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Madame Pommery -
Hilário Tácito - Parte I
Análise da Obra -
O título
De imediato, o título Madame Pommery chama a atenção do leitor, que éinduzido a relacioná-lo ao título de um dos maiores romances do século XIX: Madame Bovary, de Gustave Flaubert.
Madame Bovary foi publicado na França em 1857, e é considerado o marco inicial do Realismo europeu. O livro,quando veio à luz, produziu um impacto imensoe um escândalo rumoroso, que acabou levando seu autor aos tribunais, acusado de ataque virulento à moral.
O romance narra a história de Emma Bovary - esposa de um pacato, medíocre, e provinciano médico chamado Charles Bovary - que, sufocada pelos estreitos limites da existência pequeno-burguesa, entrega-se a um amor adulterino, cujo desenlace é trágico e culmina na morte da protagonista. A partirdesse núcleo narrativo, Flaubert passa em revista a sociedade de seu tempo, expondo com dureza o asfixiante universo da existência moderna numa sociedade já plenamente burguesa, cujo traço essencial parecia-lhe ser a hipocrisia.
Madame Bovary causou celeuma e abriu as portas para o Realismo, e em seguida para o Naturalismo de Émile Zola, que radicalizou em muito o método e as propostas realistas. Além disso, este romance produziu uma série de “imitações”, das quais O Primo Basílio, de Eça de Queirós, pode ser um exemplo. Aliás, a protagonista do romance lusitano, Luísa,já foi chamada de a “Bovary portuguesa”. Ecos de Madame Bovary são perceptíveis até em Machado de Assis - apesar da acentuada particularidade da obra machadiana frente aos modelos realistas e naturalistas - em romances como D. Casmurro e Quincas Borba, nos quais o adultério, suposto ou insinuado, é elemento essencial para a compreensão do tênue limite entre o indivíduo e a sociedade. Assim , a crítica literária chegou até mesmo a criar um vocábulo para expressar essa avassaladora importância e constante reiteração do romance francês: o bovarismo.
Desta forma, tornam-se evidentes as intenções satíricas de Hilário Tácito, pois,apesar de o enredo de Madame Pommery não apresentar semelhanças, ainda que superficiais, com o do romance francês, os dois livros compartilham a mesma categoria de “romances de costumes”, na qual a crítica social é o elemento preponderante. A distância entre estas duas obras é imensa, mas com certeza a escolha do título serve muitíssimo bem às intenções satíricas e desabusadas de Hilário Tácito, pois o bovarismo, levado às últimas conseqüências e associado ao método determinista dos naturalistas do século XIX, produziu uma literatura de gosto duvidoso, quase alçada à condição de discurso oficialdo cientificismo da época.
Assim, Hilário Tácito alia-se, por um lado, a uma tradição moderna de crítica social e, por outro, afasta-se de uma literatura pseudo-científica e por demais sisuda e desgastada, fazendo valer a ironia e a sátira como elementos de maior alcance para a compreensão dos complexos mecanismos de uma sociedade como a nossa, que, no início deste século, estava dividida entre as heranças patriarcais e a modernização técnica e social acelerada, o que em essência Madame Pommery busca registrar. Linguagem e estilo
Hilário Tácito, Montaigne e Rabelais: paródia e carnavalização
Hilário Tácito é um narrador altamente sofisticado e erudito. Seu estilo é marcado por uma sintaxe repleta de volteiose por uma ironia cortante, acompanhadas de constantes digressões de caráter filosófico.
José Maria de Toledo Malta era um profundo conhecedor da obra de Montaigne, filósofo da renascença francesa, e de seus Essais, que representam uma profunda renovação do pensamento filosófico no século XVI. Montaigne foi, acima de tudo, um grande moralista, um observador agudo dos comportamentos humanos e de suas contradições inextricáveis. Ele se enquadra em uma larga tradição de moralistas franceses, que inclui pensadores como Voltaire, La Rochefoucauld e Vauvernagues, e representa o pensamento filosófico da Renascença francesa, que recoloca a razão como elemento essencial à compreensão do mundo e da condição humana. Seu estilo é irônico e bastante humorado, revelando um ceticismo típico do racionalista que se debate com a crise dos valores tradicionais no início da idade moderna. Sua filosofia e sua moral ultrapassam os estreitos limites da escolástica medieval, incapaz de avaliar plenamente uma nova dinâmica social, oriunda da burguesia e do mercantilismo nascentes.
Outro grande autor do período, e que também é referência importante para Hilário Tácito, é Rabelais e sua obra Gargantua, que tem o riso e o humor como elementos essenciais à crítica social e à compreensão do comportamento humano. O universo ficcional de Rabelais é regido pela lógica dos avessos, ou seja, pela ironia radical que beira ao absurdo e ao nonsense, e inaugura uma renovação na tradição literária européia, pois sua obra possui um dinamismo baseado na ruptura dos estilos tradicionais. Nela, o alto e o baixo se misturam, o sublime e o grotesco caminham juntos, o popular e o erudito se fundem; Rabelais reintroduz o riso como forma de crítica radical. Tais características permitiram ao crítico Mikhail Bahktin desenvolver o conceito de carnavalização, que seria a essência do processo formal da obra rabelaisiana.
Na dicção narrativa de Hilário Tácito, temos a herança dessa tradição francesa que torna o riso e o humor uma forma de crítica aguda da sociedade de seu tempo. Tácito compõe bem esta galeria de moralistas ilustrados, cuja visão desabusada e saborosamente crítica é impiedosa na descrição e na análise dos comportamentos de seus contemporâneos.
Madame Pommery apresenta uma riqueza estilística notável, pautada sobretudo pela intertextualidade, presente no uso da paródia como elemento dinamizador do discurso literário. Assim, desde o título até o núcleo temático da obra, desfilam uma série de referências culturais, literárias e filosóficas brasileiras e européias. Esse romance bem humorado brinca livremente com o estilo de autores ilustres, tais como Flaubert, Rabelais, Montaigne e Machado de Assis e, tanto morfológica como sintaticamente, explora a linguagem erudita e sofisticada dos escritores parnasianos e decadentistas, plena de floreios estilísticos contaminados de esteticismo.
O narrador faz uso do registro coloquial e de um certo “multilingüismo”, uma vez que registra a fala da protagonista espanhola e os hábitos de uma sociedade que se quer culta e que emprega a língua francesa e o latim como forma de privilégio social. Desta forma, o romance é riquíssimo enquanto registro dos hábitos lingüísticos e das referências culturais da sociedade paulistana no auge da cultura do café.A capa da primeira edição e o pseudônimo de José Maria de Toledo Malta.
Um dos elementos mais interessantes que aproximam o leitor da obra e das intenções do pseudo-autor Hilário Tácito é a capa original da primeira edição de 1920, publicada pela Revista do Brasil, de Monteiro Lobato, amigo íntimo do autor.
Nela encontramos, ao centro, uma garrafa de champanhe envolvida pelos louros da vitória, atributo clássico dos heróis e dos poetas. E em torno dela, misturadas a elementos decorativos típicos do art noveau (arabescos, colunas, castiçais, linhas curvas e sinuosas associadas à estilização de elementos florais), vemos quatro inocentes crianças, que bem poderiam ser anjos ou cupidos, carregando outras garrafas de champanhe, numa possível projeção fálica. Acepção que a imagem da garrafa central confirma na sua relação com a coroa de louros. Eis aí a síntese da obra, pois em seguida vamos ler a narrativa da vida da prostituta e cafetina Madame Pommery, dona do bordel Paradis Retrouvé (O Paraíso Reencontrado) e, segundo o irônico narrador Hilário Tácito, uma das ilustres beneméritas do processo de modernização e civilização da Botocúndia (vide a folha de rosto reproduzida no próximo tópico), ou seja, da provinciana São Paulo do início deste século. Assim, é bom lembrar que a Paulicéia aparece associada ao elemento indígena primitivo e arquetípico da civilização brasileira, pois onome a ela atribuído deriva de Botucudos, uma tribo localizada na bacia do Rio Doce e que usava botoques; esta palavrapode também significar caipira.
Porém, um detalhe chama a atenção do leitor mais cuidadoso: uma pequena inscrição ao pé da página do lado esquerdo do desenho:
Ipse Fecit
MCMXIX
ou seja, a data de 1919em algarismos romanos e a expressão latina “o próprio o fez”. Além disso, num exemplar da primeira edição, que pertenceu a Rui Barbosa, encontramos a seguinte dedicatória: Ao Exmo. Snr. Conselheiro Rui Barbosa
A crítica da moral subvertida transmuda-se na ironia, que é a Lógica do avesso. Contudo, só da summa grandeza d’alma, e da serenidade do gênio, atrevo-me a esperar a piedade, e a tolerância, que me hão de relevar a ousadia do gesto humilde com que apresento a V. Exa. frivolidades tão desprimorosas.
S. Paulo 15-IV-1920 -
Hilário Tácito
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