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O Bispo negro(1130) -
Alexandre Herculano - Parte II 5 - Era noite. Em uma das salas mouriscas dos nobres paços de Coimbra havia
grande sarau. Donas e donzelas, assentadas ao redor do aposento, ouviam os
trovadores repetindo ao som da viola e em tom monótono suas magoadas endechas,
ou folgavam e riam com os arremedilhos satíricos dos truões e farsistas. Os
cavaleiros, em pé, ou falavam de aventuras amorosas, de justas e de bofordos,
ou de fossados e lides por terras de mouros fronteiros. Para um dos lados,
porém, entre um labirinto de colunas, que dava saída para uma galeria
exterior, quatro personagens pareciam entretidas em negócio mais grave do que
os prazeres de noite de folguedo o permitiam. Eram estas personagens Afonso
Henriques, Gonçalo Mendes da Maia, Lourenço Viegas e Gonçalo de Sousa, o Bom.
Os gestos dos quatro cavaleiros davam mostras de que eles estavam vivamente
agitados.
- É o que afirma, senhor, o mensageiro - dizia Gonçalo de Sousa - que me
enviou o abade do mosteiro de Tibães, onde o cardeal dormiu uma noite para não
entrar em Braga. Dizem que o papa o envia a vós, porque vos supõe herege. Em
todas as partes por onde o legado passou, em França e em Espanha, vinham a lhe
beijar a mão reis, príncipes e senhores: a eleição de Dom Çoleima não pode,
por certo, ir avante...
- Irá, irá - respondeu o príncipe em voz tão alta que as palavras reboaram
pelas abóbadas do vasto aposento. - Que o legado tenha tento em si! Não sei eu
se haveria aí cardeal ou apostólico que me estendesse a mão para eu lha
beijar, que pelo cotovelo lha não cortasse fora a minha boa espada. Que me
importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas, não as farei eu!
Isto foi o que se ouviu daquela conversação: os três cavaleiros falaram com o
príncipe ainda por muito tempo; mas em voz tão baixa, que ninguém percebeu
mais nada.
6 - Dois dias depois, o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom do cardeal
tremia em cima da sua nédia mula, como se maleitas o houvessem tomado. As
palavras do infante tinham sido ouvidas por muitos, e alguém as havia repetido
ao legado.
Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de ânimo,
encaminhou-se direto ao alcáter real.
O príncipe saiu a recebê-lo acompanhado de senhores e cavaleiros. Com modos
corteses, guiou-o à sala do seu conselho, e aí se passou o que ora ouvireis
contar.
O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante dele o legado,
em um assento raso, posto em cima de um estrado mais elevado: os senhores e
cavaleiros cercavam o filho do conde Henrique.
- Dom cardeal - começou o príncipe -, que viestes vós fazer a minha terra?
Posto que de Roma só mal me tenha vindo, creio me trazeis agora algum ouro,
que de seus grandes haveres me manda o senhor papa para estas hostes que faço
e com que guerreio, noite e dia, os infiéis da fronteira. Se isto trazeis,
aceitar-vos-ei: depois, desembaraçadamente podeis seguir vossa viagem.
No ânimo do legado a cólera sobrepujou o temor, quando ouviu as palavras do
príncipe, que eram de amargo escárnio.
- Não a trazer-vos riquezas - atalhou ele -, mas a ensinar-vos a fé vim eu;
que dela parece vos esquecestes, tratando violentamente o bispo Dom Bernardo e
pondo em seu lugar um bispo sagrado com vossas manoplas, vitoriado só por vós
com palavras blasfemas e malditas...
- Calai-vos, dom cardeal - gritou Afonso Henriques - que mentis pela gorja!
Ensinar-me a fé? Tão bem em Portugal como em Roma sabemos que Cristo nasceu da
Virgem; tão certo, como vós outros romãos, cremos na Santa Trindade. Se a
outra cousa vindes, amanhã vos ouvirei: hoje ir-vos podeis a vossa pousada.
E ergueu-se: os olhos chamejavam-lhe de furror. Toda a ousadia do legado
desapareceu como fumo; e, sem atinar com resposta, saiu do alcácer.
7 - O galo tinha cantado três vezes: pelo arrebol da manhã, o cardeal partia
aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda repousadamente.
O príncipe foi um dos que despertaram mais cedo. Os sinos harmoniosos da Sé
costumavam acordá-lo tocando as ave-marias: mas naquele dia ficaram mudos; e,
quando ele se ergueu, havia mais de uma hora que o Sol subia para o alto dos
céus da banda do Oriente.
- Misericórdia!, misericórdia! - gritavam devotamente homens e mulheres à
porta do alcácer, com alarido infernal. O príncipe ouviu aquele ruído.
- Que vozes são estas que soam? - perguntou ele a um pajem.
O pajem respondeu-lhe chorando:
- Senhor, o cardeal excomungou esta noite a cidade e partiu: as igrejas estão
fechadas; os sinos já não há quem os toque; os clérigos fecham-se em suas
pousadas. A maldição do santo padre de Roma caiu sobre nossas cabeças.
Outras voz soou à porta do alcácer:
- Misericórdia!, misericórdia!
- Que enfreiem e selem o meu cavalo de batalha. Pajem, que enfreiem e selem o
meu melhor corredor.
Isto dizia o príncipe encaminhando-se para a sala de armas. Aí envergou à
pressa um saio de malha e pegou em um montante que dois portugueses dos de
hoje apenas valeriam a alevantar do chão. O pajem tinha saído, e dali a pouco
o melhor cavalo de batalha que havia em Coimbra tropeava e rinchava à porta do
alcácer.
8 - Um clérigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de Coimbra
seguia o caminho da Vimieira e, de instante a instante, espicaçava os ilhais
da cavalgadura com seus acicates de prata. Em outras duas mulas iam ao lado
dele dois mancebos com caras e meneios de beatos, vestidos de opas e
tonsurados, mostrando em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou
ouviam as gramaticais. Eram o cardeal, que se ia a Roma, e dois sobrinhos
seus, que o haviam acompanhado.
Entretanto o príncipe partida de Coimbra sozinho. Quando pela manhã Gonçalo de
Sousa e Lourenço Viegas o procuraram em seus paços, souberam que era partido
após o legado. Temendo o carácter violento de Afonso Henriques, os dois
cavaleiros seguiram-lhe a pista à rédea solta, e iam já muito longe quando
viram o pó que ele alevantava, correndo ao longo da estrada, e o cintilar do
sol, batendo-lhe de chapa na cervilheira, semelhante ao dorso de um crocodilho.
Os dois fidalgos esporearam com mais força os ginetes, e breve alcançaram o
infante.
- Senhor, senhor; aonde ides sem vossos leais cavaleiros, tão cedo e
açodadamente?
- Vou pedir ao legado do papa que se amerceie de mim...
A estas palavras, os cavaleiros transpunham uma assomada que encobria o
caminho: pela encosta abaixo ia o cardeal com os dois mancebos das opas e
cabelos tonsurados.
- Oh! ... - disse o príncipe. Esta única interjeição lhe fugiu da boca; mas
que discurso houvera aí que a igualasse? Era o rugido de prazer do tigre, no
momento em que salta do fojo sobre a preia descuidada.
- Memento mei, Domine, secundum magnam misericordiam tuam! - rezou o cardeal
em voz baixa e trémula, quando, ouvindo o tropear dos cavalos, voltou os olhos
e conheceu Afonso Henriques.
Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por ele, travou-lhe do
cabeção do vestido e, de relance, ergueu o monante: felizmente os dois
cavaleiros arrancaram as espadas e cruzaram-nas debaixo do golpe, que já
descia sobre a cabeça do legado. Os três ferros feriram fogo; mas a pancada
deu em vão, aliás i crânio do pobre clérico teria ido fazer mais de quadro
redemoinhos nos ares.
- Senhor, que vos perdeis e nos perdeis, ferindo o ungido de Deus - gritaram
os dois fidalgos, com vozes aflitas.
- Príncipe - disse o velho, chorando -, não me faças mal; que estou à tua
mercê! - Os dois mancebos também choravam.
Afonso Henriques deixou descair o montante, e ficou em silêncio alguns
momentos.
- Estás à minha mercê? - disse ele por fim. - Pois bem! Viverás, se desfizeres
o mal que causaste. Que seja alevantada a excomunhão lançada sobre Coimbra, e
jura-me, em nome do apostólico, que nunca mais em meus dias será posto
interdito nesta terra portuguesa, conquistada aos Mouros por preço de tanto
sangue. Em reféns deste pacto ficarão teus sobrinhos. Se, no fim de quatro
meses, de Roma não vierem letras de bênção, tem tu por certo que as cabeças
lhes voarão de cima dos ombros. Apraz-te este contrato?
- Sim, sim! - respondeu o legado com voz sumida.
- Juras?
- Juro.
- Mancebos, acompanhai-me.
Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado, que, com muitas
lágrimas, se despediu deles, e sòzinho seguiu o caminho da terra de Santa
Maria.
Daí a quatro meses, D. Çoleima dizia missa pontifical na capela-mor da Sé de
Coimbra, e os sinos da cidade repicavam alegremente. Tinham chegado letras de
bênção de Roma; e os sobrinhos do cardeal, montados em boas mulas, iam
cantando devotamente pelo caminho da Vimieira o salmo que começa:
In exitu Israel de AEgypto.
Conta-se, todavia, que o papa levara a mal, no princípio, o pacto feito pelo
legado; mas que, por fim, tivera dó do pobre velho, que muitas vezes lhe
dizia:
- Se tu, santo padre, viras sobre ti um cavaleiro tão bravo ter-te pelo
cabeção, e a espada nua para te cortar a cabeça, e seu cavalo, tão feroz,
arranhar a terra, que já te fazia a cova para ter enterrar, não sòmente deras
as letras, mas também o papado e a cadeira apostolical.
NOTA
A lenda precedente é tirada das crónicas de Acenheiro, rol de mentiras e
disparates publicado pela nossa Academia, que teria procedido mais
judiciosamente em deixá-las no pó das bibliotecas, onde haviam jazido em paz
por quase três séculos. A mesma lenda tinha sido inserida pouco anteriormente
na crónica de Afonso Henriques por Duarte Galvão, formando a substância de
quatro capítulos, que foram suprimidos na edição deste autor, e que mereceram
da parte do académico D. Francisco de S. Luís uma grave refutação. Toda a
narrativa das circunstâncias que se deram no facto, aliás verdadeiro, da
prisão de D. Teresa, das tentativas oposicionistas do bispo de Coimbra, da
eleição do bispo negro, da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a
história daquela época. A tradição é falsa a todas as luzes; mas também é
certo que ela se originou de alguma acto de violência praticado nesse reinado
contra algum cardeal legado. Um historiador coevo e, posto que estrangeiro,
bem informado geralmente acerca dos sucessos do nosso país, o inglês Rogério
de Hoveden, narra um facto, acontecido em Portugal, que, pela analogia que tem
com o conto do bispo negro, mostra a origem da fábula. A narrativa do cronista
está indicando que o acontecimento fizera certo ruído na Europa, e a própria
confusão de datas e de indivíduos que aparece no texto de Hoveden mostra que o
sucesso era anterior e andava já alterado na tradição. O que é certo é que o
achar-se esta conservada fora de Portugal desde o século duodécimo por um
escritor que Ruy de Pina e Acenheiro não leram (porque foi publicado no século
décimo sétimo) prova que ela remonta entre nós, por maioria de razão, também
ao século duodécimo, embora alterada, como já a vemos no cronista inglês. Eis
a notável passagem a que aludimos, e que se lê a página 640 da edição de
Hoveden, por Savile:
“No mesmo ano (1187) o cardeal Jacinto, então legado em toda a Espanha, depôs
muitos prelados (abbates), ou por culpas deles ou por ímpeto próprio, e como
quisesse depor o bispo de Coimbra, o rei Afonso (Henrique) não consentiu que
ele fosse deposto e mandou ao dito cardeal que saísse da sua terra, quando não
cortar-lhe-ia um pé. |