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Biogeografia - Parte I
No conjunto das discussões sobre meio ambiente e desenvolvimento, um dos temas que mais despertam interesse é o da conservação da biodiversidade, ou seja, da pluralidade das espécies que vivem num dado ambiente. Esse interesse, até mesmo de origem política, aponta para a importância do estudo da biogeografia, uma disciplina relativamente nova, estreitamente ligada à ecologia.
Compreende-se por biogeografia a ciência que estuda a distribuição dos seres vivos no planeta, suas causas e conseqüências. Disciplina que constitui o elo da ligação entre a geografia física e a humana, a biogeografia envolve o conhecimento tanto da repartição atual das plantas e dos animais pelos variados ambientes em que sobrevivem, como dos fatores que intervêm nesse processo. Na abordagem biogeográfica, não há nada na natureza que exista isoladamente e por isso é indispensável conhecer as causas da associação ou afastamento de determinadas espécies, assim como os diferentes aspectos morfológicos pelos quais estas se apresentam.
Os grandes acontecimentos geológicos, como as glaciações, a separação dos continentes, as transgressões marinhas e formação das montanhas, foram os responsáveis mais significativos pela caracterização da flora e da fauna de cada paisagem natural da Terra e, desse modo, por sua divisão biogeográfica. Em função da presença ou ausência de certos animais (zoogeografia) ou plantas (fitogeografia), os geógrafos dividiram a Terra em diversas regiões biogeográficas.
Regiões biogeográficas. A primeira divisão zoogeográfica foi realizada, no século XIX, pelo naturalista britânico Alfred Russell Wallace, que tomou como modelo a distribuição dos mamíferos. Contemporaneamente, diferenciam-se cinco regiões zoogeográficas, que incluem a repartição das aves migratórias e dos cardumes de peixe, obviamente de definição mais difícil: (1) holártica, que contém as sub-regiões paleártica (Europa, norte da África e parte não-tropical da Ásia) e neártica (América do Norte); (2) paleotropical, que compreende as sub-regiões etiópica (restante da África e Arábia) e oriental (parte tropical da Ásia); (3) australiana (que reúne Austrália, Nova Zelândia, Nova Guiné e as ilhas tropicais do Pacífico); (4) neotropical (constituída da América do Sul e América Central); e (5) antártica.
As fronteiras entre essas diferentes regiões não são precisas, de modo que existem zonas de transição em que se podem achar espécies ligadas a duas regiões diferentes. Uma das zonas de transição mais extensas situa-se entre a sub-região oriental e a australiana. Compreende as ilhas Celebes, as Molucas e outros arquipélagos menores.
As regiões fitogeográficas são bem mais numerosas do que as zoogeográficas. Existem mais de trinta áreas diferentes. Essa diversidade, por si só, já indica o problema que representa a seleção de critérios para determinar corretamente as divisões. Entre outras coisas, é preciso identificar as espécies que definem os limites de uma região e justificar a escolha do sistema que fundamenta tal distinção. Além disso, existem fatores que condicionam a expansão de algumas espécies. De modo geral, as plantas têm menos condicionamentos físicos para se expandir do que os grandes animais, já que suas sementes podem ser levadas a grandes distâncias pelo vento (dispersão anemocórica), pela água (hidrocórica) ou pelos insetos (entomocórica).
As grandes regiões subdividem-se em sub-regiões e estas em províncias, nas quais se tornam determinantes os fatores locais. Assim, portanto, é comum registrarem-se descontinuidades na distribuição das espécies animais e vegetais por força de condições locais como as climáticas, as geológicas ou as intrínsecas das camadas superficiais do solo. À medida que se sobe uma montanha muito alta, por exemplo, verificam-se mudanças tanto na fauna quanto na flora. É comum, também, que um dos lados da montanha, aquele a que primeiro cheguem as massas de nuvens, registre maior volume de precipitação do que o outro. Um e outro condicionamento suscitam diferenças notáveis nas comunidades de seres vivos assim afetadas.
Região holártica. Também chamada boreal, a região holártica, inclui toda a terra existente ao norte de uma linha que passa pelas zonas desérticas do México, pelo Saara e pela cordilheira do Himalaia. Envolve ainda uma sub-região ártica, situada no extremo norte e nas proximidades do círculo polar ártico. Nesta faixa, a terra encontra-se quase permanentemente coberta de gelo e apenas durante o rápido verão ocorre o crescimento de ervas, musgos, liquens e alguns arbustos que constituem a vegetação característica da tundra. Na parte meridional, não existem árvores de alto porte: apenas bétulas e sabugueiros. Entre seus animais peculiares estão o urso polar, a raposa ártica, o lemingo (Lemmus lemmus), a rena, a lebre ártica, as focas e os leões marinhos. Convivem também ali algumas espécies de aves e insetos.
Ao sul da sub-região ártica estende-se um cinturão florestal de coníferas que ocupa a maior extensão da região holártica. Esse tipo de mata denomina-se taiga e é integrado por árvores como o pinheiro, o abeto ou o cedro, bem como por arbustos e liquens. Seus animais adaptam-se à vida arbórea. Observam-se entre os mais característicos o lince, o castor, o arminho, o esquilo, o pica-pau e o bico-cruzado. Alguns dos grandes mamíferos peculiares à paisagem são o cervo canadense e a rena da taiga.
No terço meridional da região holártica estendem-se matas caducifólias e, na parte centro-asiática, as estepes. A elevação das temperaturas suscita, no extremo sul, o aparecimento de paisagens como a da floresta mediterrânea européia, composta basicamente de azinheiros, carvalhos e diversos arbustos. Nesses pontos mais meridionais da região holártica, existe um maior número de espécies de anfíbios, répteis e peixes. Alguns dos animais característicos são o camelo, o veado, o urso pardo, a camurça, o texugo, a perdiz e o pintarroxo. Na sub-região neártica, algumas espécies são consideradas oriundas da região neotropical, como o tatu e o gambá.
Na sub-região etiópica distingue-se uma grande variedade de ambientes: bosques úmidos, estepes e savanas, em que se registra a mais elevada densidade populacional de mamíferos em todo o globo. São representativas dessa região espécies como o leão, o rinoceronte, os antílopes, a girafa, o gorila, o chimpanzé, o elefante, a zebra e o hipopótamo.
Região paleotropical. Dentro da região paleotropical, a sub-região oriental apresenta savanas no planalto central da Índia, florestas tropicais de montanha em sua parte sul-ocidental e florestas úmidas na zona limítrofe com o Himalaia. Representam bem essa região o elefante asiático, o tigre, a anta malaia, o rinoceronte asiático, o orangotango, várias espécies de outros macacos e de morcegos. Outro de seus traços peculiares é a grande variedade de répteis.
Região australiana. A região australiana, que na verdade deveria denominar-se oceânica, possui uma fauna muito particular, composta de marsupiais e monotremados, grupo a que pertence o conhecido ornitorrinco.
Região neotropical. Observa-se na região neotropical grande diversidade de ambientes, desde os picos andinos até as florestas tropicais das planícies e planaltos. São espécies autóctonas o tatu, o porco-espinho, o tamanduá-bandeira, a lhama, a cutia, a chinchila, a sucuri, numerosos macacos e aves.
Região antártica. Por estar a região antártica permanentemente coberta de gelo, torna-se difícil ali o desenvolvimento das condições adequadas à vida. A maior parte dos animais dessa área habita as faixas litorâneas, em que vivem pingüins, albatrozes, focas e alguns insetos. A vegetação é semelhante à da tundra em algumas ilhas subantárticas.
O limite entre a região neotropical e a sub-região neártica encontra-se aproximadamente sobre a latitude do estado mexicano de Sonora. Considera-se que, do ponto de vista evolutivo, a união entre as duas zonas ocorreu em época relativamente recente, motivo pelo qual a primeira desenvolveu uma fauna tão peculiar como a australiana.
A biogeografia e as outras ciências. Fator decisivo para o avanço da biogeografia foi a análise das causas que motivavam a distribuição em regiões. A partir desse momento, a biogeografia converteu-se em ciência interdisciplinar.
Uma vez que todos os organismos dispõem de determinados espaços dentro dos quais podem viver, a ecologia, ciência que estuda as características do meio e sua relação com os seres vivos, reúne valiosos dados para esclarecer quais podem ser os fenômenos limitadores que, em certas regiões, impossibilitam a sobrevivência de uma ou mais espécies. Dois dos fatores mais importantes são os de caráter climático e os relacionados com a composição do solo.
Os fatores climáticos, tais como temperatura, umidade, horas de sol, precipitações e ventos, afetam bastante os seres vivos. Alguns deles, como a temperatura, apresentam uma distribuição geográfica que segue certas leis. Em meados do século XIX, Alexander von Humboldt observou que a temperatura aumenta aproximadamente 1o C a cada dois graus de latitude a partir do pólo até o equador, e Frank Michler Chapman descobriu que, inversamente, diminui 1o C a cada 200m de elevação a partir do nível do mar.
O conhecimento de regras desse tipo ajuda a predizer que espécies podem ser encontradas em uma determinada região. Por exemplo, Carl Bergmann, naturalista alemão do século XIX, assegurou que, entre espécies afins dos homeotermos (aqueles que mantêm constante sua temperatura corporal), as de maiores dimensões tendem a habitar mais perto do pólo ou em lugares mais altos, já que um animal de maior tamanho dispõe de melhor relação massa/superfície e despende menos energia para manter sua temperatura diante do frio exterior.
Também é fundamental conhecer a composição do solo da região, pois depende dela, em grande parte, o tipo de vegetação que ali se pode desenvolver e, indiretamente, as espécies de animais que a área pode abrigar. Embora os fatores climáticos permitam o crescimento de grandes plantas tropicais, um solo salinizado, ou no qual não proliferem as substâncias nutritivas necessárias a tais espécies, pode levar à desertificação da área.
Biogeografia histórica. Entre outros aspectos, a moderna biogeografia ocupa-se da distribuição dos seres vivos ao longo da história. Relaciona-se assim com a paleontologia, que estuda os seres já desaparecidos mediante seus restos fósseis. Essa aproximação é fruto do interesse por conhecer não apenas a atual distribuição dos seres vivos, mas também a passada, assim como as maneiras pelas quais essa distribuição se modificou.
A moderna teoria da evolução sustenta que todos os seres vivos atuais provêm de antepassados comuns, pelo que se poderia construir uma árvore genealógica em que se incluiriam tanto os seres que habitam o planeta como aqueles que se extinguiram. Com relação a isso, registrou-se desde os começos da difusão da teoria evolucionista uma exaltada polêmica entre os monofiletistas, que crêem em uma origem única da vida, e os polifiletistas, que acham ter a vida surgido em diferentes momentos da história da Terra.
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