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Primeiras estórias -
João Guimarães Rosa
´Causos' que trazem o encanto e a magia
De acordo com o próprio autor, em Primeiras Estórias (1962) há a intenção de apresentar fábulas para as crianças do futuro. Seus 21 contos, portanto, são narrativas preocupadas em tematizar, simbolicamente, os segredos da existência humana. Para tanto, utilizará sempre personagens que estão à margem da sociedade, as mais preparadas para transcender a realidade (fato proibido em Vidas Secas, como se pode perceber no capítulo “O Menino Mais Velho”). Todas se encaminharão para um momento de epifania (grande revelação), na maioria das vezes intuído, em que excederão sua própria condição. São, portanto, histórias de excessos.
AS MARGENS DA ALEGRIA
Esse primeiro conto é considerado, com o último, a moldura do livro, já que apresenta as mesmas personagens no mesmo ambiente. O protagonista, o menino, faz uma viagem de avião até a casa do Tio (a maiúscula alegorizante – Mãe, Pai, Tio, Tia – sempre é usada para se referir às personagens, o que contribui para atribuir-lhes um caráter genérico, até mítico) numa cidade em construção, provavelmente Brasília. Esse passeio, como informa o narrador, é na máxima felicidade. Os adultos estão sempre o afagando. Tudo é belo e novo. E antes mesmo que tenha consciência das necessidades, já é satisfeito. Tais descrições conferem com a idéia que se faz do Paraíso. É onde a criança parece estar.O clímax de tanta felicidade vai-se dar quando o Menino encontra um peru majestoso. Mas dura pouco tempo, pois, depois de um passeio, o garoto fica sabendo que a ave havia sido morta para o aniversário do Tio. Sua tristeza é aumentada quando depois presencia a derrubada de uma árvore. É o contato com as imperfeições da vida: a morte e, conseqüentemente, a passagem do tempo. Cai do Paraíso.
Tem um momento ilusório: é quando pensa ter visto de novo o tão amado peru. Na realidade, era outro, menor, menos pomposo. Há quem enxergue aqui o platonismo, na medida em que esse segundo pássaro seria sombra do primeiro, perfeito, já que pertencente ao mundo das idéias.
O segundo bicho, que bica a cabeça decepada da antiga ave, proporcionará ao menino mais experiências difíceis ligadas ao campo da inveja e da malignidade. É o instante em que começa a escurecer, tanto denotativamente (fim do dia, chegada da noite), quanto conotativamente (contato com o lado escuro da existência).
A angústia é aliviada quando surge, em meio à escuridão da floresta à sua frente, um vaga-lume. Sua luz em meio ao breu simboliza a esperança que se deve ter após a queda do Paraíso, após o mergulho nas imperfeições da condição humana. Por isso alguns associam esse brilho aos ideais religiosos, como o próprio Espírito Santo, a nos trazer de volta a felicidade do princípio de tudo. É um ponto bastante diferente, portanto, do final de Macunaíma, em que o final não traz a felicidade primitiva.
FAMIGERADO
Talvez esse conto seja conseqüência do anterior, que nos introduziu as imperfeições da vida, como a morte (e o medo dela) e a malignidade. O narrador, um homem culto (médico ou farmacêutico provavelmente) depara-se com uma situação de tensão: um bandido feroz, Damásio Siqueiras, visita-o com a intenção de saber o significado da palavra “famigerado”.O interessante é notar que há uma constante preocupação em descobrir o que existe por trás das palavras. Damásio quer ter posse desse conhecimento, pois suas ações dependem disso. O narrador quer saber por que essa curiosidade, com medo de que tenham feito intriga contra ele. Já foi feita a associação desse aspecto a uma explicação que Cristo havia dado sobre o fato de passar seus ensinamentos por meio de parábolas, justo narrativas que têm a mesma função das estórias de Guimarães Rosa. Deixa claro, o que se aplica aqui, que, para quem não está preparado, o que conta são apenas narrativas. Mas para quem já está, há mais do que estórias.
O conto encaminha-se para um anticlímax. O médico fica sabendo que um sujeito havia chamado o bandido de famigerado. O facínora queria saber, portanto, se aquela palavra seria motivo para a desgraça ou para a paz. O narrador, ineficientemente (ou por insegurança), informa que o termo significa “inóxio”, “douto”. A verdade não fica clara. Damásio pede para que seja usada “fala de pobre”, de “em dia de semana”. Foi um pedido humilde. O narrador, pois, já detém poder da situação. Expõe-lhe toda a verdade. Informa que não é nome de ofensa.Uma leitura desatenta indicaria que o narrador censurou a verdade. De fato, “famigerado” quer dizer “famoso, importante, que merece respeito”. Mas boa parte das pessoas usa esse termo com o sentido de “maldito, desgraçado”. Há uma forte possibilidade de que essa tinha sido a intenção do moço do governo. E a fala final do narrador deixou nas entrelinhas, como uma parábola, uma estória, este último significado. Quando Damásio lhe pede para confirmar se não se constituiu ofensa, o interlocutor diz: “Olhe: eu, com o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado – bem famigerado, o mais que pudesse!...” De fato, mesmo proprietário, estabelecido, culto, formado, naquela hora em que se sentia encurralado pelo medo de perder a vida, o que mais queria era ser tão desgraçado, tão maldito quanto Damásio.Mas o bandido não estava preparado para essa verdade. Estava diante dele, mas não a enxergou. Estava ainda mergulhado nas trevas. Não pôde perceber o brilho do vaga-lume. É por isso que sai desmanchando-se de felicidade e alívio.
SORÔCO, SUA MÃE, SUA FILHA
Neste conto verifica-se, de chofre, duas características típicas de Guimarães Rosa. A primeira é a ortografia própria, que chega a se desviar muitas vezes do padrão gramatical. Nada justifica o acento na palavra “Sorôco”. Além disso, como em muitas personagens, o nome do protagonista carrega um significado oculto. A sonoridade da palavra lembra “ser oco”, ou seja, alguém que busca o desapego. É a condição para realizar o salto, a transcendência comum nos contos de Primeiras Estórias.Sorôco é comparado a Jó, personagem da Bíblia, por causa de seu sofrimento. Tem uma mãe e uma filha loucas. Passado e futuro. Ele, no meio. Ele, a terceira margem. A eternidade. E as proporções gigantescas dele lembram as personagens grotescas que são castigadas, eliminadas em outros contos. O padecimento a que foi submetido ao cuidar das duas, no entanto, redimiu-o.
O conto inicia-se com o protagonista levando suas parentas para a estação de trem, em que pegarão um trem que as levará a um hospício em Barbacena. A cidade inteira está na estação, como numa espécie de apoio num momento difícil. É o que os segura de rirem das duas figuras tão despropositadas.
Sem mais nem menos, a moça começa a cantar algo desatinado, sem sentido. Pelo menos, para as pessoas racionais, normais. A loucura pode ser entendida como algo divino, uma facilidade de contato com verdades superiores. O mais interessante é que repentinamente é a mãe de Sorôco que passa a cantar o mesmo da neta, acompanhando-a. É uma situação vexatória para Sorôco. Mas há algo de mistério também.
As duas partem, embaladas pela cantiga. Deixam Sorôco. Este, pouco depois, inesperadamente começa a mesma cantiga, que passa a ser acompanhada por todos na estação, inclusive o narrador, que levam o protagonista para a sua verdadeira casa.
Há aqui a idéia de que a solidariedade, a união ajuda a superar momentos difíceis. Ajuda também na redenção de Sorôco. Mas há também a idéia de que o canto desatinado – para a nossa lógica – seria uma mensagem divina com facilidade de espalhar-se, propagar-se, levando à redenção. Como as estórias de Guimarães Rosa. Como as parábolas.
A MENINA DE LÁ
Este conto é marcado por religiosidade desde o seu começo, o que se percebe em seus topônimos (nomes de lugar). A história se passa num local chamado Temor de Deus, por trás da Serra do Mim. A mãe da protagonista não tira o terço da mão, mesmo quando dá bronca nos empregados.
Interessante é lembrar que tudo se dá perto de um brejo de águas limpas. É o símbolo do inconsciente, reforçado se se associar ao fato de que se está por trás da Serra do Mim. Esse aspecto faz lembrar um outro conto, “O Espelho”. Esse objeto tem sua superfície igual à água limpa; ademais, o protagonista esforça-se por encontrar o “eu por trás de mim”, o seu verdadeiro ser.O inconsciente tão aflorado faz-nos entender que a personagem principal deste conto, Nhinhinha (seu nome, o sufixo diminutivo triplicado, reforça sua fragilidade), louca (provavelmente tem hidrocefalia), é sensitiva, dotada de contatos místicos. Por isso, é incompreendida em seus silêncios (o que representa a sabedoria) e principalmente em seu discurso.
Nhinhinha começa a fazer previsões, que passam para a família como milagres. Em meio à seca, deseja ver um sapo, que aparece. Quer pamonha de goiaba e uma mulher surge vendendo-a. Quando sua mãe fica doente, pedem que a faça melhorar, mas a menina simplesmente diz que não pode. No entanto, abraça-a e, coincidência ou não, a cura chega. Outra vez, pedem que traga chuva e de novo diz que não pode. Porém, pouco tempo depois deseja ver o arco-íris. A chuva chega e, junto, o arco. A visão dele no céu proporciona uma alegria que ela nunca tinha expressado em sua vida. Mas, fica quieta quando recebe uma bronca de sua tia. Após alguns dias a menina morre e revela-se o motivo da bronca: em meio à alegria, a menina havia dito que queria um caixãozinho cor-de-rosa; a tia tinha achado ruim aquela idéia, pois imaginou ser mau agouro.
O que de fato acontecera: o arco-íris era o aviso de Deus de que Nhinhinha voltaria ao seio d’Ele. E isso já vinha sendo anunciado nas entrelinhas desde o início do conto: o dedinho dela quase alcançava o céu, quando se falava de parentes mortos, ela dizia que ia visitá-los, sem mencionar o próprio título do texto, entre outros elementos. Esses aspectos místicos acabam transforma-a em mais uma milagreira, como tantas crianças que povoam o imaginário popular.
OS IRMÃOS DAGOBÉ
Este conto confirma a idéia popular de que Deus escreve certo por linhas tortas. Ou então a de que do nada é que as coisas acontecem, conforme havia dito Joaquim Norberto, em “Luas-de-Mel”. Damastor Dagobé, bandido extremamente feroz (parece uma referência ao Gigante Adamastor, de Os Lusíadas), foi surpreendentemente assassinado por um sujeito aparentemente fraco, Liojorge, pressionado porgítima defesa. É em meio ao velório que o narrador se coloca, para captar mais vivamente a reação das pessoas presentes, todos com inúmeras conjecturas sobre como será a vingança dos irmãos Dagobé.O mais surpreendente é que chega o recado de Liojorge, querendo deixar claro que havia matado com respeito e que queria estar na presença dos irmãos, para mostrar sua boa vontade. Se isso já deixou todos sobressaltados, muito mais quando se fica sabendo que o bom moço queria ajudar a carregar o caixão de Damastor. Parecia que o medo havia feito do rapaz um maluco.
Surpreendentemente os irmãos Dagobé concordam, mas impõem uma condição: só depois do caixão ser fechado. Os presentes imaginam algum plano malévolo e traiçoeiro dos bandidos. No entanto, a narrativa apresenta frustração após frustração. Liojorge chega e não é assassinado. Conduz o caixão. No caminho, tropeça e quase derruba o féretro. Para os espectadores é um prenúncio de desgraça. E comentam que os irmãos Dagobé estão na realidade realizando o pior dos planos: usar o homem como carregador e no cemitério dar cabo dele.
No entanto, este é outro conto a lidar com anticlímax. Enterrado Damastor, seus irmãos agradecem a atenção dos acompanhantes, mostram compreensão em relação a Liojorge e reconhecem que o falecido, em vida, era mesmo muito ruim. Comunicam que estão de mudança para a cidade, o que indica evolução.
Interessante é notar que a personagem que aplica a penalidade sobre o Mal neste conto, como em “Fatalidade” e “A Benfazeja”, não o faz por vontade, o que indicaria um caráter maligno. É muito mais um instrumento de algo superior, preocupado com a ordem e o equilíbrio.
A TERCEIRA MARGEM DO RIO
Este é o mais famoso e o mais aberto conto de Guimarães Rosa. Trata-se da história do pai do narrador, chamado de nosso pai (como a incluir também o leitor) que tem um aparente desatino: constrói uma canoa para passar o resto de sua vida nela, numa viagem em direção à terceira margem do rio. Fica claro, pois, que seu alvo é metafísico, já que um rio só tem duas margens. É uma viagem em que nosso pai vai-se exceder, sair de sua condição primitiva em direção a uma verdade superior. Assim, a imagem da água concentra algumas simbologias. Pode estar ligada ao batismo, em que se morre para uma vida e se nasce para outra. Assim, há uma forte ligação com “O Espelho”, que fica confirmada com a idéia de que ambos os contos possuem a tese de que se deve buscar o verdadeiro eu (o eu por trás de mim, idéia já presente em “A Menina de Lá”). Essa busca está no mergulho em si mesmo, ou na busca de uma verdade religiosa ou até na própria morte, denotativa ou conotativamente.Um aspecto interessante a ser notado é que o narrador, quando criança, queria embarcar com o pai. Este o impediu. Adulto, intui o porquê da busca do pai e, chegando-se à margem do rio, diz que quer substituí-lo. É o único momento em que o velho se manifesta, indo em direção à margem. No entanto, o narrador fica com medo da imagem do pai, que parecia vir do outro mundo. Foge. Por isso, torna-se a única personagem fracassada, pois não foi capaz de transcender, de realizar seu salto.
NADA E A NOSSA CONDIÇÃO
Este conto é considerado uma paródia dos contos de fada. No mínimo, possui elementos desse gênero, pois seu protagonista, Tio Man’Antônio, é tão rico e bom como os reis dessas histórias tradicionais.A narrativa inicia-se com o enterro da esposa da personagem principal, que, a partir desse instante, começa a realizar um movimento de desapego em que se esvazia das posses e abastece seus próximos. Desfaz o jardim predileto de sua falecida, o que dá a impressão de estar-se desfazendo das lembranças dela. No aniversário de um ano de luto, dá uma festa em que consegue fazer com que suas três filhas conheçam seus noivos. Casadas, partem. Man’Antônio vende suas propriedades e transfere o lucro para suas filhas. Divide sua enorme fazenda entre seus empregados, o que pode ser enxergado como um tipo de reforma agrária. E ainda tem de se intrometer nos afazeres deles, pois sozinhos não conseguem se virar. O senhor virou capataz – outro desapego, dessa vez de posição. Estes, ingratamente, tratam-no de maneira silenciosamente agressiva. Acham que ainda estava se fazendo de senhor. Talvez não perdesse sua majestade. Engrandecido estava, mas espiritualmente, graças ao seu desapego. Já está pronto para a sua grande viagem, a espiritual. Espera, realizado e tranqüilo, a morte, que de fato chega. Conforme seu pedido, sua casa é incendiada, ele dentro. É a cremação. As cinzas parecem subir, como se buscassem o Céu.
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