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Terras do Sem Fim Parte II - Jorge Amado
Os Badaró eram uma das famílias mais ricas e poderosas da região. Don'Ana, filha de Sinhô Badaró, era conhecida em Ilhéus como moça séria e enraizada à terra; raramente deixava a fazenda e pouco ligava para as festas da igreja e conversas de comadres.
Enquanto Sinhô Badaró era pela paz, matando somente em caso de extrema necessidade, Juca Badaró, seu irmão, resolvia tudo a tiro e morte. Juca era casado, sem filhos.
Olga, sua esposa, passava, a maior parte do tempo, aos cochichos em Ilhéus e ele, por sua vez, nas lavouras de cacau, ou com as amantes.
Quando ela vinha para a fazenda, era para reclamar da vida e do marido. Don'Ana tinha pouco tempo e motivo para se condoer com ela. Como Badaró, não era contra as aventuras extraconjugais dos homens da família. Cumpriam com sua obrigação e não deixavam faltar nada, assim fora seu pai e assim deveriam ser todos os homens. Para ela, Olga era uma estranha na família.
Antônio Vítor, que, no navio, sonhava com sua volta para o Ceará, rico e bem vestido, abandonou essa ilusão, quando notou que jagunços e lavradores deixavam todo dinheiro ganho em contas no próprio armazém da fazenda e que, no final do mês, recebiam um saldo miserável, quando havia saldo. Contratado para a lavoura, tornou-se capanga de Juca Badaró, após ter-lhe salvo a vida.
A sua coragem o promoveu: trocou a foice pela espingarda; acompanhava Juca a todos os lugares. A namorada, deixada em sua cidade, estava muito longe; não existia mais. Sonhava com Raimunda, mulata de nariz chato, irmã de leite de Don'Ana e afilhada do Sinhô Badaró; estava se apaixonando por ela.
Após medição da mata, Virgílio registrou-a no cartório de Venâncio. A posse foi feita em nome de Horácio, Maneca Dantas, Braz, viúva Merenda, Firmo, Jarde e de Dr. Jessé Freitas. Os felizes proprietários não se regozijaram por muito tempo. Numa tarde, os homens de Badaró atearam fogo no cartório, perdendo-se, assim, todos os documentos.
Juca Badaró agora tinha que medir a mata com urgência para dar entrada nos papéis de posse. Como seu engenheiro viajara, contratou João Magalhães para executar a tarefa. Este que não era militar e muito menos engenheiro e que, naquele fim de mundo, não estava em busca apenas do dinheiro que lhe deixavam as mesas de pôquer, achou a oferta de Juca irrecusável; não só fez o serviço, como também passou a se interessar por Don'Ana.
O olhar afetuoso da moça sobre ele fez com que se colocasse à disposição dos Badaró, passando a discutir sobre as terras como um Badaró, sentia-se um parente.
Como Virgílio estava apaixonadíssimo por Ester, acabou brigando com Margot que, em seguida, caiu nos braços de Juca Badaró. Este se interessou por ela, desde que a vira no navio para Ilhéus.
Nessa cidade, a força dos coronéis era medida pelas casas que possuíam. Cada qual levantava uma melhor e, aos poucos, as famílias iam se acostumando e demorar mais tempo na cidade do que nas fazendas.
O palacete de Horácio era maravilhoso e, ali, Ester recebia Virgílio; amavam-se e planejavam fugas às escondidas.
Apesar disso, toda cidade já comentava o caso, rindo-se do coronel Horácio.
As emboscadas continuaram acontecendo. Numa noite, o irmão Merenda com três cabras de Horácio, atacaram Sinhô Badaró no atalho.
Nessa mesma noite, Juca e seus homens cometeram uma série de violências na região. Mataram os irmãos Merenda, entraram na roça de Firmo e queimaram tudo, não o mataram porque ele não se encontrava em casa naquele momento. Nas cidades distantes falavam-se das lutas em Sequeiro Grande.
Diariamente chegavam jagunços de outras regiões que logo eram recrutados por alguém de um dos lados.
O preço das armas e munições aumentavam; a luta exigia muito dinheiro.
Uma noite, como Horácio estava na cidade, Virgílio, impossibilitado de se encontrar com Ester, convidou Maneca Dantas para saírem. No cabaré, encontrou Margot e com ela dançou uma valsa. Quando Juca, que estava na sala de carteado, soube, entrou no salão a tempo de impedir o bis. Ao passar por Virgílio, puxando a mulher, insultou-o. Maneca Dantas, prudentemente, impediu-o de reagir.
Juca espalhou pela cidade que arrancara a mulher dos braços de Virgílio e que este nada fizera; era um cagão.
Ao saber disso, Horácio explica a Virgílio que, diante daquela ofensa, se ele quisesse continuar advogando e ser respeitado na cidade, teria de mandar matar Juca. O coronel já decidira, iria mandar matá-lo de qualquer jeito, pois este já tinha ido longe demais, acabando com quatro de seus homens. Apenas queria que fosse Virgílio a dar a ordem ao jagunço.
Depois de relutar muito, o advogado concordou.
Horácio ficou muito feliz; sabia então que seu amigo entraria para o rol dos homens valentes de Ilhéus.
A emboscada armada para Juca Badaró não foi bem sucedida. O homem na tocaia ficou morto em seu lugar e Antônio Vítor fora ferido para salvar o patrão. Outra infelicidade assolou a vida de Horácio; febre, que matara Sílvio, infectara-lhe também. Indiferentes aos comentários maldosos da cidade, Ester voltou para Tabocas em companhia de Virgílio.
Ali, desdobrando-se em cuidados, ficou ao lado da cabeceira do marido os sete dias em que esteve entre a vida e a morte. Dr. Jessé fez o mesmo, parou tudo, para socorrer o patrão. Graças, talvez, ao corpo forte de homem sem vícios e enfermidades, coronel Horácio não morreu. Entretanto, logo em seguida, Ester caiu doente.
Febre altíssima e delírios comeram-lhe toda a beleza. Como a febre não cedia, transportaram-na para Ilhéus, mas foi tudo em vão; Ester não agüentou, morreu.
A luta progredia, numa corrida para ver quem chegava primeiro. De um lado estavam os Badaró derrubando a mata e de outro os homens de Horácio, o barulho recomeçaria quando os dois grupos se encontrassem. Nesse período, uma festa de casamento agitou Ilhéus. Don'Ana casou com João Magalhães que se mostrara suficientemente corajoso e envolvido com a família para continuar o trabalho dos Badaró. Raimunda e Antônio Vítor se casaram também.
Todavia, durante a lua de mel de Don'Ana, uma tragédia se abateu sobre os Badaró. Quando passava um fim de semana com Margot em Ilhéus, Juca foi assassinado. Eles sabiam quem tinha sido o mandante e sabiam também que um simples processo não resolveria a questão; Horácio deveria ser morto, mas também sabiam que isso não seria fácil.
Com a intervenção do governo federal no estado da Bahia, o governador teve de renunciar e a oposição tomou o poder. Nessa esteira, em Ilhéus, o interventor demitiu o prefeito e nomeou o Dr. Jessé para o cargo; o juiz também foi transferido, viria outro em seu lugar. Naquele momento, Sinhô Badaró tornara-se oposição e Horácio, que era governo, já imaginava Virgílio como deputado federal.
Nesse ínterim a luta pela mata continuava, com muitos mortos e roças de cacau em chamas.
O cerco da casa Grande dos Badaró pelos homens de Horácio pôs fim na luta. Sinhô Badaró ainda resistiu por quatro dias e noites. Quando este caiu ferido, Don'Ana mandou-o para Ilhéus. Excetuando Don'Ana, Capitão Magalhães fez com que as outras mulheres, Olga e Raimunda, fossem também com o Sinhô. No final todos fugiram e o cerco culminou com o incêndio da casa grande.
Meses depois, Horácio foi levado a julgamento e, por unanimidade de votos, foi considerado inocente.
Alguns dias mais tarde, bastante acabrunhado, procurou o compadre Maneca Dantas para lhe dizer que mandaria matar Virgílio. Encontrara, entre os papéis de Ester, algumas cartas de Virgílio, que comprovavam que tinham sido amantes.
Deu-se conta, atordoadamente, que toda mudança ocorrida no seu relacionamento com a esposa era por causa do advogado; os dois o haviam traído.
No final daquele mesmo dia, Maneca Dantas encontrou-se com Virgílio que estava de partida para Ferradas. Sem sucesso, Maneca, que gostava muito do advogado, tentou convencê-lo a não viajar naquela noite. Diante de tanta teimosia, contou-lhe os planos do compadre. Virgílio agradeceu, mas confirmou que não voltaria atrás. Explicando-se, disse que ficara com Horácio, porque ali tudo ainda era Ester.
Quando ela ainda vivia, tinha a esperança de ir embora, mas nada mais fazia sentido. Para ele, o triste era viver sem Ester; iria morrer corajosamente, segundo as leis do lugar. Despediu-se de Maneca e partiu. Naquela mesma noite foi morto em uma emboscada, a caminho de Ferradas.
A nomeação de um bispo para Ilhéus também era sinal de progresso e dentre os que saíram às ruas para saudá-lo estavam Horácio, Maneca Dantas, Sinhô Badaró, que ainda coxeava um pouco, e Don'Ana e esposo.
Após as eleições, Dr. Jésse foi levado à Câmara Federal como deputado do governo. Graças a ele, um decreto criou o município de Itabuna - ex Tabocas -, desmembrando-o de Ilhéus.
Horácio elegeu Maneca Dantas para prefeito de Ilhéus e o Sr. Azevedo para prefeito de Itabuna.
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