no qual não
dominam. Exatamente como o povo da época, que deixava a cultura brasileira,
para incorporar a de Portugal.
Este capítulo está preso a norma culta. Um outro ponto que distingue o texto
da obra é o foco narrativo antes e depois. O foco narrativo é do narrador
enquanto que na carta, o foco narrativo é do personagem, ou seja, do Macunaíma.
A visão da linguagem em Macunaíma tem uma intenção, escreve uma carta às
índias Icamiabas para pedir dinheiro e para disfarçar esse pedido, usa seus
palavrórios e elementos de alusão eróticas. O objetivo da carta está no
fecho, nos 2 últimos parágrafos.
Nesta carta, ocorre a quebra da norma culta. Há também, uma proposta de sátira
ao homem e a linguagem. É uma caricatura da linguagem culta. O exagero da
tentativa de perfeição utilizado por Macunaíma, é a confirmação da
caricatura, pois há uma preocupação de mostrar a erudição e a distorção
da norma clássica provando que o personagem não tem força intelectual
suficiente, cai no ridículo.
Mostra-nos que a intenção de Mário de Andrade é ridicularizar as normas
cultas dos Parnasianos e também uma crítica ao homem de Letras do Brasil,
porque ao invés de colocar sua linguagem local, vai procurar esta linguagem
fora daqui.
Macróbios e micróbios, essas confusões feitas por Macunaíma é que geram o
humor, que é próprio da sátira. O narrador é que critica a carta e não
Macunaíma. Não há qualquer compromisso de lógica com a verossimilhança.
No plano da realidade, seria impossível Macunaíma escrever uma carta dessa,
mas mesmo assim, ele quer mostrar-se às índias como perfeitamente
identificado com a civilização urbana. Então, usa a língua da sociedade.
Ele se tornou branco como os demais, pois a cor o ajuda muito nesta identificação
com a sociedade da época ainda muito próxima à escravatura, prova disso, os
irmãos que não conseguiram mudar a cor e que também foram junto com ele
para São Paulo, não tiveram sucesso. Para Macunaíma integrar-se nesse meio,
bastava a língua mas, só com o dinheiro é que iria proporcionar essa
participação e é por isso, que escreve a carta cheia de alusões eróticas.
Esta atitude é pedante e o pedantismo é uma técnica do distanciamento.
Outra prova do pedantismo, é a desvalorização do que é seu e super
valorização do que é dos outros.
Outra característica que o liga à sociedade é o apego ao dinheiro, pois sem
dinheiro, Macunaíma não conseguiria fazer parte socialmente daquele
contexto. Havia também o deslumbramento com os homens públicos, os
policiais. Ao conseguir o domínio da língua, procura apresentar-se diante
das Icamiabas, como um poderoso, que é para mascarar a situação social
anterior, que foi a surra que levou de Piamã. Com essa instrução, é uma crítica
de Mário de Andrade daquele brasileiro que ganha muito dinheiro e depois começa
a esnobar.
A citação das palavras estrangeiras é intencional. "Carta pras
Icamiabas" apresenta duas versões da língua brasileira: a oralizada que
é falada por Macunaíma e o da carta que é culta. Há intencionalidade em
colocar a distância do receptor para o interlocutor. Apresentamos aqui alguns
aspectos da linguagem na carta:
1) "Nem 5 sois...- Tenho uma pastite (imitação burlesca,
intencionalmente mal feita do autor Camões). Presença de Camões, que dentro
da literatura Portuguesa é considerada o Clássico dos Clássicos. Neste
aspecto, Mário de Andrade está criticando a cultura Portuguesa no Brasil.
"sois"- significa dia.
2) "idos de maio"
"idos (latinismo-Que no calendário latino se dava os dias do mês)
3) "ano translato"- ano passado
4) "súbditas"- seria a preocupação com a etimologia da palavra,
mas com intenção de paródia.
5) "Trompas de Eustáquio"- é um termo científico, portanto não
deveria estar na carta.
6) "mui"- termo arcaico que em determinadas circunstâncias são
usadas.
7) "saùdade"- erro ortográfico
8) "devido ás oscilações do Cámbio e á baixa do cacau"- erros
ortográficos e tetativa de mostrar conhecimentos nos assuntos financeiros da
cidade.
9) "diligentes edis, uns antropóides, monstros hipocentáureos azulegos
e monótonos..."- "..per amica silentia lunae"- uso de uma
linguagem postiça para impressionar as Icamiabas. Deveria haver uma adequação
de linguagem na "Carta pras Icamiabas", porque usar termo técnico não
seria entendido por elas. Quando a linguagem não é adequada à realidade,
ela é burlesca e no momento que encontramos um termo científico não
adequado ao texto, há uma quebra do entendimento, portanto passando a ser uma
sátira. O uso do científico se transforma em pedantismo.
O uso da vírgula está coerente com a intenção formal da carta e nos outros
temas do livro, não há esta preocupação. Há uma excessiva preocupação
com a gramática, a ponto de interromper a história para se ater na
linguagem.
CAPÍTULO X
PAUI-PÓDOLE
Neste capítulo encontramos novamente referências lendárias do Mutum que
virou estrela.
Mutum é uma ave.
URARICOERA
É uma cidade em Roraima, no extremo norte, nas proximidades da Venezuela (Símbolo
do Paraíso)
PEDRA MUIRAQUITÃ
Símbolo de união entre Macunaíma e Ci e também como identidade nacional
presente daquela sociedade primitiva a qual ele pertencia.
EPITÁFIO
"ESCREVEU NA PEDRA QUE FORA JABUTI"
Na lenda, as pedras já foram seres vivos que se tornaram pedra. E Macunaíma
vai ser estrela. É um epitáfio que Macunaíma grava para ele mesmo. A
escrita de Macunaíma apóia-se no pensamento selvagem, na idéia de que tudo
vira tudo e na capacidade de compor e recompor configurações a partir de
conteúdos díspares, esvaziados de suas primitivas funções. Daí a técnica
caleidoscópica, onde as idéias e imagens projetam-se arbitrariamente,
inclusive nos modos de contar, nos estilos narrativos:
Alfredo Bosi destaca três estilos de narrar:
- Um estilo de lenda, épico-lírico, solene:
"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era
preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio
foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia Tapanhumas
pariu uma criança feia. Essa criança é que chamara de Macunaíma"
- Um estilo de crônica, cômico, despachado, solto:
"Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de
seis anos não falando. Si o incitava a falar exclamava:
__Ai! que preguiça!...
E não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba,
espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha,
Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era
decepar cabeça de saúva. Vivia deita mas si punha os olhos em dinheiro,
Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família
ia tomar banho no rio, todos juntos e nus (...) Então adormecia sonhando
palavras feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar.
- Um estilo de paródia, retomando, satiricamente, a linguagem empolada e
pedante dos parnasianos e dos cultores de Rui Barbosa e Coelho Neto. É o que
se vê na Carta pras Icamiabas, que o herói escreve no capítulo IX,
focalizando a duplicidade no uso de nossa língua. "Mas cair-nos-iam as
faces, si ocultássemos no silêncio, uma curiosidade original deste povo. Ora
sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que
falam numa língua e escrevem noutra (...)
Nas conversas, utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário,
crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter seu
sabor e força nas apóstrofes, e também nas vozes do brincar. Destas e
daquelas nos inteiramos, solícito; e nos será grata empresa vô-las
ensinarmos aí chegado. Mas si tal desprezível língua se utilizam na
conversação da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino
de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana, no
dizer dum panegirista, meigo idioma, que, com imperecível galhardia, se
intitula: língua de Camões"
EPÍLOGO
RAPSÓDIA
Rapsódia- narrativa popular
Rapsodo- é quem transmite a narrativa
Este último capítulo é a explicação do porquê, o livro Macunaíma é
considerado uma rapsódia.
Rapsódia é um canto épico e normalmente é cantado em verso, mas a epopéia
desaparecerá no sec. XVIII e a sociedade não aceitará mais o herói épico.
O rapsodo é um Aedo, ou seja, um cantor popular que era um homem do povo
cantando textos épicos e ia de cidade em cidade cantando a história de seu
povo.
Diante destas definições, Macunaíma teria que ser em verso, para ser uma
rapsódia, mas neste capítulo, fica expresso como se fosse uma história que
o papagaio contou para o narrador. Neste artifício Mário de Andrade disfarçou
como se fosse uma pseudo-rapsódia.
Rapsodo liga a narrativa popular, folclórica. Uma narrativa folclórica tem
que ser antiga e a via de transmissão deve ser por via oral. Então, Mário
de Andrade inventa que essa história, o Rapsodo, que é aquele violeiro que
ouviu o papagaio contar a história e o papagaio, por sua vez, ouvira de
Macunaíma. Seguindo esta linha de raciocínio, Macunaíma contou a história
para o papagaio que ia contando para todos as pessoas e isso garante a antigüidade,
o anonimato. Ele contou a história e por isso é chamado de Rapsódia.
Dentro do Modernismo, Mário de Andrade pode colocar como sendo sem verso,
devido a ruptura com o parnasianismo.
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