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Usos
da Linguagem - Francis Vanoye
Ensinar a ler-escrever,
entender (ouvir + compreender), falar: esses são os objetivos almejados na
elaboração deste livro.
Criar um bom livro que satisfaça necessidades comuns de públicos diferentes
constitui uma das tarefas mais complexas para um autor de obras didáticas. Daí,
provavelmente, a dificuldade desse tipo de produção no contexto bibliográfico
atual, sobretudo no campo de linguagem.
O texto original desse livro é uma amostra de como propor o exercício da
linguagem e da língua materna para um público adulto, sobretudo aquele
assimilado pelos diferentes cursos de graduação superior.
Dirigido ao universitário francês, o texto original foi plasmado dentro de
um universo discursivo bastante específico: a exemplificação, os textos de
ilustração, os exercícios foram sempre articulados com vistas a um perfil
de estudante formado em um ambiente cultural bastante flexível, com acesso a
uma pluralidade invejável de informação.
Como orientar esse livro para o universitário brasileiro foi a questão que
permeou e motivou o trabalho dos tradutores: seguindo a trilha original,
procurou-se, através do consenso da equipe, remontar o discurso original
dentro de um contexto brasileiro, com ilustrações e exercícios moldados
segundo a nossa realidade cultural.
A fim de não restringir as referências a textos excessivamente desgastados
pela sua utilização em manuais escolares, os tradutores fizeram o
levantamento não só de textos de autores já consagrados da literatura
contemporânea, como também de textos de ornais e revistas e de outras
manifestações pouco prestigiadas no sistema escolar, como a música popular,
o teatro e o cinema. Sobre este material é que se moldou a tradução
brasileira.
De acordo com o princípio assumido pelo autor francês, segundo o qual a
linguagem se aprende pelo seu próprio uso e segundo o qual não existe apenas
um uso para a linguagem, os tradutores procuraram, sempre que possível,
pluralizar e diversificar suas referências.
Com isso, acreditou-se possibilitar ao universitário brasileiro, não apenas
o exercício da produção de textos, mas o do acesso a setores da cultura que
lhe ampliam o universo de reflexão. Sob esse aspecto, é possível afirmar
que o livro continua no cotidiano do próprio estudante, pelos jornais, pelo
teatro, pela música, pela literatura, que ele deve incorporar em sua própria
vida.
O livro oferece aos professores:
1) uma orientação teórica organizada com vistas a solidificar e justificar
os trabalhos;
2) sugestões de exercícios, os quais poderão ser estendidos, modificados e
adaptados segundo as necessidades específicas dos diferentes cursos, e o nível
médio das classes.
Oferece aos estudantes:
1) uma base teórica de referência, formulada de modo acessível;
2) exercícios a serem realizados em grupo ou individualmente;
3) uma série de fragmentos de textos que podem servir como amostras de um
universo cultural de que se deve participar e compreender.
Os capítulos desse livro englobam basicamente os seguintes assuntos:
I. Que vêm a ser as Técnicas de Expressão? Trata-se de um conjunto de
atividades que responde a uma velha necessidade sentida tanto por parte dos
professores como dos estudantes.
Estes mostram-se freqüentemente despreparados diante de trabalhos
corriqueiros como o resumo, a exposição, o seminário, a análise de textos,
o relatório, enfim, diante de uma gama variada de tarefas originadas da própria
natureza do trabalho escolar.
Os professores, por seu lado, mostram-se constantemente desconcertados frente
a problemas de comunicação que surgem dentro de cada classe em grupos de
trabalho.
Em princípio, as Técnicas de Expressão devem conduzir ao conhecimento, ao
domínio e à utilização consciente e refletida dos meios fornecidos pela
linguagem, tanto para a auto-expressão quanto para a comunicação.
II. Como conduzir a aprendizagem das Técnicas de Expressão? Nessa
perspectiva duas vias se apresentam:
a) uma de natureza prática, que reduz as técnicas de expressão à aquisição
de um certo número de procedimentos diretamente relacionados às exigências
da vida escolar ou profissional; esse caminho conduz ao estabelecimento e
transmissão de um receituário, ou mesmo de atitudes padronizadas; trata-se
de um caminho normativo e restritivo;
b) outra de natureza teórica, conduz à reflexão sobre a linguagem, à análise
dos diferentes fatores, de seus mecanismos, e de seu funcionamento. Em
realidade, esta via é a da lingüística e ela pode nos desviar de uma
verdadeira prática de linguagem.
III. Qual a mais adequada? Em vista das considerações precedentes está
claro que o ideal é atingir uma via intermediária, concebida nos seguintes
termos:
a) Assentar a conquista das técnicas de expressão sobre a compreensão dos
mecanismos da comunicação.
b) Partir de um reconhecimento dos fenômenos expressivos e de comunicação
(descrição que se apóia sobre a teoria da comunicação, tal como a lingüística
moderna permite compreender), para se chegar a uma prática.
c) Nunca separar a prática de uma técnica de sua análise crítica; em
outras palavras, tornar conscientes os limites, os valores, os papéis (práticos
e ideológicos) dos meios de comunicação e de expressão (o desenvolvimento
atual da semiologia pode ser útil nesse caso). Além disso, conduzir a uma
tomada de consciência dos sistemas de comunicação, e, talvez, de sua
interpretação.
Resumindo, recusar o ponto de vista normativo, adotando o descritivo e analítico,
sem, no entanto, descuidar da necessidade de conduzir a uma prática dos meios
de expressão.
d) Dispor essa descrição (teoria), essa análise e essa prática para todos
os níveis. Partir do princípio de que não se está dirigindo a
especialistas, mas a estudantes.
e) Estender o campo da análise para os domínios da vida cotidiana; técnicas
de expressão utilizadas pela publicidade, rádio, televisão, jornais,
quadrinhos etc.
f) Jamais separar a descrição da prática. Incluir, a cada momento do
manual, exemplos concretos, ilustrações, exercícios.
IV. Conseqüências. Neste livro são encontrados conselhos práticos,
diretamente utilizáveis e, também, os meios de se tomar uma consciência
clara dos mecanismos da linguagem. E aqui, não são os "modelos"
culturais que conduzirão à compreensão dos fatores de expressão; ao contrário,
é refletir sobre tais fatores que permitirá analisar e interpretar os
sistemas contemporâneos de expressão.
Dessa forma é que se justifica o apelo feito a certas noções de lingüística
geral e de semiologia, campos de conhecimento que fornecem meios de análise
rigorosos e simples e que constituem a única via de abordagem científica dos
fatos de expressão e comunicação.
Pareceu enriquecedor, nessa mesma linha de raciocínio, refletir sobre as técnicas
de expressão, enquanto disciplina escolar, e seu vínculo com as formas de
expressão social e individual.
V. Limites. Devido à complexidade do problema e por razões práticas,
limitou-se ao estudo da expressão e da comunicação verbais. Tentou-se, no
entanto, não negligenciar a ligação entre a linguagem oral e escrita e
outros meios de expressão (música, desenho, fotografia) que formam o
ambiente cultural moderno.
Fonte: Usos da Linguagem,
Francis Vanoye
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