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Paraísos Artificiais - Paulo
Henriques Britto
Conhecedor do seu brilhante
trabalho como tradutor, e logo após seu reconhecimento como poeta premiado
pelo cobiçadíssimo Portugal Telecom, era de se esperar que, como contista,
suas pretensões não passassem disso: meras pretensões.
Afinal, como um poeta e tradutor poderia se pretender também como prosador?
Nem esperava que seus contos fossem mal escritos. Acreditava que uma pessoa há
tanto tempo relacionada com o mundo da literatura saberia muito bem aonde
estava pisando, e se resguardaria um mínimo de qualidade, para torná-los ao
menos apresentáveis. Peças curiosas, era o máximo que pensava encontrar.
Meu preconceito levou um sério revés. Pois “Paraísos artificiais” revela um
escritor igualmente brilhante na prosa, um fino observador do cotidiano e das
entranhas labirínticas que permeiam pelo nosso comum, pelo prosaico, pelo
banal.
Podemos ser levados por um clima sufocantemente kafkaniano em “O 921”,
em uma viagem de ônibus que aparenta não existir, que leva a um lugar
desconhecido, e que provoca absurdas conseqüências inesperadas. Ou sairmos do
‘aconchego’ e ‘segurança’ da cidade grande para nos enfiarmos em uma ‘simples’
cidade do interior, em “Os sonetos negros”.
No entanto, o melhor são os momentos onde o prosaico total se instala. Em “Um
criminoso”, a luz da lâmpada da geladeira pode ser estranha, ameaçadora,
“traiçoeira”. “Diabólica essa luz que só acende quando abro a porta, como se
quisesse me enganar, me fazer pensar que está sempre acesa, e não está”.
“Pego
a garrafa de vodca, ponho mais um tanto no copo, tenho a impressão
desagradável de que os objetos todos estão me olhando com ar de censura, aliás
perfeitamente justificável, é claro que os objetos inanimados olham para nós
com reprovação, a vida para eles só pode ser um escândalo, uma aberração,
exatamente como a morte é um escândalo para nós que somos vivos”.
“De uma
colher ou uma toalha pode-se pedir tudo, menos compreensão, menos
cumplicidade”.
Britto maneja a prosa com suavidade, leveza, uma simplicidade, enganadoras. A
leitura flui deliciosamente, com gosto, com vontade.
A simplicidade serve para
nos bombardear mais tarde, pois somos pegos desprevenidos, quando terminamos
de ler e somos confrontados com um texto forte, seguro, firme e atordoante.
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