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Palha
de Arroz - Fontes Ibiapina - Parte II
Mas em Palha de Arroz há,
ainda que curtíssimo, um obviamente dispensável Epílogo ou Comentário
(“Pela primeira e última vez na vida, depois da morte de Pau de Fumo, Chico
da Benta não veio ao mundo. Morreu de verdade. Acabou-se o homem”), uma vez
que o texto, de fato, se encerra mesmo, de maneira bela e densa, um pouco
antes, no parágrafo anterior (“Aí soltou uma gargalhada espalhafatosa e
atirou-se, das alturas do meio da ponte, nas águas do rio velho”).Ademais,
do Desfecho ou Desenlace em questão diga-se de seu conteúdo que é, ele,
plenamente previsível: inúmeras vezes o protagonista Pau de Fumo anuncia que
se suicidará no Poço da Usina, o que acaba, afinal, acontecendo, embora não
exatamente nesse local, mas no “rio velho”, o Parnaíba. É bem possível
que Ibiapina tenha, como escritor, perdido, aqui como em outras passagens, uma
boa oportunidade de surpreender o leitor, se rompesse, ao final, essa
expectativa o tempo todo fixada, a marteladas, a exemplo do que fez ao deixar
em suspenso a autoria do furto das jóias de Maria Piribido.
Com efeito, quando todos os leitores esperávamos que tivesse sido Pau de Fumo
o ladrão, ou mesmo outro, eis que emerge a surpresa, que eleva, sobremaneira,
a tensão narrativa: o gatuno fora, e ninguém, ninguém mesmo!, esperava por
isso, o negro Parente, irmão de sangue de Piribido, e intrigado, ele, com a
bela mana, por ser a moça uma prostituta (parentesco este que só agora,
neste episódio, se revela), num lance, repetimos, de excelente tessitura
romanesca.
No entanto, pode mesmo ser que Fontes quisesse, ao suicidar, de maneira
anunciadíssima, a Pau de Fumo, expressar, implicitamente, que este ato
extremado (o texto está, aliás, cheio deles, como o de Ceição, bastante
detalhado, o de Serafina, Maria Celeste, etc) não ocorre nunca de supetão,
assim assim, de um momento a outro, mas advém de longa, e dolorosa, e solitária,
e desesperada, preparação interior. Se esta foi a intenção, ponto, então,
para o escritor!
Das muitas personagens que povoam esta narrativa podemos, aliás, dizer que
giram, elas, em torno de Pau de Fumo e negro Parente, protagonistas tão
imbricados um no outro (em nível, mesmo, de Philos) que, se considerados,
ambos, nesta interconexão, temos aí o núcleo básico ou primário da
textura romanesca, aos quais os demais núcleos (Genoveva, Ceição, Maria Preá,
Antonino, etc) se agregam, em hierarquias diferentes e não em coordenação
apenas, o que resultaria, repetimos, fosse este o caso, uma novela.
São, aliás, estas personagens, Pau de Fumo e negro Parente, semi-complexas
ou quase redondas, posto que têm vida interior intensa e contradições não
poucas. Ademais, cheio de personagens biogênicos – os que, ficcionais na
narrativa, tiveram existência fática fora dela, como o delegado de polícia,
o governador do Estado, o presidente da República – é, no entanto, a abiogênese,
isto é, a ficcionalidade mesma, que produz quase todos os demais seres,
notadamente os principais, sem que deixemos de mencionar, por importantíssimo
à compreensão da obra em foco, que os personagens de base e o de topo, ou
seja, aqueles que emolduram a narrativa, fixando-lhe o limite do universo pelo
qual transitam os demais, são, na base, o capitão Vilmar, chefe da polícia
do governador e, no topo, o ditador-presidente Getúlio Vargas,
comandante-em-chefe do Estado Novo. Percebem, leitores, que são estes que
emolduram, por baixo e por cima, a narrativa, não a deixando espraiar-se
demais?É interessante ainda, nessas notações sobre Palha de Arroz,
atentarmos para o ciclo de vida-morte-ressurreição de Chico da Benta, o Pau
de Fumo. Destarte, o romance começa com a vida de Pau de Fumo, o ladrão,
advinda da “morte” de Chico da Benta, o destacado estudante do Liceu, que,
devido ao falecimento dos pais, não pôde prosseguir os estudos. Mais
tarde, em razão do acasalamento e posterior casamento com Ceição,
“morre” Pau de Fumo, o ladrão, e renasce Chico da Benta, o carregador,
detentor da devida carta profissional. Entretanto, com o fim da II
Guerra, dá-se o conseqüente barateamento da gasolina e o surgimento de
carros em poder de qualquer “pé-rapado”, provocando a “morte” do
trabalhador Chico da Benta, cuja atividade se vê quase inviabilizada por
essas mudanças, e re-nasce, pela última vez, o ladrão Pau de Fumo, que se
suicida nas águas do Parnaíba, onde, entre guardas que o levavam preso para
fora do Piauí, se atira ao rio, como se fosse o Parnaíba o sempre desejado
Poço da Usina. Assim, como num círculo vicioso, a narrativa abre não
com Chico da Benta (isto fica sendo o que, em boa teoria literária, se chama
de elipse narrativa parcial), mas com Pau de Fumo, e se encerra não com Chico
da Benta, mas também com Pau de Fumo, como a indicar que, sem mudanças
profundas nas estruturas sociais injustas, o pobre nasce pobre e pobre morre,
chegando, no máximo, em alguns momentos, a Chico da Benta. Isto demonstra,
aliás, o quanto era, à época, como ainda hoje, falsos os caminhos dessa
abstrata ascensão social tão demagogicamente apregoada pelas elites miúdas
de sempre, e que só ocorre, efetivamente, como exceção à regra, vigente,
de uma sociedade de classes, quase de castas.
2.2. Marcas de estilo e técnicas narrativas
Podemos agora, à guisa de síntese, dizer que o estilo de Fontes Ibiapina,
neste romance Palha de Arroz, se expressa, no interior de uma linguagem
moderna, marcada por períodos curtos e, dentro deles, por frases mínimas e
sincopadas, através dos seguintes, e principais, estilemas:
a) universo vocabular regional, entremeado de ditos populares;
b) parênteses de introspecção;
c) diálogos rápidos, e intermitentes, ao discurso do narrador;
d) utilização intensa do discurso indireto livre, e mesmo do indireto, com
ênfase, este, na repetição, à inquérito, do que;
e) retomadas, retomadas, retomadas...
Já as técnicas narrativas empregadas por Fontes Ibiapina, no texto em apreço,
são, entre outras, os flashbacks (em geral indiretos, pois que construídos
desde a imaginação do personagem, e não diretamente pelo narrador), os
flashforwards, também indiretos, pelo mesmo motivo, a inserção de missiva,
que se dá no cap. XXX, funcionando, inclusive, esta inserção, como sumarização,
outro recurso de narração bastante utilizado pelo autor, sem falar na
parentetização, mais preponderantemente dissertativa, no caso (por conta, ao
máximo das vezes, do exibicionismo dos conhecimentos, na verdade meramente
escolares, de Pau de Fumo).
Afora isto, há, ainda, processos de anagramização, infelizmente pouco
elaborados, pois exageradamente óbvios, como o nome do governador da época,
e indício, assaz forte, de apenas razoável planejamento textual e pouca
reescritura, parecendo mesmo um texto entregue para edição após a
“primeira mijada”, o que explicaria, ainda que não justifique, uma certa
falta, ao romance, de maior “acabamento”, tão comum, a obsessiva
reescrituração, entre escritores mais exigentes e menos entre os que, mesmo
excelentes, são na verdade mais “contadores de estórias”, estirpe a que
pertence, sem dúvida alguma, Fontes Ibiapina, ao lado de muita gente boa, com
Érico Veríssimo, Jorge Amado, Magalhães da Costa. Aliás isto, a muito
provável pouca reescrituração de Palha de Arroz, é denunciado também, e não
por acaso, no uso de reticências e exclamações que, de tão excessivas,
chega a irritar até o leitor menos atento.
Contudo, a par das virtudes, inúmeras mesmo, do romance Palha de Arroz, já
neste estudo ressaltadas, uma há em específico que, pela sua extrema
poeticidade e rara beleza, marca, de modo indelével, qualquer receptor
minimamente sensível.
Trata-se, e este exercício de leitura até aqui encetado jamais poderia
encerrar-se sem que se desse o indispensável sublinhamento aos magníficos
“pescadores de defuntos” (no caso, Pedro Tampa e, principalmente, negro
Parente e seu filho e sucessor, Antonino). Na verdade, com esta invenção,
ou seja, com esses admiráveis “pescadores de defuntos”, Fontes Ibiapina
plenifica de pungente lirismo o que, em geral, é drama, e, ao elevar a grande
altura a atmosfera de poesia (que é o que faz, em verdade, a prosa tornar-se
literatura), retira de Palha de Arroz a simples condição, embora importantíssima,
de mero documento, para inscrevê-lo entre os mais significativos exemplares
da ficção em prosa da literatura brasileira. Basta ao leitor, se quiser
boas doses de poesia, ler o romance notadamente nas passagens em que surgem no
texto, e imergem no/emergem do rio, os “pescadores de defuntos” para nos
darmos conta de que são, em última instância, esses “pescadores” não,
é certo, integrantes do núcleo narrativo central do romance, porém, sem dúvida,
os responsáveis diretos pela elevação da poética de Palha de Arroz, que
poderia perfeitamente, sem nenhum prejuízo ou desd´ouro ao conjunto da
narrativa, intitular-se, belamente, Pescadores de Defuntos.3. Excerto do
romance: trechos do cap. XXIII
“À margem do rio, o povo se aglomerava. Sempre havia aglomeração
quando morria gente afogada. Nunca, porém, uma outra foi tão intensa quanto
aquela. Seria por ser uma moça bonita e branca que as águas levaram daquela
vez?
O mais interessante, porém, provinha de aquilo ali não ser lugar próprio de
moça bonita e branca tomar banho. Moça branca, rica e fina toma banho em
casa. Em chuveiro, porque acha bom a água fria cair em sua pele macia.
Ou mesmo em praia, pra mostrar, através do maiô, a moldura do corpo
bem-feito. Mas ali? Naquele cais nojento de canoeiros, pescadores, balseiros,
estivadores, carroceiros, porcos d´água, lavandeiras e outras pessoas da
raia miúda? Não era lugar pra moça de gente rica tomar banho.
Aquela mesma morreu porque quis, de propósito – era a voz do povo que
estava ali:– Morreu de propósito. Não estava nem tomando banho. Suicídio,
no duro!Aparecera até boatos que alguém vira como. Caiu nas águas com roupa
e tudo.
– Foi suicídio. Talvez que algum desgosto sem remédio na vida. Namoro.
Caso de amor, na certa.Antonino mergulhava. Com aquela vontade maluca na cabeça.
Assim uma vontade grande, mas que nem ele mesmo sabia dizer o quê. Seria o
primeiro defunto a pescar. Uma defunta. Nova e bonita. Conhecia-a. Dona
Serafina. Levara ainda umas cartas do padre Salviano pra ela. (...)
(...) Na opinião de muitos, se Parente chegasse ali, logo que encontraria a
defunta. Aquele, sim, sabia nadar e mergulhar com perfeição. Parecia até
que tinha fôlego d´água.
Era bem fácil aquele garoto ainda passando a rapaz nada conseguir. Nadava e
mergulhava bem, era verdade. Nadava mesmo melhor que qualquer um outro. Se
duvidasse, melhor até mesmo do que o negro Parente que, até então, foi o
melhor nadador naquelas águas.
Mas ainda muito novo para uma infuca daquelas. Marinheiro de primeira viagem.
Neófito. Aprendiz de pescador de defuntos. Muito novo ainda...
Houve até apostas. (...)
(...) Antonino mergulhava num desespero tremendo. Decepção não ia passar. Não
ia passar vergonha diante de tanta gente que o tinha em conta do melhor
nadador daquelas águas. Havia de encontrá-la --- desse no que desse,
acontecesse o que acontecesse.
Parente chegou. Foi logo que o povo lhe pediu que entrasse no rio, que
procurasse a moça. Tinham certeza que com ele era mais do que na certa
encontrá-la.
– Não. Não é preciso. Aquele moreno é meu filho. Quero ver mesmo se ele
sabe ou não com perfeição fazer o serviço. Deixem o menino vadear nas águas,
que nadar ele sabe e a moça ele encontra.Aí correu logo, por todo aquele
povo, que o menino era filho do negro Parente. E lá se vinha um e outro, e
outro mais, e mais outro perguntar ao negro velho de guerra se o menino era
mesmo seu filho.
Parente metia as mãos nos bolsos e ficava todo imponente explicando que o
garoto era mesmo seu filho, que a mãe morreu no parto e ele o criou com todo
trabalho, todo sacrifício.
Chamava-se Antonino. Contava quinze anos completos. Dentro de dezesseis. (...)
(...) O negro velho ficou orgulhoso. Não é que o menino encontrou mesmo a moça?
Lá se vinha ele nadando com ela!
Todo mundo queria ver a cara da morta. Mesmo os que perderam dinheiro em seu
cadáver. Todo mundo querendo ver a moça que morreu afogada porque quis.
A moça que se atirou às águas com uma pedra amarrada ao pescoço pra se
afogar melhor.
Mentira. Pedra no pescoço coisa nenhuma! Apenas um cordão de ouro, com
uma medalha também de ouro, com a efígie de S. José. A barriga era que
estava amarrada, com um pano e um prato esmaltado por baixo.
Mesmo assim, apesar de amarrada, nunca que ninguém morreu no Parnaíba com
barriga tão grande. Chega estava bochechando, já quase cobrindo as bordas do
prato.
Lá se vêm os cochichos, os comentários. Bem que o povo falava dela!”
(...)
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