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O Cobrador - Rubem Fonseca
- Parte II
Uma caixa preta debaixo do
braço. Falo com a língua presa que sou o bombeiro que vai fazer o serviço no
apartamento duzentos e um. O porteiro acha graça na minha língua presa e me
manda subir. Começo do último andar. Sou o bombeiro (língua normal agora) vim
fazer o serviço. Pela abertura, dois olhos: ninguém chamou bombeiro não.
Desço para o sétimo, a mesma coisa. Só vou ter sorte no primeiro andar. A
empregada me abriu a porta e gritou lá para dentro, é o bombeiro. Surgiu uma
moça de camisola, um vidro de esmalte de unhas na mão, bonita, uns vinte e
cinco anos. Deve haver um engano, ela disse, nós não precisamos de bombeiro.
Tirei o Cobra de dentro da caixa. Precisa sim, é bom ficarem quietas senão
mato as duas. Tem mais alguém em casa? O marido estava trabalhando e o menino
no colégio. Amarrei a empregada, fechei sua boca com esparadrapo. Levei a dona
pro quarto. Tira a roupa. Não vou tirar a roupa, ela disse, a cabeça
erguida. Estão me devendo xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta, anda
logo. Dei-lhe um murro na cabeça. Ela caiu na cama, uma marca vermelha na cara.
Não tiro. Arranquei a camisola, a calcinha. Ela estava sem sutiã. Abri-lhe as
pernas. Coloquei os meus joelhos sobre as suas coxas. Ela tinha uma pentelheira
basta e negra. Ficou quieta, com olhos fechados. Entrar naquela floresta escura
não foi fácil, a buceta era apertada e seca. Curvei-me, abri a vagina e cuspi
lá dentro, grossas cusparadas. Mesmo assim não foi fácil, sentia o meu pau
esfolando. Deu um gemido quando enfiei o cacete com toda força até o fim.
Enquanto enfiava e tirava o pau eu lambia os peitos dela, a orelha, o pescoço,
passava o dedo de leve no seu cu, alisava sua bunda. Meu pau começou a ficar
lubrificado pelos sucos da sua vagina, agora morna e viscosa. Como já não
tinha medo de mim, ou porque tinha medo de mim, gozou primeiro do que eu. Com o
resto da porra que saía do meu pau fiz um círculo em volta do umbigo dela. Vê
se não abre mais a porta pro bombeiro, eu disse, antes de ir embora. Saio do
sobrado da rua Visconde de Maranguape. Uma panela em cada molar cheio de cera do
Dr. Lustosa/ mastigar com os dentes da frente/ punheta pra foto de revista/
livros roubados./ Vou para a praia. Duas mulheres estão conversando na
areia; uma tem o corpo queimado de sol, um lenço na cabeça; a outra é clara,
deve ir pouco à praia; as duas têm o corpo muito bonito; a bunda da clara é a
bunda mais bonita entre todas que já vi. Sento perto, e fico olhando. Elas
percebem meu interesse e começam logo a se mexer, dizer coisas com o corpo,
fazer movimentos aliciantes com os rabos. Na praia somos todos iguais, nós os
fodidos e eles. Até que somos melhores pois não temos aquela barriga grande e
a bunda mole dos parasitas. Eu quero aquela mulher branca! Ela inclusive está
interessada em mim, me lança olhares. Elas riem, riem, dentantes. Se despedem e
a branca vai andando na direção de Ipanema, a água molhando os seus pés. Me
aproximo e vou andando junto, sem saber o que dizer. Sou uma pessoa tímida,
tenho levado tanta porrada na vida, e o cabelo dela é fino e tratado, o seu
tórax é esbelto, os seios pequenos, as coxas são sólidas e redondas e
musculosas e a bunda é feita de dois hemisférios rijos. Corpo de bailarina. Você
estuda balé? Estudei, ela diz. Sorri para mim. Como é que alguém pode ter
boca tão bonita? Tenho vontade de lamber dente por dente da sua boca. Você
mora por aqui?, ela pergunta. Moro, minto. Ela me mostra um prédio na praia,
todo de mármore. De volta à rua Visconde de Maranguape. Faço hora para ir
na casa da moça branca. Chama-se Ana. Gosto de Ana, palindrômico. Afio o
facão com uma pedra especial, o pescoço daquele janota era muito duro. Os
jornais abriram muito espaço para a morte do casal que eu justicei na Barra. A
moça era filha de um desses putos que enriquecem em Sergipe ou Piauí, roubando
os paus-de-araras, e depois vêm para o Rio, e os filhos de cabeça chata já
não têm mais sotaque, pintam o cabelo de louro e dizem que são descendentes
de holandeses. Os colunistas sociais estavam consternados. Os granfas que eu
despachei estavam com viagem marcada para Paris. Não há mais segurança nas
ruas, dizia a manchete de um jornal. Só rindo. Joguei uma cueca pro alto e
tentei cortá-la com o facão, como o Saladino fazia (com um lenço de seda) no
cinema. Não se fazem mais cimitarras como antigamente/ Eu sou uma hecatombe/
Não foi nem Deus nem o Diabo/ Que me fez um vingador/ Fui eu mesmo/ Eu sou o
Homem Pênis/ Eu sou o Cobrador./ Vou no quarto onde Dona Clotilde está deitada
há três anos. Dona Clotilde é dona do sobrado. Quer que eu passe o
escovão na sala?, pergunto. Não meu filho, só queria que você me desse a
injeção de trinevral antes de sair. Fervo a seringa, preparo a injeção. A
bunda de Dona Clotilde é seca como uma folha velha e amassada de papel de
arroz. Você caiu do céu, meu filho, foi Deus que te mandou, ela diz. Dona
Clotilde não tem nada, podia levantar e ir comprar coisas no supermercado. A
doença dela está na cabeça. E depois de três anos deitada, só se levanta
para fazer pipi e cocô, ela não deve mesmo ter forças. Qualquer dia dou-lhe
um tiro na nuca. Quando satisfaço meu ódio sou possuído por uma sensação
de vitória, de euforia que me dá vontade de dançar — dou pequenos uivos,
grunhidos, sons inarticulados, mais próximos da música do que da poesia, e
meus pés deslizam pelo chão, meu corpo se move num ritmo feito de gingas e
saltos, como um selvagem, ou um macaco. Quem quiser mandar em mim pode
querer, mas vai morrer. Estou querendo muito matar um figurão desses que
mostram na televisão a sua cara paternal de velhaco bem-sucedido, uma pessoa de
sangue engrossado por caviares e champãs. Come caviar/ teu dia vai chegar./
Estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. A moça
do prédio de mármore? Entro e ela está me esperando, sentada na sala, quieta,
imóvel, o cabelo muito preto, o rosto branco, parece uma fotografia. Vamos
sair, eu digo para ela. Ela me pergunta se estou de carro. Digo que não tenho
carro. Ela tem. Descemos pelo elevador de serviço e saímos na garagem,
entramos num Puma conversível. Depois de algum tempo pergunto se posso
dirigir e trocamos de lugar. Petrópolis está bem?, pergunto. Subimos a serra
sem dizer uma palavra, ela me olhando. Quando chegamos a Petrópolis ela pede
que eu pare num restaurante. Digo que não tenho dinheiro nem fome, mas ela tem
as duas coisas, come vorazmente como se a qualquer momento fossem levar o prato
embora. Na mesa ao lado um grupo de jovens bebendo e falando alto, jovens
executivos subindo na sexta-feira e bebendo antes de encontrar a madame toda
enfeitada para jogar biriba ou falar da vida alheia enquanto traçam queijos e
vinhos. Odeio executivos. Ela acaba de comer. E agora? Agora vamos voltar, eu
digo, e descemos a serra, eu dirigindo como um raio, ela me olhando. Minha vida
não tem sentido, já pensei em me matar, ela diz. Paro na rua Visconde de
Maranguape. É aqui que você mora? Saio sem dizer nada. Ela sai atrás: vou te
ver de novo? Entro e enquanto vou subindo as escadas ouço o barulho do carro
partindo. Top Executive Club. Você merece o melhor relax, feito de carinho e
compreensão. Nossas massagistas são completas. Elegância e discrição. Fica
quieto senão chumbo a sua barriga executiva. Ele tem o ar petulante e ao
mesmo tempo ordinário do ambicioso ascendente egresso do interior, deslumbrado
de coluna social, comprista, eleitor da Arena, católico, cursilhista, patriota,
mordomista e bocalivrista, os filhos estudando na PUC, a mulher transando
decoração de interiores e sócia de butique. Como é executivo, a
massagista te tocou punheta ou chupou teu pau? Você é homem, sabe como é,
entende essas coisas, ele disse. Papo de executivo com chofer de táxi ou
ascensorista. De Botucatu para a Diretoria, acha que já enfrentou todas as
situações de crise. Não sou homem porra nenhuma, digo suavemente, sou o
Cobrador. Sou o Cobrador!, grito. Ele começa a ficar da cor da roupa. Pensa
que sou maluco e maluco ele ainda não enfrentou no seu maldito escritório
refrigerado. Vamos para sua casa, eu digo. Eu não moro aqui no Rio, moro em
São Paulo, ele diz. Perdeu a coragem, mas não a esperteza. E o carro?,
pergunto. Carro, que carro? Este carro, com a chapa do Rio? Tenho mulher e três
filhos, ele desconversa. Que é isso? Uma desculpa, senha, habeas-corpus,
salvo-conduto? Mando parar o carro. Puf, puf, puf, um tiro para cada filho, no
peito. O da mulher na cabeça, puf. Para esquecer a moça que mora no
edifício de mármore vou jogar futebol no aterro. Três horas seguidas, minhas
pernas todas escalavradas das porradas que levei, o dedão do pé direito
inchado, talvez quebrado. Sento suado ao lado do campo, junto de um crioulo
lendo O Dia. A manchete me interessa, peço o jornal emprestado, o cara diz se
tu quer ler o jornal por que não compra? Não me chateio, o crioulo tem poucos
dentes, dois ou três, tortos e escuros. Digo, tá, não vamos brigar por isso.
Compro dois cachorros-quentes e duas cocas e dou metade pra ele e ele me dá o
jornal. A manchete diz: Polícia à procura do louco da Magnum. Devolvo o jornal
pro crioulo. Ele não aceita, ri para mim enquanto mastiga com os dentes da
frente, ou melhor com as gengivas da frente que de tanto uso estão afiadas como
navalhas. Notícia do jornal: Um grupo de grã-finos da zona sul em grandes
preparativos para o tradicional Baile de Natal — Primeiro Grito de Carnaval. O
baile começa no dia vinte e quatro e termina no dia primeiro do Ano Novo; vêm
fazendeiros da Argentina, herdeiros da Alemanha, artistas americanos, executivos
japoneses, o parasitismo internacional. O Natal virou mesmo uma festa. Bebida,
folia, orgia, vadiagem. O Primeiro Grito de Carnaval. Só rindo. Esses caras
são engraçados. Um maluco pulou da ponte Rio - Niterói e boiou doze horas
até que uma lancha do Salvamar o encontrou. Não pegou nem resfriado. Um
incêndio num asilo matou quarenta velhos, as famílias celebraram.
Acabo de dar a injeção de trinevral em Dona Clotilde quando tocam a campainha.
Nunca tocam a campainha do sobrado. Eu faço as compras, arrumo a casa. Dona
Clotilde não tem parentes. Olho da sacada. É Ana Palindrômica. Conversamos na
rua. Você está fugindo de mim?, ela pergunta. Mais ou menos, digo. Vou com ela
pro sobrado. Dona Clotilde, estou com uma moça aqui, posso levar pro quarto?
Meu filho, a casa é sua, faça o que quiser, só quero ver a moça. Ficamos
em pé ao lado da cama. Dona Clotilde olha para Ana um tempo enorme. Seus olhos
se enchem de lágrimas. Eu rezava todas as noites, ela soluça, todas as noites
para você encontrar uma moça como essa. Ela ergue os braços magros cobertos
de finas pelancas para o alto, junta as mãos e diz, oh meu Deus, como vos
agradeço! Estamos no meu quarto, em pé, sobrancelha com sobrancelha, como
no poema, e tiro a roupa dela e ela a minha e o corpo dela é tão lindo que
sinto um aperto na garganta, lágrimas no meu rosto, olhos ardendo, minhas mãos
tremem e agora estamos deitados, um no outro, entrançados, gemendo, e mais, e
mais, sem parar, ela grita; a boca aberta, os dentes brancos como de um elefante
jovem, ai, ai, adoro a tua obsessão!, ela grita, água e sal e porra jorram de
nossos corpos, sem parar. Agora, muito tempo depois, deitados olhando um para
o outro hipnotizados até que anoitece e nossos rostos brilham no escuro e o
perfume do corpo dela traspassa as paredes do quarto. Ana acordou primeiro do
que eu e a luz está acesa. Você só tem livros de poesia? E estas armas todas,
pra quê? Ela pega a Magnum no armário, carne branca e aço negro, aponta pra
mim. Sento na cama. Quer atirar? pode atirar, a velha não vai ouvir. Mais
para cima um pouco. Com a ponta do dedo suspendo o cano até a altura da minha
testa. Aqui não dói. Você já matou alguém? Ana aponta a arma pra minha
testa. Já. Foi bom? Foi. Como? Um alívio. Como nós dois na
cama? Não, não, outra coisa. O outro lado disso. Eu não tenho medo de
você, Ana diz. Nem eu de você. Eu te amo. Conversamos até amanhecer.
Sinto uma espécie de febre. Faço café pra Dona Clotilde e levo pra ela na
cama. Vou sair com Ana, digo. Deus ouviu minhas preces, diz a velha entre goles. Hoje
é dia vinte e quatro de dezembro, dia do Baile de Natal ou Primeiro Grito de
Carnaval. Ana Palindrômica saiu de casa e está morando comigo. Meu ódio agora
é diferente. Tenho uma missão. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora
sei. Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria
melhor e mais justo. Ana me ensinou a usar explosivos e acho que já estou
preparado para essa mudança de escala. Matar um por um é coisa mística e
disso eu me libertei. No Baile de Natal mataremos convencionalmente os que
pudermos. Será o meu último gesto romântico inconseqüente. Escolhemos para
iniciar a nova fase os compristas nojentos de um supermercado da zona sul.
Serão mortos por uma bomba de alto poder explosivo. Adeus, meu facão, adeus
meu punhal, meu rifle, meu Colt Cobra, adeus minha Magnum, hoje será o último
dia em que vocês serão usados. Beijo o meu facão. Explodirei as pessoas,
adquirirei prestigio; não serei apenas o louco da Magnum. Também não sairei
mais pelo parque do Flamengo olhando as árvores; os troncos, a raiz, as folhas,
a sombra, escolhendo a árvore que eu queria ter, que eu sempre quis ter, num
pedaço de chão de terra batida. Eu as vi crescer no parque e me alegrava
quando chovia e a terra se empapava de água, as folhas lavadas de chuva, o
vento balançando os galhos, enquanto os carros dos canalhas passavam velozmente
sem que eles olhassem para os lados. Já não perco meu tempo com sonhos. O
mundo inteiro saberá quem é você, quem somos nós, diz Ana. Notícia: O
Governador vai se fantasiar de Papai Noel. Notícia: menos festejos e mais
meditação, vamos purificar o coração. Notícia: Não faltará cerveja. Não
faltarão perus. Notícia: Os festejos natalinos causarão este ano mais
vítimas de trânsito e de agressões do que nos anos anteriores. Policia e
hospitais preparam-se para as comemorações de Natal. O Cardeal na televisão:
a festa de Natal está deturpada, o seu sentido não é este, essa história de
Pagai Noel é uma invenção infeliz. O Cardeal afirma que Papai Noel é um
palhaço fictício. Véspera de Natal é um bom dia para essa gente pagar o
que deve, diz Ana. O Papai Noel do baile eu mesmo quero matar com o facão,
digo. Leio para Ana o que escrevi, nosso manifesto de Natal, para os jornais.
Nada de sair matando a esmo, sem objetivo definido. Eu não sabia o que queria,
não buscava um resultado prático, meu ódio estava sendo desperdiçado. Eu
estava certo nos meus impulsos, meu erro era não saber quem era o inimigo e por
que era inimigo. Agora eu sei, Ana me ensinou. E o meu exemplo deve ser seguido
por outros, muitos outros, só assim mudaremos o mundo. É a síntese do nosso
manifesto. Ponho as armas numa mala. Ana atira tão bem quanto eu, só não
sabe manejar o facão, mas essa arma agora é obsoleta. Damos até logo à Dona
Clotilde. Botamos a mala no carro. Vamos ao Baile de Natal. Não faltará
cerveja, nem perus. Nem sangue. Fecha-se um ciclo da minha vida e abre-se outro.
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