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A Crise Iugoslava - Parte
II
MAIS UM ÊXODO NA HISTÓRIA
Desde o surgimento das primeiras civilizações, o mundo assiste ao drama dos êxodos. O mais importante está descrito no Velho Testamento, quando Moisés conduziu os judeus, em fuga do Egito, para terra prometida. A História dos judeus prosseguiu marcada por outras diásporas, como a promovida pelos romanos, ainda na idade antiga, além das perseguições por parte da Igreja Católica na Idade Média.
No início do século XX a fuga dos armênios, frente a perseguição turca, foi um dos êxodos mais trágicos da História, onde centenas de milhares de civis foram friamente assassinados.
Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, quando Israel invadiu a Cisjordânia mais de 300 mil palestinos refugiaram-se na Jordânia. Nos anos 70, esses palestinos foram expulsos do país, espalhando-se pelo mundo árabe. O drama palestino agravou-se com a guerra civil do Líbano, permanecendo sem uma solução mais definitiva até esse final do século XX, apesar de perspectivas mais concretas para que acordos de Paz viabilizem o surgimento de um Estado palestino soberano na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Nesse mesmo Oriente Médio, os curdos vivem um êxodo constante. Após a guerra Irã-Iraque (1980-1988), mais de 2 milhões fugiram para o Irã e Turquia, onde também enfrentam perseguições. Já há muito formam o maior grupo étnico sem um Estado soberano, na História mais atual.
Na África, em 1994, massacres de tutsis em Ruanda, levou a um êxodo de mais de um milhão em poucos dias.
Na Iugoslávia, durante a guerra da Bósnia (1992/1995), o mundo assistiu massacres e êxodos dos bósnios, em razão do movimento de independência frente ao domínio sérvio. Mais de 2 milhões de pessoas fugiam dos sérvios, o que representava quase um décimo da população da ex-Iugoslávia.
Mais recentemente, os Estados Unidos e seus aliados europeus, resolveram agir militarmente através da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e em 24 de março de 1999 lançaram-se à guerra contra o líder sérvio Slobodan Milosevic, realizando ataques com aviões de bombardeio e mísseis disparados por navios estacionados no mar Adriático. Os ataques foram ordenados, porque Milosevic se recusou a aceitar o acordo de paz de Rambouillet, que previa a entrada em kosovo de 30 mil observadores militares que monitorariam o cumprimento de um plano de autonomia para a província.
OS INTERESSES NA GUERRA
Os riscos desta guerra são enormes. Ao contrário da Bósnia, território disputado por pelo menos três facções, o kosovo é parte da Iugoslávia e um território sagrado para os nacionalistas sérvios mais exaltados. Uma região habitada por uma esmagadora maioria de albaneses (muçulmanos), que desde o final de 1997, abandonaram a resistência pacífica e abraçaram a guerra de guerrilhas comandada pelo Exército de Libertação de kosovo (ELK), com o objetivo de emancipar a região e torná-la soberana em relação a Iugoslávia. Os sérvios estão empregando em kosovo a mesma tática de faxina ética utilizada na Bósnia entre 1992/95: assassinatos em massa, estupros, espancamentos e expulsões.
Transcreveremos agora alguns trechos de um artigo publicado no jornal Folha de São Paulo (19/04/99), do professor da Universidade de Columbia, em Nova York e membro do Conselho Nacional Palestino, Edward Said.
"Nada do que os EUA ou a OTAN estão fazendo se deve realmente a qualquer intenção de proteger os kossovares ou lhes proporcionar independência. Antes, é uma demonstração de poderio militar cujo efeito a longo prazo é desastroso, assim como o é a política semelhante aplicada no Oriente Médio.
Em 1994, quando uma intervenção dos Estados Unidos poderia ter impedido o genocídio em Ruanda, nada foi feito. Os interesses em jogo não eram suficientemente altos, e a população negra não merecia o esforço.
Não há nada na política atual de bombardeio sobre a Sérvia que possa garantir a democracia na região ou proteger os kossovares albaneses que continuam submetidos a terríveis maus tratos.
De todos os perigos, o maior é que mais pessoas sejam expulsas de seus lares, mais vidas sejam perdidas e mais fragmentação ocorra em lugares como a Macedônia e a Bósnia. E tudo isso para que os Estados Unidos possam afirmar sua vontade de mostrar ao mundo quem manda. As preocupações humanitárias expressas são pura hipocrisia; o que realmente vale é a expressão do poder norte-americano".
Ninguém tem dúvidas de que coisas terríveis estão sendo feitas pelos sérvios contra a população de origem albanesa. A ação sérvia contra os kossovares, está produzindo um outro grande êxodo na Historia.
Será que a investida militar da OTAN, cujo suposto objetivo seria obrigar Milosevic a abrir mão de sua política
genocida e negociar, aliviará ou agravará este trágico cenário?
O que percebemos até o final de abril de 1999, é que o regime de Milosevic se fortalecia, já que a maioria de seu povo acreditava que a Iugoslávia estava sendo atacada injustamente. Esta guerra aérea era vista pelos sérvios como uma intromissão covarde suscitando neles um sentimento de perseguição e promovendo em alguns um nacionalismo cada vez mais exacerbado e histérico.
Quanto a população do kosovo, estima-se que era de 1,8 milhão de habitantes até 1998 -- com 90% de etnia albanesa e 10% de sérvios. Segundo a ONU, mais de 1 milhão de pessoas estão totalmente dispersas e desalojadas dentro da província e nos países limítrofes.
A OFENSIVA DIPLOMÁTICA
Os últimos acontecimentos entre maio e junho de 1999 indicam que a guerra não se estenderá por muito tempo e forçosamente, terá uma solução negociada.
A composição de uma força de paz para estabelecer um acordo é um dos pontos mais difíceis da negociação. Milosevic resiste em aceitar que países que participam dos ataques integrem a missão, enquanto que os Estados Unidos e os outros países da Otan pretendem não somente participar da força de paz, mas também coordená-la.
A Iugoslávia acusa a Otan de ter cometido mais de uma dezena de erros, que resultaram na morte de cerca de 300 civis até o final de maio de 1999. A Otan por sua vez não aceita todos esses erros. Se foram 300 ou 300 mil, pouco importa. A morte nessas condições é deplorável, principalmente quando a maioria das vítimas é formada por civis.
A destruição da infra-estrutura e da máquina militar da Iugoslávia, associada aos sinais de dissidência entre políticos e militares do país ( no início de junho em Montenegro foi reprimida uma grande manifestação popular anti-Milosevic) e a insatisfação do próprio povo, cada vez mais privado dos serviços básicos como eletricidade, água e transporte, estão levando Milosevic a aceitar o plano de paz do Grupo dos 8 (os sete mais ricos países capitalistas e a Rússia). Como a maioria dos países da Otan não apóia a invasão do kosovo por terra, a via diplomática parece ser a mais viável para o término do conflito. A Otan pretende ainda evitar o "fator inverno" (a dificuldade de atuar na região durante o inverno, além da necessidade dos refugiados kossovares estarem de volta em suas casas até agosto, para que possam se reorganizar e no final do ano suportar o rigoroso inverno na região).
Na ofensiva diplomática, em 2 de maio de 1999, o negociador russo Viktor Tckernormidin, e o representante da União Européia Martii Ahtisaari, estarão em Belgrado, para se encontrar com o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic. Nessa reunião, os negociadores pretendem sentir até onde Milosevic pretende de fato ceder. Pode ser o primeiro passo para o fim da guerra dos Balcãs, apesar de ainda existirem pontos de discórdia, como a retirada das tropas iugoslavas do kosovo e a composição de uma força militar a ser enviada para província. Frente a essas exigências a Iugoslávia insiste em manter o mesmo aparato militar que estava no kosovo antes do início da ofensiva além de não aceitar as tropas dos países que participam dos ataques desde 24 de março de 1999.
Outra questão delicada é o status de kosovo. Os kossovares de origem albanesa reivindicam a independência da província, enquanto que os sérvios consideram a região como berço de sua civilização e não aceitam perdê-la. Em kosovo há mosteiros ortodoxos, religião da maioria dos sérvios, e o local onde ocorreu a histórica batalha do kosovo contra os otomanos -- de religião muçulmana como os albaneses -- que dominaram a península balcânica por mais de cinco séculos.
A PROPOSTA DO G-8
Retirada de kosovo das forças militares, policiais e paramilitares.
Presença efetiva internacional, tanto civil quanto segurança, endossada e adotada pela ONU, capaz de garantir o objetivo comum.
Estabelecimento de uma administração interina para kosovo, a ser decidida pelo Conselho de Segurança da ONU, para garantir condições de vida pacífica e normal na província.
Retorno seguro e livre de todos os refugiados e pessoas deslocadas. Acesso desimpedido a kosovo de organizações de ajuda humanitária.
Fim imediato e verificável da violência e repressão em kosovo.
Estabelecimento de regras políticas para uma administração inteirando substancial autogoverno em kosovo, levando-se em conta os princípios de soberania da Iugoslávia e de outros países da região e desmilitarização do Exército de Libertação de kosovo (ELK).
Uma abrangente aproximação econômica do G-8 em relação à região em crise.
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