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" CANUDOS "
OS FANTASMAS DA IMPRENSA. - Parte II
O ATENTADO CONTRA PRUDENTE
A guerra contra Canudos estava concluída no sertão e as tropas que ali lutaram começaram a voltar para seus estados. A grande tragédia não cessara seus efeitos, contudo. Seu último episódio aconteceu na capital da República, o Rio de Janeiro.
Apesar da vitória do governo contra Canudos, os adversários de Prudente continuavam ativos e tentaram um último e desesperado golpe para destruí-lo. Quando Prudente assistia o desembarque de batalhões que haviam lutado em Canudos, nos cais do porto do Rio de Janeiro, em 5 de novembro de 1897, o soldado do exército Marcelino Bispo tentou alvejá-lo com uma garrucha, mas a arma emperrou e não disparou.
O ministro da Guerra, marechal Bittencourt, atracou-se com o soldado e foi apunhalado, morrendo logo depois. Interrogado, o assassino confessou que era "fanático pela memória do marechal Floriano Peixoto". Era leitor assíduo do jornal florianista O Jacobino, que fazia oposição ao governo de Prudente de Moraes.
Segundo Marcelino Bispo, fora o editor desse jornal, Deocleciano Martyr, que o induzira a matar o presidente sob o argumento de que "o governo perseguia o exército" e de que "a questão de Canudos era feita pelo governo com o intuito de fazer voltar a Monarquia". Declarou que Deocleciano lhe fornecera as armas para praticar o crime.
Interrogado, Deocleciano Martyr confirmou as acusações e revelou as ligações que tinha com vários civis que estavam envolvidos no atentado, entre eles o vice-presidente Manoel Vitorino e o deputado Francisco Glicério, ambos adversários do presidente Prudente.
Fortalecido com essas revelações, Prudente fechou jornais oposicionistas, processou os cúmplices do assassino e depurou o exército e o governo dos elementos florianistas radicais. O florianismo chegou ao fim e Prudente governou tranqüilamente até o fim do seu mandato.
CONCLUSÕES PROVISÓRIAS
Com o passar do tempo, a Guerra de Canudos foi caindo no esquecimento e passou a ser lembrada apenas para exaltar os vencedores. Sobre os sertanejos vencidos, nenhuma palavra.
Hoje, porém, Canudos tem despertado discussões apaixonadas. Diferentes versões tem sido apresentadas sobre qual seria o verdadeiro significado daquela guerra civil.
Uma das versões é o significado histórico do episódio, entendido como uma luta de povo sertanejo contra a opressão, contra a miséria, contra o abandono, contra a politicagem, contra a intolerância.
A interpretação racista de Euclides da Cunha foi a que mais tempo predominou, mas seus conceitos não resistiram a outros argumentos.
Outra versão, mais recente, foi externada pelo Jornal de Brasília, em 12.08.1984:
"Canudos não foi um movimento de fanáticos e ignorantes, mas uma resistência coletiva sob a liderança de um homem que já era calejado na defesa dos oprimidos. Conselheiro era líder popular e carismático que aglutinou o povo na defesa dos seus direitos fundamentais de sobrevivência".
Essa versão sócio – política se opõe a interpretação racial e geográfica de Euclides da Cunha.De qualquer forma, a tragédia de Canudos desmentiu uma falsa concepção, a da "Cordialidade" brasileira, que procura explicar a História do Brasil como uma sucessão de fatos não violentos, pacíficos, resolvidos tranqüilamente entre as elites e o povo, entre dominadores e dominados...
Em relação a Canudos essa "cordialidade" significou a aliança entre os ricos e os poderosos "coronéis" com as autoridades religiosas, judiciárias, políticas e militares dos municípios, estados e União para destruir Canudos e massacrar sua população.
A imprensa da época preparou a opinião pública para "aceitar" e seus desdobramentos, criando interpretações deturpadas e sensacionalista sobre os acontecimentos e inventando boatos absurdos sobre Antônio Conselheiro.
A guerra contra Canudos representou um crime praticado contra o povo nordestino e contra a sociedade brasileira, pois foi provocada por motivos mesquinhos, pessoais e demagógicos. Foi uma tragédia injustificável.
Há quem considere Antônio Conselheiro o maior vulto da História do Brasil. Na verdade, ele é uma figura controvertida, que tem sido cada vez mais estudada pelos historiadores . Causa admiração sua liderança moral, seu senso de justiça e sua coragem para conduzir os destinos de Canudos e de sua gente.
O local onde existiu Canudos hoje está coberto pelo Açude de Cororobó, que representou 20 Km. das águas do Rio Vaza – Barris. Após o fogo, as ruínas de Canudos foram cobertas de água para apagar a memória da guerra.
É um crime contra a História.Às margens do açude existe hoje um lugarejo chamado Nova Canudos, onde predomina a mesma miséria, o atraso, a exploração e a ignorância que existiu antes de Antônio Conselheiro fixar-se por lá e fundar Belo Monte – Canudos.
Um dos habitantes de Nova Canudos, Roberto Gama, declarou em agosto de 1989: "Os sertões mudaram muito pouco desde a Guerra de Canudos".Apagaram Canudos do mapa e tentaram também apaga-lo da memória do povo. Inútil .
Canudos é um pedaço vivo da nossa história.
Canudos foi uma luta realmente popular, que represento a resistência do povo brasileiro, e inscreve-se na longa seqüência de lutas iniciadas pelos índios contra os colonizadores, pelos escravos e seus quilombos livres, pelos pobres das revoltas do período regencial, pelos cangaceiros, pelos camponeses e pelos operários.
Todas essas lutas tinham como ideais, consciente ou inconsciente, a liberdade e a justiça, utopias que lutamos para conquistar há quase 5 séculos. Por elas o povo lutou e continua lutando até hoje.
CONCLUSÃO
Uma das maiores lutas do povo brasileiro até hoje, talvez a maior, aconteceu nos sertões da Bahia, no final do século XIX: a chamada Guerra de Canudos. Foi uma verdadeira guerra civil, envolvendo brasileiros contra brasileiros, que poderia ser evitada se as paixões políticas e os interesses sociais das partes envolvidas não fossem tão conflitantes.
Os sertanejos lutavam para defender a comunidade de Belo Monte – Canudos, fundada por um pregador religioso conhecido pelo apelido Antônio Conselheiro, líder espiritual e moral de milhares de pessoas. Era uma comunidade auto – suficiente em recursos materiais, onde homens e mulheres trabalhavam a terra e não haviam violências. Belo Monte – Canudos era o oposto da economia e da sociedade nordestina existentes há 4 séculos, em que predominava a grande propriedade rural monocultura, as relações escravistas de trabalho, a violência dos poderosos contra os humildes, a ignorância da maioria, o mandonismo político dos "coronéis" etc.
Como a comunidade fundada por Antônio Conselheiro negava tudo isso e ameaçava os interesses dos poderosos fazendeiros, Igreja Católica e do governo, foram enviadas forças militares para atacar os sertanejos canudenses, mobilizando enormes recursos humanos e materiais, em sucessivas expedições, entre o ano de 1896 e 1897.
Neste trabalho acompanhamos a história de Canudos, a trajetória de seu idealizador e organizador, Antônio Conselheiro, a formação de Belo Monte – Canudos e a atuação de seus inimigos, a delicada situação política no início da República e a trágica guerra.Este trabalho é muito importante para a atualidade à medida que relembra a presença ativa, consciente e construtiva do povo nordestino na tentativa de criar e manter uma comunidade voltada para seus próprios interesses, mesmo nas condições naturais adversas. Relembrar Canudos é relembrar uma vitória do nosso povo.
Canudos reaparece em cada luta do povo brasileiro, em cada resistência, em cada protesto, em cada mudança, porque o povo é verdadeiro agente da sua História.
O povo somos nós!
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