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 Resumos >> Leitura obrigatória dos vestibulares!

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 Resumo de Um Que Vendeu a Sua Alma de Lima Barreto

 

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Um Que Vendeu a Sua Alma - Lima Barreto
 
A anedota que lhe vou contar, tem alguma cousa de fantástica e pareceria que, como homem de meu tempo, eu não devia dar-lhe crédito algum. 

Entra nela o Diabo e toda a gente de certo desenvolvimento mental está quase sempre disposta a acreditar em Deus, mas raramente no Diabo.

Não sei se acredito em Deus, não sei se acredito no Diabo, porque não tenho as minhas crenças muito firmes.

Desde que perdi a fé no meu Lacroix; desde que me convenci da existência de muitas geometrias a se contradizerem nas suas definições e teoremas mais vulgares; desde então deixei que a certeza ficasse com os antropologistas, etnólogos, florianistas, sociólogos e outros tolos de igual jaez.

A horrível mania da certeza de que fala Renan, já a tive; hoje, porém, não. 

De modo que posso bem à vontade contar-lhes uma anedota em que entra o Diabo.

Se os senhores quiserem acreditem; eu, cá por mim, se não acredito, não nego também.

Narrou-me o amigo:
- Certo dia, uma manhã, estava eu muito aborrecido a pensar na minha vida. O meu aborrecimento era mortal. Um tédio imenso invadia-me. Sentia-me vazio.

Diante do espetáculo do mundo, eu não reagia. Sentia-me como um toco de pau, como qualquer coisa de inerte.

Os desgostos da minha vida, os meus excessos, as minhas decepções, me haviam levado a um estado de desespero, de aborrecimento, de tédio, para o qual. em vão, procurava remédio. 

A Morte não me servia. Se era verdade que a Vida não me agradava, a Morte não me atraía. Eu queria outra Vida. 


Você se 1embra do Bossuet, quando falou por ocasião de Mlle de la Vallière tomar o véu ?

Respondi:
- Lembro-me.
- Pois sentia aquilo que ele disse e censurou: queria outra vida.

E então só me daria muito dinheiro.
Queria andar, queria viajar, queria experimentar se as belezas que o tempo e o sofrimento dos homens acumularam sobre a terra, despertavam em mim a emoção necessária para a existência, o sabor de viver.

Mas dinheiro! - como arranjar? Pensei meios e modos: Furtos, assassinatos, estelionatos - sonhei-me Raskólnikoff ou cousa parecida. 
Jeito, porém, não havia e a energia não me sobrava.

Pensei então no Diabo. Se ele quisesse comprar-me a alma?
Havia tanta história popular que contava pactos com ele que eu, homem céptico e ultramoderno apelei para o Diabo, e sinceramente!
Nisto bateram-me a porta. - Abri.

- Quem era ?
- O Diabo.
- Como o conheceste ?

- Espera. Era um cavalheiro como qualquer, sem barbichas, sem chavelhos, sem nenhum atributo diabólico. 
Entrou como um velho conhecimento e tive a impressão de que conhecia muito o visitante. 


Sem cerimônia sentou-se e foi perguntando: "Que diabo de spleen é esse?" Retorqui: " A palavra vai bem mas falta-me o milhão." 

Disse-lhe isso sem reflexão e ele sem se espantar, deu umas voltas pela minha sala e olhou um retrato. 

Indagou: "E tua noiva?" Acudi: "Não. É um retrato que encontrei na rua. Simpatizei e..." "Queres vê-la já?" Perguntou-me o homem.


"Quero" , respondi. E logo, entre nós dois sentou-se a mulher do retrato. 
Estivemos conversando e adquiri certeza de que estava falando com o Diabo. A mulher foi-se e logo o Diabo inquiriu: "Que querias de mim?" "Vender-te minha alma", disse-lhe eu.

E o diálogo continuou assim :Diabo - Quanto queres por ela?
Eu - Quinhentos contos.
Diabo - Não queres pouco.


Eu - Achas caro?
Diabo - Certamente.
Eu - Aceito mesmo a cousa por trezentos.


Diabo - Ora ! Ora !
Eu - Então, quanto dás?
Diabo - Filho. não te faço preço. Hoje, recebo tanta alma de graça que não me vale a pena comprá-las.
Eu - Então não dás nada?


Diabo - Homem! Para falar-te com franqueza. simpatizo muito contigo, por isso vou dar-te alguma cousa.
Eu - Quanto?


Diabo - Queres vinte mil-réis ?
E logo perguntei ao meu amigo:
- Aceitaste?


O meu amigo esteve um instante suspenso, afinal respondeu:
- Eu... Eu aceitei. 

A Primavera, Rio, julho 1913.

 

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