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Viva o Povo Brasileiro
Parte II - João Ubaldo Ribeiro
Não vejo nem mesmo, e nisto também se sublinha o que pode ser nossa fortuna, nossa única boa fortuna, a necessidade de leis que refreiem a mestiçagem, pois, à medida que se solidifique, se enraíze, nutra suas tradições, fortaleça suas estirpes nossa aristocracia de fundamentos espirituais europeus, na pureza da raça, de temperamento e de apego aos valores mais altos, as próprias forças sociais se encarregarão de prevenir tal ocorrencial.
A natural repulsa do civilizado ao contacto com o negro ou mestiço, os bons instintos cultivados, com espontaneidade e sem cuidados maiores do que governos cientes de suas responsabilidades históricas, porão as coisas a acontecer como é de sua tendência normal, ditada pelos impulsos corretos da história. (...)”Ora, lembrando a afirmação de Comas de que “[o] principal fator da estratificação social da América Latina foi a discriminação racial, de maneira especial, os crioulos, mestiços, índios e negros”,compreendemos a posição do mestiço na sociedade ideal descrita pelo personagem: por sua porção de sangue branco, o mestiço estaria apto a ocupar uma posição intermediária entre o escravo negro e a elite branca, formando uma espécie de classe de capatazes.
Entretanto, uma das muitas ironias do romance é o contraste entre o discurso ideológico dos personagens e os fatos narrados. Não encontramos no Barão de Pirapuama, por exemplo, essa repulsa ao contato com o negro e o mestiço, mas uma atração lúbrica constituiu um dos fatores da miscigenação no Brasil: a relação sexual, freqüentemente através do estupro, entre senhor e escrava, comportamento que corresponde à luxúria do colonizador português em contato com o gentio, conforme a descrição de Paulo Prado, em Retrato do Brasil.
Por outro lado, o discurso do cônego revela uma ideologia muito defendida pela elite brasileira até as três primeiras décadas do século XX: a crença no branqueamento gradual da população brasileira, por força da predominância dos caracteres brancos sobre os de cor, o que muito contribuiu para as futuras políticas de imigração de europeus entre o final do século XIX e início do século XX.
Esse desejo de branqueamento encontramos no empenho do personagem Amuleto Ferreira em esconder seus traços mestiços, enquanto consegue forjar uma árvore genealógica que suprime o elemento negro, em favor de uma mistura de ingleses com portugueses. Por ironia, já no século XX, um dos seus descendentes, o empresário paulistano Eulálio Henrique, desconhecendo sua porção negra, manifesta desprezo pelos baianos: “-- Crioulos. Todo baiano é crioulo.
O baiano é que é o responsável por esse negócio irritante de sair dizendo que todo brasileiro tem sangue preto.” Diante de tamanha rejeição da natureza tropical e do negro e do mestiço, que compõem a maioria da população brasileira, é de se esperar que a elite branca, ou pretensamente branca, não se identifique com a terra que habita e explora economicamente. Em quase todos os personagens da elite em Viva o povo brasileiro, percebemos um complexo de inferioridade em relação à Europa, bem como desprezo pela colônia e seus habitantes, principalmente os negros. O complexo de inferioridade leva os membros da classe dominante brasileira a se identificarem com a metrópole e não com a colônia, e, posteriormente com os centros do imperialismo, vistos como os verdadeiros centros irradiadores da civilização. Esse desprezo pela própria terra pode ser considerado resquício daquele fenômeno dos primeiros séculos da colonização que Capistrano de Abreu, apoiado no testemunho do Frei Vicente de Salvador, denominou “transoceanismo”, assim resumido por Paulo Prado: “O português transplantado só pensava na pátria d’além-mar: o Brasil era um degredo ou purgatório”.
Como expressa o personagem Bonifácio Odulfo: “(...) como falar de civilização a quem jamais esteve na Europa e julgava que, pelas pálidas imagens oferecidas nos livros, sabia de alguma coisa? Impossível, chegava até a desesperar um pouco. Afinal, era mais ou menos como ser estrangeiro no próprio país. E também não era europeu, não tinha, de certa forma, uma nacionalidade, no sentido espiritual. Seria esse o destino dos homens de elite? (...)A rejeição das características nacionais gera, nos personagens da elite em Viva o povo brasileiro, uma atitude ambígua: por um lado usurpam do povo a nacionalidade brasileira; por outro, não assumem plenamente a mesma nacionalidade. Ora, como já observou, em mais de uma ocasião, Nelson Werneck Sodré, tal ideologia favorece justamente os interesses dos países imperialistas.
3. Brasil, Terra Boa e Gostosa.
Em 1900, dois anos anos antes da publicação de Os Sertões, obra marcadamente influenciada por aquelas teorias racistas aqui descritas, é publicado um livro que chama a atenção por uma visão exageradamente positiva do brasileiro. Trata-se de Por que me ufano do meu país, de Afonso Celso, obra que consagraria o uso do termo “ufanismo” como sinônimo de patriotismo ingênuo. A visão ufanista do Brasil também é parodiada em Viva o povo brasileiro: “(...) Um país de povo alegre, festeiro, que dribla todas as dificuldades com o célebre jeitinho, um país feliz! E mais! Um povo que nunca enfrentou guerras, nem pestes, nem vulcões, nem terremotos, nem furacões, nem lutas fratricidas.
E mais! Um povo que convive em amenidade e cortesia, um povo prestativo, de coração bondoso, em que todas as cores e raças se misturam livremente, pois desconhece o preconceito racial, visto que aqui o preconceito é econômico. E mais! Um povo de extraordinária musicalidade, capaz , com instrumentos improvisados tais como caixas de fósforos, copos, pratos e latas velhas, fazer música que impressiona a qualquer estrangeiro, como esse turistas que pararam na Praça da Quitanda para assistir ao pessoal batendo um samba de roda na barraca de Naninho.” Trata-se justamente de uma visão turística do Brasil, o Brasil do samba-exaltação, do carnaval, do futebol e da mulata.
Como todo cartão postal, esta imagem esconde as mazelas do país, dentre elas o racismo, aqui disfarçado pelo mito da democracia racial. Além disto há outro aspecto negativo nesta imagem aparentemente tão perfeita: não são ressaltadas aqui as características de povo “sério”, isto é, a capacidade de trabalho, organização e planejamento. Estas continuam sendo vistas como atributos de povos desenvolvidos.
Como afirma um personagem: “-- O japonês é efetivamente um povo trabalhador, de mentalidade muito diferente da nossa. Bote na mão de um brasileiro um terreno, bote na mão de um japonês outro igualzinho e você vai ver que, dentro de um ano, o japonês está rico e o brasileiro já vendeu para tomar cachaça e fazer filhos, esta é que é a verdade”. E mais adiante, no mesmo diálogo: “-- (..) O brasileiro é mulher, cachaça, futebol, carnaval e molecagem, esta é que é a verdade”. Portanto, para esta visão ufanista, o brasileiro é um Zé Carioca, aquele personagem brasileiro criado por Walt Disney: malandro, afável, bom de ginga e de bola.
II. A VOZ DO POVÃO
Diante de tantas afirmações sobre a natureza do povo brasileiro, impõe-se a seguinte questão: o que é que o povo, entendido aqui como as classes oprimidas -- índios, caboclos, negros e pobres em geral - o que é que o povo pensa de si mesmo e daqueles que pretendem pensar por ele? Encontramos em Viva o povo brasileiro, não um pensamento homogêneo, mas diversificado, de acordo com a época e com o grau de conscientização política dos personagens e até mesmo com o seu estranhamento em relação aos costumes dos outros grupos, como acontece, no século XVII, época mais recuada do romance, com o caboclo Capiroba, o cafuzo que, incapaz de compreender a teologia cristã, acaba aderindo à antropofagia, que não conhecia, justamente como reação à pregação jesuítica, que, para condenar a prática, tanto insistia no assunto. Em outros personagens, encontramos desde um certo “conformismo oportunista”, que caracteriza o Nego Leléu até um discurso francamente revolucionário, como o de Maria da Fé.
1. História e Oralidade
Em sua representação de personagens de elite, Viva o povo brasileiro, parodia desde a linguagem oral dos diálogos até gêneros da língua escrita, como o ensaio, a carta e até mesmo um poema romântico. Nas representação dos personagens do povo, o romance vai estilizar os gêneros orais: a história oral, quadrinhas e ditos populares, preceitos, receitas e mesmo discursos políticos. Exemplo dessa estilização é o discurso da velha Dadinha, no dia de sua morte. Trata-se de um discurso que muda de orientação de acordo com as perguntas da audiência; um discurso que insere, na narrativa, numerosas digressões que revelam a cultura popular, como esta lista de receitas: “(...) Porrada na cabeça, Santo Esteves; bostas presas, urinas presas, São Tolentino, bem como assim mulher ou besta entalada de parto.
Impossíveis, Santa Rita; viajando, São Cristovo; pedrada, São Pulinaro; esfolamento, São Bartolomeu; creca e e pereba, São Lazo; frechada e chunchada,
São bastião (...).” Portanto, Viva o povo brasileiro continua aquela tradição
de contraponto da cultura erudita com a cultura popular, de que são grandes
exemplos as obras de Rabelais e de Cervantes, especialmente o D. Quixote.A
oralidade é valorizada, pelos personagens populares, como a única fonte
legítima de sua história, em oposição ao documento escrito, por ser a versão
contada pelo próprio povo.
É o que se observa no discurso de um personagem popular, o cego Faustino, que
desmistifica o documento escrito: “(...) Além disto, continuou o cego, a
história feita por papéis deixa passar tudo aquilo que não se botou no papel e
só se bota no papel o que interessa.
Alguém que tenha o conhecimento da escrita pega de pena e tinteiro para botar
no papel o que não lhe interessa? Alguém que roubou escreve que roubou, quem
matou escreve que matou (...)? ”De fato, um dos personagens de maior prestígio
na comunidade dos escravos negros é a velha Dadinha. Com a sabedoria conferida
pelos seus 100 anos de idade, Dadinha é a verdadeira memória da comunidade,
“testemunha de tudo quanto aconteceu”.
É ela quem conta, seja através de suas próprias lembranças, seja através dos
espíritos que incorpora, a história pelo ângulo dos escravos. Daí a sua
preocupação, no dia de sua morte, em recontar a história tantas vezes contada:
“Eu vou ter de contar isso que já contei a um, já contei a outro, um pedaço
aqui, outro acolá (...) -- Por isso mesmo, para não ser tudo misturado e
ninguém se lembrar coisa com coisa logo depois que eu morrer, que eu vou
contar o importante, respondo pergunta, digo preceito.”
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