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Revisão de Geografia

 
Biogeografia
 

 

 

Biogeografia - Parte II

A biogeografia, com a ajuda da paleontologia, desempenhou nesse debate uma função de equilíbrio, mediante a apresentação de dados que identificam, na superfície terrestre, os pontos ou focos iniciais a partir de onde se expandiu uma espécie ou um conjunto de espécies. Assim, por exemplo, costuma-se situar o centro inicial de dispersão dos vertebrados terrestres na região holártica. O maior problema desse método de estudo está na obtenção de todos os dados paleontológicos necessários.
Outro dos problemas abordados pela teoria da evolução, e sobre o qual a biogeografia histórica pode lançar certa luz, é o do insulamento. Segundo alguns biólogos, não pode aparecer uma nova espécie a não ser que, num dado momento, ela fique isolada daquela de que provém. Em conjunção com a geologia, a biogeografia pode estudar as possíveis causas de antigos insulamentos e comprovar se a distribuição de restos fósseis se acha correlacionada com a existência de barreiras como cordilheiras, mares etc. Pode estudar, ainda, as diversas influências que tais barreiras puderam exercer sobre diferentes espécies. Exemplo significativo da utilidade da colaboração entre a geologia e a biogeografia é a explicação da existência de animais da mesma espécie em lugares que atualmente se encontram muito afastados. Para isso, é preciso recorrer à teoria geológica da deriva dos continentes, segundo a qual todas as terras emersas no começo estavam unidas, dando-se posteriormente a separação nos atuais continentes. Assim se explicaria, por exemplo, a existência dos dipnóicos (ordem de peixes arcaicos da qual só algumas espécies sobreviveram) na África do Sul, Austrália e América do Sul, regiões que, nos tempos pré-históricos, se achavam ao sul de um mesmo continente.
Em alguns casos, o homem contribuiu para fazer variar a distribuição de certas espécies. Em migrações, viagens e campanhas militares transportou sementes e animais, o que algumas vezes ocasionou desastres ecológicos, visto que a introdução de uma nova espécie em um ecossistema pode alterá-lo consideravelmente. Do mesmo modo, a prática da agricultura influiu na difusão de algumas espécies cultiváveis e no desaparecimento de outras em vastas regiões, devido à sistemática derrubada de árvores.
O conhecimento da distribuição das espécies de seres vivos, propiciado pela biogeografia, assim como o de suas relações e inter-relações com o meio, proporcionado pela ecologia, tornam-se fundamentais quando se trata de promover a utilização racional dos recursos naturais. Daí por que o desenvolvimento e integração da biogeografia e da ecologia no campo das ciências biológicas constituem fato muito auspicioso para o estudo da natureza.

Os domínios morfoclimáticos brasileiros
As faunas e floras do hemisfério norte acham-se bem catalogadas. Sua evolução e distribuição relacionam-se com os ciclos de glaciação que se desenrolaram durante o pleistoceno. Não se dá o mesmo com os continentes tropicais, cujas floras e faunas estão ainda mal catalogadas e pior ainda mapeadas. Até recentemente não se dispunha de uma teoria adequada a sua interpretação. Procurou-se aplicar aos continentes tropicais, sem muito sucesso, os esquemas adotados para o hemisfério norte.
O conceito de domínios morfoclimáticos, fixado pelo geógrafo brasileiro Aziz Nacib Ab'Saber, e a utilização de dados modernos sobre ciclos climáticos do passado geológico recente, abriram novas possibilidades para a abordagem biogeográfica dessas regiões. Os componentes básicos da teoria são os seguintes: (1) cada domínio morfoclimático corresponde a uma ampla área nuclear, poligonal, onde se sobrepõem padrões característicos de clima, topografia e vegetação; (2) as faixas que separam essas áreas nucleares podem ser amplas e podem contar com vegetação de tipo intermediário ou com mosaicos da vegetação característica dos domínios vizinhos; (3) dentro de cada área nuclear pode haver enclaves (intromissões) de vegetação característica de outros domínios. O último item é corolário de um fato importante, evidenciado pela moderna geomorfologia tropical: as áreas nucleares dos domínios sofreram oscilações muito rápidas e extensas, determinadas por ciclos climáticos durante os quais se alternam fases mais úmidas e fases mais secas. Tais ciclos são de milhares ou dezenas de milhares de anos, e não de milhões, como se pensava. Por isso se tem hoje por certo que, há pouco tempo e por mais de uma vez, as florestas da América do Sul e da África tenham sido submetidas a retrações enormes, reduzindo-se a alguns refúgios isolados, cercados de formações abertas. Considera-se provável que, durante algumas das fases em que as florestas voltaram a se expandir, elas tenham alcançado desenvolvimento maior que o de hoje, e que regiões florestais atualmente separadas por formações abertas tenham estado em contato direto em passado não remoto.
Até agora, o conceito de domínios morfoclimáticos só foi aplicado ao Brasil, ainda não se estendendo ao restante da América do Sul. Como o Brasil compreende, porém, alguns domínios muito grandes, favorece a exemplificação das normas básicas da teoria, assim como de padrões de distribuição e do tipo de problemática com que hoje se defronta a biogeografia das regiões tropicais. Os domínios morfoclimáticos brasileiros são seis, designados pelas formações vegetais que os caracterizam. Três deles contêm florestas: a hiléia amazônica, a floresta atlântica e a floresta de araucária. Os três outros são de formações abertas: os cerrados, as caatingas e os campos do sul. A flora de cada uma dessas regiões é inteiramente peculiar. No caso da fauna, contudo, a catalogação, o mapeamento e a informação ecológica ainda são incompletos, mesmo no caso de classes mais conhecidas, como as das aves e dos mamíferos. 
A utilização de uma espécie animal em estudos de biogeografia depende de sua fidelidade a determinado tipo de ambiente. Certas espécies são dotadas de grande versatilidade ecológica e podem sobreviver em ambientes muito diversos, de modo que não exprimem as limitações ecológicas de cada domínio. Entre os mamíferos, por exemplo, a suçuarana, puma ou onça-parda (Felis concolor), é encontrada em todos os tipos de ambiente da América, dos quase desertos até as florestas densas, das montanhas Rochosas do Canadá até a Patagônia. Outros mamíferos de bastante versatilidade, embora não tanta, são a onça-pintada (Leo onca), a anta (Tapirus terrestris) e o veado-catingueiro (Mazama simplicicornis).
A maioria das espécies, porém, compreende animais totalmente vinculados a determinado tipo de ambiente, e é por esse princípio que se orienta a zoogeografia ecológica. As diferenças faunísticas entre as formações abertas e fechadas são expressivas. Ilustra bem a flexibilidade com que os domínios morfoclimáticos se relacionam a separação, no Brasil, entre a hiléia e a mata atlântica, marcada por ampla faixa de formações abertas. Pode-se comprovar que tal situação antecede a colonização européia. As espécies em comum existentes num e noutro habitat, no entanto, indicam que no passado teria havido continuidade entre as duas florestas, ou teriam existido, nas formações abertas intervenientes, florestas ciliares (matas de galeria) suficientemente extensas para permitir a permuta faunística.
Tão notáveis, porém, quanto as semelhanças entre as duas florestas são as suas diferenças, em que as peculiaridades amazônicas sobressaem mais do que as atlânticas. Nas relações entre o cerrado e a caatinga, realidades que possuem extenso contato uma com a outra, a similaridade pesa bem mais que os traços particulares, às vezes sutis, mas inegáveis. Dos mais curiosos é o fenômeno dos enclaves, como é o caso dos brejos, pequenas áreas de mata no interior da caatinga, e das zonas de cerrado dentro da hiléia ou dentro de mata atlântica. Por sua pequena extensão, esses enclaves não abrigam conjuntos faunísticos como os das áreas nucleares de cada domínio. Quase sempre, porém, neles se encontram populações isoladas de espécies características das áreas nucleares, como a cascavel, por exemplo, presentes nos enclaves de cerrados amazônicos, mas incapaz de penetrar em nenhuma faixa da mata.

 

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