|
A crise Colômbia x Equador x Venezuela, entenda!
A crise diplomática entre Colômbia, Equador e Venezuela foi acirrada após a operação do Exército colombiano que provocou a morte de Raúl Reyes, líder considerado o número dois na hierarquia das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), em território equatoriano. Porém, as relações entre os países já estão degradadas há mais tempo. O conflito entre os presidentes colombiano, Álvaro Uribe, e venezuelano, Hugo Chávez, foi agravado quando a Colômbia decidiu encerrar a mediação de Chávez pela busca de um acordo humanitário para a libertação dos reféns em poder da guerrilha. O atrito entre Bogotá e Quito existe há anos e deve-se principalmente pela presença dos militantes das Farc na fronteira entre os dois países.
O impasse foi agravado no dia 1 de março, quando o Exército da Colômbia anunciou que teria matado o líder Luis Edgar Devia Silva, conhecido como Raúl Reyes, Guillermo Enrique Torres, conhecido como Julián Conrado, ideólogo da guerrilha, e outros 15 rebeldes em um acampamento em território equatoriano, durante um ataque aéreo cujo alvo estaria a cerca de dois quilômetros do limite entre os dois países. O governo de Bogotá afirmou que o presidente do Equador, Rafael Correa, teria sido informado da ação, mas não especificou se a informação foi passada antes ou depois do ataque.
Logo após o incidente, o governo equatoriano anunciou o inicio das investigações sobre a ação e exigiu um pedido formal de desculpas da Colômbia, já que a invasão do Exército colombiano teria sido uma "verdadeira bofetada na relação civilizada que deve ter países irmãos, fronteiriços" e que os guerrilheiros teriam sido "bombardeados e massacrados enquanto dormiam". A Colômbia insiste que não violou o espaço aéreo do país vizinho e que seus soldados cruzaram a fronteira para garantir a segurança da ação.
O presidente Hugo Chávez alertou que incursão semelhante em território venezuelano seria "motivo de guerra". Em seu programa dominical Alô Presidente!, Chávez anunciou o envio de dez batalhões de tanques para a região da fronteira com a Colômbia e que a Embaixada venezuelana em Bogotá seria fechada. O chefe de governo afirmou ainda que o assassinato de Reyes era "covarde" e chamou Uribe de "criminoso", "um lacaio, um mentiroso, chefe de um narcogoverno, mas não presidente de um país".
Chávez tem liderado as ações de resgate aos reféns que a guerrilha libertou num ato de desagravo à sua saída da mediação. Seis pessoas foram soltas: em janeiro, ex-assessora da campanha de Ingrid Betancourt, Clara Rojas, a ex-congressista Consuelo González e, em fevereiro, os quatro ex-parlamentares colombianos Gloria Polanco de Lozada, Luis Eladio Pérez, Orlando Beltrán e Jorge Eduardo Gechem.
Após o porta-voz presidencial da Colômbia César Mauricio Velásquez reiterar que Bogotá ofereceria um pedido formal de desculpas pela entrada de helicópteros no país para resgatar os corpos e pertences dos guerrilheiros mortos, Correa anunciou a expulsão do embaixador colombiano em Quito, Carlos Holguín, e a militarização da fronteira. O embaixador equatoriano também foi retirado da Colômbia.
O governo colombiano então afirmou que teria conseguido provas do envolvimento do governo equatoriano com as Farc, ao analisar o material apreendido na operação que matou Reyes. Segundo o general Oscar Naranjo, diretor da Polícia Nacional colombiana, os dados "permitem falar de um relacionamento estrutural das Farc tanto na Venezuela quanto no Equador". Teriam sido encontrados documentos, como e-mails e atas, em que estariam registradas conversas do líder das Farc morto com o ministro da Segurança Pública do Equador, Gustavo Larrea.
O general afirmou que a "esses documentos levantam a questão sobre quais são as relações do governo do Equador com a organização terrorista" e que "afetam a segurança nacional", além de ressaltar que Bogotá ainda esperava por explicações equatorianas. A justificativa de Uribe para afastar Chávez da mediação com as Farc em novembro foi semelhante, de que representantes venezuelanos teriam dialogado com a guerrilha e sem o conhecimento do governo colombiano.
Três dias após a morte de Reyes, o vice-presidente colombiano, Francisco Santos Calderón, afirmou que "alguns países" latino-americanos não cumpriam a resolução das Nações Unidas de combate ao terrorismo e que a Colômbia "não aceitará provocações que coloquem em risco a estabilidade da região". Ele afirmou ainda que pedirá pela mediação da União Européia no caso.
Colômbia diz que Equador mantém 'laços' com as Farc
O governo colombiano disse que o Equador mantém laços com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), segundo documentos encontrados em um dos computadores do guerrilheiro Raúl Reyes, morto no sábado. Segundo a Colômbia, os documentos revelam encontros e supostos acordos entre o governo equatoriano de Rafael Correa e a guerrilha.
Cópias dos documentos, um de 18 de janeiro e outro de 28 de fevereiro, ambos assinados pelo falecido Raúl Reyes e dirigidos aos chefes das Farc, foram apresentados pelo general Oscar Naranjo, diretor da Polícia Nacional, aos jornalistas no palácio do governo após o presidente Correa anunciar a expulsão do embaixador colombiano de Quito.
Naranjo disse que os documentos fazem parte da abundante documentação apreendida na operação efetuada pelo exército e polícia colombianos no sábado em território equatoriano, uns 1.800 metros da fronteira com a Colômbia, em que morreu Reyes.
Os documentos são "extremamente reveladores... E ao mesmo tempo demandam respostas das autoridades equatorianas" sobre os vínculos das Farc com o governo equatoriano, disse Naranjo.
"Repostas concretas são necessárias" sobre "o estado da relação, os motivos que produziram as entrevistas e contatos pessoais com Raúl Reyes em território equatoriano ou colombiano e é preciso esclarecer o alcance dessas relações que, em nossa opinião, afetam a segurança nacional colombiana, acrescentou o militar. Os documentos contêm "provas evidentes e contundentes que Raúl Reyes manteve uma agenda com o Equador", disse o oficial.
Os documentos não revelam o fornecimento de armas e munições por parte do Equador para os rebeldes, mas sim o nível das relações e da presença rebelde no país, que admitiu não ter numerosos contingentes militares na fronteira com a Colômbia, de uns 586 quilômetros de extensão.
Colômbia vai contar com a ajuda de agências de inteligência dos Estados Unidos para analisar todo o conteúdo dos computadores encontrados no acampamento rebelde no Equador e que foi tomado por uns 60 militares, infantes da marinha e policiais colombianos após um bombardeio aéreo com a assistência da inteligência americana, disse a AP um alto integrante da força conjunta que participou da operação e que falou em condição de anonimato.
No primeiro documento de 18 de janeiro, Reyes narra ao secretariado das Farc que teve um encontro com o ministro da Segurança equatoriano, Gustavo Larrea. O documento não tem a data nem o lugar da reunião. Entre os temas tratados estão o "interesse do presidente (Correa) em oficializar as relações com a direção das Farc", segundo mostra o texto. De acordo com a mensagem de Reyes, o governo equatoriano "considera (Uribe) perigoso na região".
Também, segundo Naranjo, se solicita ao máximo chefe das Farc, Manuel Marulanda, conhecido como "Tirofijo", uma contribuição que impulsione a gestão de Correa na troca humanitária, que poderia ser entregar a seu Governo o filho de um professor de sobrenome Moncayo, em poder dos rebeldes há mais de 10 anos.
Através do porta-voz Edmundo Carrera, o ministro de Segurança Interna e Externa equatoriano, Gustavo Larrea, assinalou que "os documentos são uma mentira e que a Colômbia tenta diminuir a gravidade do que fez".
No documento de 28 de fevereiro, Reyes narra ao secretariado da guerrilha o êxito da operação de entrega, um dia antes, ao presidente Hugo Chávez de quatro ex-congressistas colombianos que estavam seqüestrados há seis anos. O texto revela ainda que o "ponto negro" da liberação foi que um dos libertados informou sobre o estado grave da ex-candidata presidencial, Ingrid Betancourt. "O ponto negro é o crescimento da pressão pela libertação de Ingrid", que tem "um temperamento explosivo, é grosseira e provocadora com os guerrilheiros que cuidam dela".
Equador diz que prepara novas medidas contra Colômbia
O presidente de Equador, Rafael Correa, alertou nesta segunda-feira que adotará medidas diplomáticas mais duras nas próximas horas, na disputa que mantém com a Colômbia devido à incursão de militares colombianos no país durante uma operação contra a guerrilha Farc.
Correa não deu detalhes sobre o alcance das medidas, em meio a uma tensão detonada pelas circunstâncias em que morreu no sábado em território equatoriano o guerrilheiro "Raúl Reyes", o segundo homem da cúpula das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Correa determinou que a segurança na fronteira com a Colômbia fosse reforçada, enquanto lançou ações diplomáticas que incluíram a retirada de seu embaixador em Bogotá e a expulsão do representante colombiano em Quito, na pior crise diplomática da história recente entre ambos países.
O presidente equatoriano também negou ter contatos com as Farc.
América Latina se mobiliza para conter crise regional
A América Latina se mobilizou na segunda-feira para evitar que a pior crise diplomática da região em décadas, provocada por uma incursão militar da Colômbia no Equador, transforme-se em um conflito de graves
conseqüências.
Os efeitos da ação militar de sábado, na qual foi morto o número dois da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Raúl Reyes, se agravaram após as duras declarações do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
Depois de acusar o presidente colombiano, Alvaro Uribe, de ser "um mentiroso, um mafioso e um paramilitar", Chávez determinou o envio de mais soldados para a fronteira com a Colômbia, mesma manobra adotada pelo presidente do Equador, Rafael Caldera.
Os dois países retiraram seus embaixadores de Bogotá.
"Potencialmente, essa é a crise mais grave que a América do Sul enfrenta desde a quase guerra entre a Argentina e o Chile em 1978 e a guerra das Malvinas", afirmou Eduardo Viola, professor de relações internacionais na Universidade de Brasília.
O último conflito bélico na América do Sul ocorreu em 1995, quando Equador e Peru protagonizaram choques fronteiriços por conta de uma velha questão limítrofe, e foi solucionado por gestões de um grupo de "países amigos", integrado por Argentina, Brasil, Chile e Estados Unidos.
Na segunda-feira, os países da região intensificaram as consultas iniciadas no fim de semana para conter a crise, incluindo contatos entre presidentes e chanceleres.
O Brasil, que possui um reconhecido papel de liderança sobre os vizinhos, usará "toda a força" de sua diplomacia e coordenará ações com o governo dos outros países a fim de limitar a crise, afirmou Marco Aurélio Garcia, assessor para assuntos internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Iniciando esses esforços, Lula "conversará por telefone, na segunda-feira, com a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner", acrescentou García à rádio CBN.
O governo brasileiro não pretende interferir com os assuntos internos de outros países, "mas nosso princípio de não interferência não pode significar indiferença", afirmou o assessor. Por sua parte, o Conselho Permanente da Organização dos Estados Americano (OEA) convocou uma reunião extraordinária para terça-feira com o propósito de tratar do conflito.
Explicações do Equador
Em Santiago, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, disse que a incursão militar colombiana "merece sem dúvida uma explicação da parte da Colômbia aos equatorianos, ao presidente dos equatorianos e à região como um todo."
Bachelet afirmou à rádio chilena ADN que seu governo havia entrado em contado com a Argentina e o Brasil, bem como com o chefe da Organização dos Estados Americanos (OEA), para avaliar a situação.
"Todos nós queremos que haja paz, paz na região, e nesse sentido tanto a OEA como presidentes, os colegas, o presidente Correa, todos nós podemos desempenhar um papel tendo isso em mente", acrescentou.
O presidente do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos, condenou a operação militar da Colômbia e atribuiu aos organismos internacionais a obrigação de "encarar com seriedade a situação a fim de que possamos avançar preservando a paz e a convivência pacífica."
O Peru, vizinho da Colômbia e do Equador, manifestou sua "enorme preocupação" com a crise, afirmando esperar que os dois países mais a Venezuela possam superá-la.
"No Peru, confiamos que os laços históricos desses três países pesem muito mais que qualquer diferença circunstancial e que, de forma definitiva, seus presidentes e corpos diplomáticos saibam encontrar uma saída apropriada," afirmou o primeiro-ministro peruano, Jorge del Castillo, a uma rádio.
O presidente do México, Felipe Calderón, conversou mo domingo, por telefone, com seus colegas de Equador e Colômbia sobre "a delicada situação entre os dois países", disse a Presidência mexicana em comunicado.
Calderón expressou a "vontade de seu governo de apoiar qualquer ação, a pedido das partes, que favoreça o diálogo entre as nações, com o propósito de que a relação bilateral recupere sua normalidade o mais rápido possível", acrescentou a nota.
O ex-presidente cubano Fidel Castro, amigo de Chávez e de Correa, disse que "soam com força no sul do nosso continente as trombetas da guerra, e isso por consequência dos planos genocidas do império ianque."
"Nada de novo! Estava previsto!", acrescentou, em um texto publicado no jornal Granma. Fidel ainda lamentou o fato de Correa ter sido obrigado a cancelar sua visita a Cuba, onde seria o palestrante principal de um seminário sobre a globalização e o desenvolvimento.
No entanto, observou o professor Viola, apesar de a crise ser potencialmente muito grave, "dificilmente eles (os protagonistas da crise) avançarão para além da retórica."
Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo
|